Pedro Oliveira: "Estamos a exportar alguns dos melhores recursos que formamos em Portugal"

Diretor da Nova SBE critica a falta de atratividade e competitividade do mercado interno. Para conseguir reter talento, é preciso pagar melhores salários e reduzir os custos de contexto.
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Diretor da Nova School of Business & Economics (Nova SBE), onde é professor catedrático e detentor da Cátedra da Fundação Calouste Gulbenkian, Pedro Oliveira viveu nos últimos cinco anos com a sua família na Dinamarca onde foi professor na Copenhagen Business School. Doutorado em Gestão de Operações, Tecnologia e Inovação pela University of North Carolina e licenciado em Engenharia Naval pelo Instituto Superior Técnico, está há sete meses à frente da Nova SBE que, entre sexta-feira e sábado, recebe as Conferências do Estoril.

Há um tema muito atual e que certamente cabe nas Conferências do Estoril que estão a decorrer na Nova SBE: como antevê o futuro do mercado de trabalho?
É difícil antecipar uma resposta. A boa notícia sobre previsões é que as previsões estão sempre erradas, o que é um desafio para quem está à frente de uma universidade e que pensa sobre como educar os alunos para o futuro. Muito mais do que dar aos alunos as ferramentas para atacarem um problema concreto, que vai acontecer no futuro, temos que dar as ferramentas para eles pensarem, aprenderem a pensar, a analisar os problemas. Hoje, estamos preocupados com a Inteligência Artificial, parece inevitável. Há quem queira parar a Inteligência Artificial. Mas qualquer esforço desse tipo seria inútil como parar o vento com as mãos. Temos de pensar que, no futuro, a Inteligência Artificial e outras tecnologias que não nos passam pela cabeça ainda vão alterar a forma como trabalhamos, vão alterar as profissões.

A Nova SBE está muito bem posicionada nos rankings internacionais enquanto escola de negócios. Aumentou o número de alunos estrangeiros?
Não há dúvida que os candidatos, um pouco por esse mundo, olham para os rankings para escolherem onde vão estudar a seguir. Este é um ano curioso, porque não queríamos aumentar o número de alunos. Em todos os processos de admissão, há uma fase em que se faz uma oferta aos alunos e fazemos ofertas um pouco por todo o mundo e muitas vezes rejeitam-na, porque também foram admitidos no INSEAD ou no Imperial College ou na Copenhagen Business School. O que este ano aumentou foi a taxa de aceitação e acabámos por aumentar o número de alunos porque, fazendo o mesmo número de ofertas, tivemos mais candidatos. Os alunos de mestrado são 70%. No total, entre mestrados e licenciaturas, o número de estrangeiros já é superior a 50%. Um dos objetivos que temos para este mandato é aumentar a diversidade. Neste momento, temos 92 nacionalidades, mas não temos uma distribuição homogénea. Temos essencialmente europeus. Um dos objetivos é aumentar o número de alunos de fora da Europa. E, por isso, estamos a criar programas com escolas como a Universidade de Nova Iorque. Os alunos começam cá e terminam em Nova Iorque.

Mas Portugal não está a conseguir reter esses alunos estrangeiros cá. Porquê?
Hoje, as ofertas que os nossos alunos têm em Portugal são infelizmente bastante inferiores àquelas que obtêm de países no estrangeiro, na Europa, desde logo. E como os alunos são muito móveis acabam por ir atrás dessas boas ofertas e não é só as ofertas, depois há um contexto que, em Portugal, às vezes é melhor outras vezes é pior. Neste momento, viver em Portugal não é muito fácil para quem acaba uma licenciatura ou para quem acaba um programa de mestrado. Acho que Portugal é pouco competitivo, é um problema que temos que enfrentar. É um problema que as universidades não conseguem resolver. Acho que as universidades têm que estar metidas na solução, mas sozinhas não conseguem resolver essa parte do problema. Os nossos antigos alunos estão cada vez mais um pouco por todo o mundo. Nós criámos os Alumni Chapters com os antigos alunos pelos vários países, temos hoje 14 em cidades como S. Paulo ou Singapura ou Nova Iorque ou Amesterdão. Fui a muitos desses sítios, temos uma rede espalhada pelo mundo poderosíssima, os alunos estão em boas empresas, muito ligadas à escola, e são recursos muito valiosos. Mas, naturalmente, se muitos desses estivessem em Portugal isso era muito importante para a economia portuguesa.

É uma das universidades que mais exporta talento?
Exportamos talento, mas também importamos muito talento. O que temos hoje é uma escola onde 70% dos alunos de mestrado são internacionais.

Mas que depois não ficam cá.
Alguns ficam, mas muitos, depois, vão embora e isso acontece não só na Nova SBE, mas também em muitas escolas boas em Portugal. Estamos a exportar alguns dos melhores recursos que formamos em Portugal. E não é porque façamos alguma coisa para que isso aconteça, é porque infelizmente a atratibilidade do mercado interno é limitada.

Por que razão?
Isso tem a ver com algumas limitações das nossas empresas, da nossa economia. Acabei de me mudar da Dinamarca com duas filhas. Uma entrou para a licenciatura na Dinamarca e está neste momento a refletir se vem para Portugal. Ela quer ser engenheira e entrou no Técnico, mas ainda não sabe se fica na Dinamarca. Ela vê aquelas comparações internacionais entre os salários. O custo de vida na Dinamarca é horrível, é altíssimo, mas, por outro lado, os salários também são. À primeira vista, parece sempre melhor estar fora da Dinamarca, porque as coisas são tão caras, mas depois quando fazemos o balanço por paridade de custo de vida, percebe-se que é difícil viver em Portugal, é difícil pagar uma renda de casa. Esse é um dos grandes desafios. O custo de vida é tão elevado que é difícil para um recém-licenciado para um professor ter a vida confortável que tínhamos noutras alturas. Aliás, já estamos a sentir isso com os nómadas digitais que já estão a sair e ainda agora começaram a chegar.

Como é possível impulsionar a valorização salarial dos licenciados e mestres em Portugal?
Temos de tornar as empresas mais competitivas.

O problema não está ao nível da formação. A questão está apenas do lado das empresas?
Os nossos alunos não têm um problema de formação, vão trabalhar para as melhores empresas do mundo. O problema é a falta de competitividade que os próprios empresários conhecem bem. Os impostos é uma parte do problema, não será a única. Quanto dinheiro conseguem entregar a um recém-graduado quando o Estado fica com uma boa parte dos seus proveitos?

Acha que deveria haver uma redução da carga fiscal?
O problema é mais complexo do que isso, mas acho que sim. As empresas precisam de ficar com mais dinheiro disponível para entregar às pessoas. Mas também precisam de se tornar mais atraentes. Como? O que nós tentamos fazer é educar pessoas que as vão ajudar, mas depois como muitas delas não ficam, isso não as ajuda. Depois as pessoas acabam por vir para Portugal, muitas vezes não porque tiveram a melhor oferta, mas porque estão numa fase da vida onde, afinal, já estão bem e até querem voltar para dar um contributo para a sociedade onde nasceram, onde cresceram. Nós hoje temos muita gente a regressar por essas motivações.

O que o fez a si regressar?
Em parte, por causa dessas motivações. Estava numa escola onde tinha um salário bastante confortável e, de repente, comecei a envolver-me com esta escola, que era uma escola já líder em muitas dimensões a nível global, mas em particular a nível europeu. É um projeto fabuloso, portanto, não é a parte financeira que me atrai ao regressar para a Nova, é muito mais o projeto. Tinha mesmo de voltar e tinha de tentar convidar a minha família também a vir, o que consegui, em parte. Estamos agora à espera da decisão de uma miúda que está em Copenhaga e que hoje vive o dilema do futuro profissional. O ensino na Dinamarca é totalmente gratuito e os alunos recebem um subsídio de cerca de mil euros por mês.

Falta isso em Portugal?
Não sei sequer se precisamos de chegar aí. O principal problema das propinas é as universidades estarem subfinanciadas. Costuma-se dizer que o dinheiro não tem cor. Se o Estado nos desse algo parecido com as propinas, não precisávamos de ter propinas, em teoria. Estava numa escola, na Dinamarca, onde era diretor de programas, e o financiamento que tinha era incomparavelmente superior àquilo que uma escola pública tem em Portugal. Na Nova, temos um modelo que, apesar de tudo, é bastante generoso, pensando nos mestrados, porque as propinas nas licenciaturas têm um teto, são iguais para todas as universidades. Nos mestrados, temos propinas mais elevadas do que o contexto nacional, mas damos mais bolsas do que qualquer outra organização em Portugal para quem tem dificuldades financeiras. Este ano, demos cerca de dois milhões de euros em bolsas, dos quais um milhão e meio são para bolsas de mestrado, que são, grosso modo, 400 bolsas, só pensando nas bolsas por necessidades financeiras. Todos os pedidos de bolsa foram satisfeitos. Eu digo que é má notícia porque eu gostaria que mais gente com necessidades financeiras chegasse a esta fase, porque sei que há mais gente nessa situação.

A responsabilidade é do Ministério da Ciência, Tecnologia e do Ensino Superior que não dá apoios suficientes?
Não é só do Ministério. É um problema que a nossa sociedade não conseguiu resolver. As pessoas com mais necessidades financeiras não conseguem investir no estudo dos filhos como os outros. Como o ensino é tão transformador, nós resolvíamos uma boa parte dos problemas de pobreza se estas pessoas, que estão com níveis de pobreza, chegassem ao ensino superior.

Mas as diferenças salariais entre os não licenciados e os licenciados já se estão a esbater, o que pode afastar o investimento no Ensino Superior.

A médio prazo, quem fez uma licenciatura não se vai arrepender. Agora, as escolas não são todas iguais. O mercado não reconhece de igual maneira todos os graus superiores.

A Nova SBE é uma universidade aberta à sociedade e acolher as Conferências do Estoril é um dos muitos exemplos disso. O que é que o ensino superior em Portugal ganha com a internacionalização de eventos como este?
Vivemos num mundo tão tenso com tantos problemas, com tantas divisões que é importante e educativo haver um espaço de debate aberto, com tolerância. As Conferências do Estoril, que não foram começadas por nós, mas que agora decidimos tornar anuais, são um instrumento poderosíssimo. A data que escolhemos foi o princípio do ano letivo para inspirar os alunos. Os alunos de mestrado chegaram terça-feira. Eles chegam, têm uma semana a que chamámos de discover week com atividades e, depois, têm estas Conferências sobre os grandes temas da humanidade, o que significa que vamos da guerra à Inteligência Artificial, organismos geneticamente modificados ou alterações climáticas. São Conferências que gostávamos de posicionar como uma espécie de Davos, mas com mais presença académica. Queremos fazer umas Conferências em que trazemos políticos, gestores, alunos e professores, trazemos muita interdisciplinaridade.

E esses grandes temas cabem dentro dos programas curriculares?
Cabem, porque temos um ensino que é muito baseado no mundo real, temos aquilo a que chamamos os project base learning, em que os nossos alunos trabalham em problemas concretos das empresas ou da sociedade. Temos, por exemplo, no mestrado em Empreendedorismo de Impacto e Inovação muitos alunos preocupados com questões ambientais e, portanto, vão beber aquilo que vai ser dito nas conferências. Os professores vão ser inspirados por tudo o que vai acontecer. Vamos conseguir integrar as conferências na vida académica da escola, mas não só, porque a conferência é completamente aberta. Temos 2700 inscritos sem os alunos de mestrado. A conferência é de inscrição gratuita. Temos pessoas que vêm do estrangeiro. Como speakers, temos pessoas da China, Índia, Estados Unidos ou Brasil. Temos participantes dos continentes todos.

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