Pedro Rebelo de Sousa: "Acredito que já tenho um currículo, para além da Caixa"

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Hiperactivo assumido, Pedro Rebelo de Sousa conta histórias à velocidade dos seus dias. Uma entrevista é pouco. Só pára entre as seis e meia e as sete da manhã, para ler e rezar. E nadar. A seguir, é o frenesim, que piorou desde que foi para a administração da Caixa. O advogado só deixou uma pergunta sem resposta.

Pelo que foi conseguir marcar esta entrevista, imagino-o com uma

vida absolutamente frenética. É verdade? [toca o telefone]

O tempo é, para mim, o bem mais escasso e de mais difícil gestão. Primeiro, reconheço ter alguma hiperactividade, que acaba por fazer

com que tente abraçar o mundo com os braços, com as mãos, com

tudo. Isto, aliado a uma certa incapacidade para dizer que não. Não

é nas coisas importantes, que aí sou muito frontal, mas se puder

acomodar 'n' coisas durante o dia tento fazê-lo. Para as minhas

secretárias, é sempre um exercício angustiante.

Mas é organizado?

Não sou nada desorganizado. Dentro desta hiperactividade, julgo

que sou até extremamente organizado. Tenho uma certa psicose do follow

up. A minha escola americana - no começo da vida, trabalhei durante 15 anos no

Citibank - assim acabou por o exigir. Uma

pessoa não deixa cair os assuntos. Lembro-me que um embaixador do

Brasil, que viveu cá em Portugal, Mário Castro Alves, que, aliás,

foi um grande amigo de Portugal e um homem muito culto, costumava

dizer, que no Itamarati, onde era director-geral, classificavam os

documentos em NTR, SBR e L: Nem o Tempo Resolve, Só o Tempo Resolve

e Lázaro, que são aqueles que, de tempos a tempos, ressuscitam.

Tento dar sequência ao que pretendemos fazer. Tenho uma visão

cristã da nossa passagem pela terra e, portanto, acho que ela

justifica-se enquanto testemunho de duas coisas: de um bom potenciar

dos nossos talentos e o tentar concretizar, avançar.

Quais são os talentos que tem procurado potenciar?

Tento potenciar uma ingénua convicção de que é possível mudar

o mundo. Não sei se é um talento, mas é uma característica.

Tento, perante uma situação, ver com o que posso contribuir para

que a situação possa desenvolver-se e cristalizar-se em qualquer

coisa que contribua um pouco para mudar o mundo, sem qualquer sentido

messiânico ou demasiadamente visionário. Sou muito teimoso, outra

característica.

Não desiste, nem mesmo quando já perdeu?

Perder é sempre um conceito objectivo/subjectivo.

É daqueles que nunca perdem?

Não, já perdi várias vezes. Aliás, tenho a profunda convicção

que é com os insucessos que aprendemos. Olhando retrospectivamente, na

minha vida, julgo que não posso dizer que tenha tido muitos

insucessos, mas tive casos, situações com que tive que lidar,

pessoais e profissionais, que não foram sucessos e onde aprendi

imenso. O sucesso, por definição, de forma reiterada, acaba até por

criar um certo comportamento, por vezes, irracional.

Pode contar-nos um insucesso com o qual tenha aprendido?

Sim. Apostei na Fundação Luso-Brasileira, fui da comissão

instaladora com o António Alçada Baptista. E a ideia era tentar

fazer uma fundação luso-americana, uma FLAD para o mundo da língua

portuguesa. E a verdade é que arranjámos recursos, conseguimos

coisas notáveis, mas depois não conseguimos concretizar o projecto

do Niemeyer, que era na Quinta dos Alfinetes, junto à Expo.

Que projecto? A sede da Fundação foi desenhada pelo arquitecto

brasileiro?

Era a sede e onde as casas dos vários países, do Brasil, de

Moçambique, etc. se iriam juntar, com um auditório.

Em que ano foi?

Isto começou tudo em 1993-94. Conseguimos que o Niemeyer

oferecesse o projecto.

Porque é que falhou?

Porque muitas das empresas que nos prometeram fundos acabaram por não

dar, do Brasil e de Portugal, onde também houve uma retracção

muito grande. E, portanto, acabámos por fazer as fundações do

edifício, devolvemos o edifício à Câmara Municipal já com um

terço da estrutura, mas para baixo. E eu tentei de tudo, falei, no

mínimo com cinco ministros da cultura portugueses, cinco ministros

da cultura brasileiros, falei com inúmeros membros de governo,

ministros das relações exteriores e dos negócios estrangeiros.

E o que é que aprendeu com este insucesso?

Em certas coisas, tem que haver uma conjugação de factores e

pior do que estar errado é estar certo antes de tempo. Quando

arrancámos com a Fundação foi antes da grande onda de

investimentos portugueses no Brasil, que acabou por criar outra

dinâmica na realidade luso-brasileira, que não existia.

E também percebeu que nem sempre se consegue mudar o mundo?

Aprendi, mas também aprendi que quando nós queremos fazer uma

grande conquista - é como nas guerras -, temos que passar por

várias batalhas. Houve muitas coisas que valeram a pena. Por

exemplo, levámos o Malangatana a pintar um mural no Recife. Ver os

estudantes a vê-lo pintar e a explicar como é que se pintava...

Voltando atrás, aos seus dias, o que é que já fez hoje?

Eu acordo entre as seis e meia e as sete. A manhã é o meu

período de total reflexão/contemplação, não tenho outro. Entre

as seis e meia e as oito, tenho a possibilidade de fazer duas coisas:

ler e rezar. Sou crente. As minhas orações não são

necessariamente orações no sentido convencional de mera repetição

de uma oração, são reflexões, leituras. Acabei de ler o último livro do Padre Tolentino. E nado. Apesar de ser Touro, sinto-me muito bem

na água.

Na piscina?

Sim. Nado meia hora a 40 minutos. É um lugar mágico, talvez

porque como sou gordo, sinto-me muito leve. Tenho umas coisas de

ouvir música, que descobri há muito tempo nos Estados Unidos, e

tenho um iPod e posso ouvir música a nadar. Não se perde peso, como

se pode ver, mas é óptimo para a coluna e eu tenho potenciais

problemas de coluna devido a um acidente de carro que tive há muitos

anos no Brasil. Olhe, um acidente daqueles que nos faz pensar que

Deus às vezes dá-nos uma segunda e uma terceira chance. Às vezes

também penso enquanto estou a nadar, arrumo o dia e confesso que uma

das frustrações que tenho é não ter um bloco.

Para escrever dentro de água.

Para poder escrever na borda. Uma vez, já há muitos anos, tinha

um na mesa de cabeceira, até que um dia a minha mulher me apanhou a

meio da noite e obrigou-me tirá-lo dali. Depois também tentei com o

BlackBerry, mas também foi banido. Mas é uma frustração porque

uma pessoa vai tendo ideias. Sabe o que faço, conto-as, a primeira,

segunda e a terceira e memorizo-as, e depois vou ouvir música, ou rezo,

enquanto nado é um momento muito agradável para mim na vida.

E a seguir, vem para o escritório?

Enquanto vivi no Brasil e nos Estados Unidos, habituei-me a entrar

sempre entre as sete e as oito, hoje em dia entro por volta das nove.

Hoje o dia foi muito cheio, tive uma reunião muito longa, que

começou às nove e acabou antes de começar esta entrevista [16h30]. Tenho mais quatro reuniões, tenho um jantar.

Tudo trabalho?

Quase tudo trabalho. Mas no fim-de-semana tento não trabalhar. Eu

não devo ter tido o talento suficiente, mas aquilo que consegui na

vida foi sempre com muito esforço e algum sacrifício da minha vida

pessoal. Tive a sorte de me casar com uma pessoa que aceitou isso,

que tem sido sempre muito complementar e muito solidária, muito

apoiante desta aposta e que acabou por abdicar da sua própria

carreira pelos filhos e pelo marido.

Headphones para nadar, BlackBerry, um iPad à sua frente. É

viciado em gadgets?

Sou, mas não sou muito bom informaticamente. E devia sê-lo. O

Citibank, na década de 70, introduziu aquilo a que se chamava os

citimails, ou seja, todas as pessoas que trabalhavam no Citibank

comunicavam por emails internos, quando ainda nem sequer existia

email. Mas eu se tenho que escrever alguma coisa, faço-o

em papel.

Não gosta de computadores?

Não, acho que é um instrumento muito útil, mas tento ter com

eles uma relação utilitária, de não dependência.

Mas é dependente do BlackBerry, chegou a tentar levá-lo para a

cama.

Tenho alguma dependência porque o BlackBerry permite uma coisa que

é muito importante para quem está na actividade de prestação de

serviços - sou advogado -, que é a disponibilidade. Um dos

activos que hoje diferencia um bom profissional é, para além da

sua competência, a sua disponibilidade para alguns clientes.

Reserva os clientes mais importantes para si?

Não, isso é uma realidade quase impossível num escritório com

muitos colegas. Por outro lado, sempre defendi, desde há 20 anos, quando voltei a exercer a advocacia, uma advocacia baseada na

especialização. E vamos ser realistas, eu tenho os clientes da

minha área - direito financeiro, mercado de capitais, fusões e

aquisições -, mas se aparece um cliente que quer falar de um

despedimento colectivo, se eu estiver presente, estou a acompanhá-lo,

mas um parecer de um colega mais competente nessa área é muito mais

útil. O que é fascinante na advocacia é, tal como no ensino, a

capacidade de nos realizarmos ao ver-nos ultrapassados pelos nossos

discípulos. É quase um sentimento de paternidade. Sou um pai que

tenta ser exigente.

Com os seus filhos.

Sim, tento sempre não confundir o amor paternal com a exigência.

Ser exigente e aceitar a exigência, porque eles também exigem. Não

posso dizer que seja um pai-galinha, nunca fui. Agora, reconheço que

me realizo quando os meus filhos, nas suas profissões - nenhum

deles escolheu o direito nem a banca -, se afirmam e têm sucesso. E

tento extrapolar esse sentimento para os meus colegas de escritório,

aqueles que, mais jovens, começaram comigo há 20 anos. É agradável

revermo-nos um pouco e se eles nos ultrapassam e são muito melhores

do que nós, não pode imaginar a alegria que isso me dá.

Isso só acontece numa fase de mais maturidade.

Sim. Por exemplo, um momento muito difícil é quando um

profissional tem que assinar um papel que não foi escrito por ele,

mas sim por um assessor, ou por um colega mais jovem. A primeira

sensação que a pessoa tem é eu não escrevia nada disto. Ou seja,

não era assim que eu tirava esta fotografia, mas pronto agora já

não temos mais tempo, tem que ser. E depois pensa, bem até não

está mal tirada, eu não a tirava assim, mas... E depois, pouco a pouco,

vamos-nos educando e chegamos à conclusão que, às vezes, as

fotografias deles são melhores que as nossas. É é este o momento

em que temos que ter a humildade. Diariamente, peço a Deus quatro

coisas: que me permita ter humildade de espírito, ter caridade,

solidariedade com o próximo.

Mas e consegue no meio dos seus dias cheios de reuniões?

Vamos tentanto. E depois, não perder a fé, que dá sentido à

minha vida.

Tem uma relação fortíssima com Deus.

Para mim, é a principal razão da minha existência. Não concebo

a existência sem esta referência divina. É a transcendência do

belo, daquilo que nos ultrapassa na nossa condição humana. E peço,

especialmente, esperança, que é aquilo que faz sentido para guiar

os meus passos. Sem esperança, a vida faz muito pouco

sentido. Portanto, esperança, fé, caridade e humildade são, para

mim, os pedidos que faço diariamente. Não quero dizer que dê

testemunho disso diariamente, infelizmente, estou longe de ser ou de

querer ser perfeito. Depois, o dia-a-dia é um desafio, uma corrida.

Porque é depois de tantos anos fora, decidiu, há 20 anos, voltar

para Portugal?

Fui convidado pelo professor Cavaco para privatizar o Banco

Fonsecas & Burnay, um processo que acabou dois anos depois, com o

banco a ficar para o BPI. Voltei para Portugal porque, em primeiro

lugar, não queria os meus filhos, que estavam naquela idade do

secundário, americanos.

Porquê?

Eles tinham chegado lá com cinco ou seis anos. O primário na

América é muito bom, cheio de recursos, com um apelo enorme à

criatividade, uma exigência enorme de leitura de livros. Mas o

ensino secundário americano é paroquial, é centrado nos Estados

Unidos como o centro do mundo. A geografia é a americana, a história

a mesma coisa. A América ganha uma centralidade na vida que é o

oposto daquilo que pretendia. Outra razão, é que acho que temos

qualquer tipo de relação irracional com o que é ser português.

As tais saudades.

Ser português é sempre essa componente de partida e chegada, é

estarmos com vontade de sair, mas com a certeza de que queremos chegar. O

terceiro motivo é que Portugal dava sinais de que estava a virar uma

página, a página que me tinha feito sair. Eu saí no pós-revolução

porque achei que a economia tinha sido completamente destruída com o

pós-revolução. Ainda hoje, acho que estamos a pagar isso.

Mais dois anos de banca.

Sim, estive dois anos como presidente do Fonsecas & Burnay.

Nós lá fora criticamos muito, e eu achei que quando o professor

Cavaco me convidou para ganhar exactamente o que era uma fracção

muito simbólica do que eu ganhava nos Estados Unidos - o salário

do presidente do Banco Fonsecas & Burnay [em 1990] era 430 contos

brutos [cerca de 2150 euros] -, aproximadamente o que ganhava a minha

secretária, isto significava um sacrifício. Mas depois da conversa

com o professor cavaco e com o dr. Miguel Cadilhe, percebi que queriam que os

que estavam fora voltassem e dessem testemunho da mudança. Pensei porque não, tinha feito privatizações noutros países, estava a

trabalhar no âmbito da América Latina. Quarta razão: a minha família separou-se, os meus pais foram para o Brasil depois da revolução. O

meu pai tinha uma função governativa no anterior regime e eu acabei

por ir para o Brasil também. E eu senti que a única forma de nos

juntarmos todos era regressarmos para Portugal. O meu pai não

viria do Brasil se eu não regressasse também.

Conto-lhe uma

história com muita graça. Depois de ter pensado seriamente em dizer

não porque financeiramente fazia pouco sentido voltar, achei que por

estes quatro motivos faria sentido voltar, cheguei a casa e chamei os

filhos, que tinham 10 ou 11 anos, e disse-lhes que os pais tinham

decidido voltar para casa e eles disseram assim: "Ôba, vamos

voltar para o Brasil!". Aí é que eu percebi que tinha uma família

multinacional e que o que fazia sentido era voltar. Vim para o Banco

Fonsecas & Burnay, em 1990. Foi uma aventura muito interessante

porque se tratava de um banco de tradições, foi o banco de

investimento do Estado Novo. Foram, na verdade, os donos do Fonsecas e

Burnay que negociaram em nome do Salazar a nossa dívida externa em

1920. Achei interessante conduzir o processo, o primeiro de privatização a 100% de uma instituição financeira e

que estabeleceu, de certa maneira, o modelo que viria a ser utilizado

na maioria das privatizações por concurso público.

Foi uma

revolução. Fui buscar quadros ao sector privado para o sector

público, a engª Esmeralda Dourado, que hoje está na SAG, mas que

na altura estava no Citibank, o Nuno Amado, que preside hoje ao

Santander Totta, que me acompanharam. Fizemos a privatização

nos 19, quase 20 meses com os quais nos comprometemos.

Saiu no final da privatização.

Porque não continuou a sua

carreira na banca?

Porque, sinceramente, não sei se havia muitos desafios na banca,

naquela ocasião. Os Espírito Santo estavam ainda no processo de

consolidar a sua aquisição, que tinha sido por tranches, o Pinto

Sotto Mayor e o BPA ainda eram públicos.

Mas a banca privada estava a começar a arrancar.

Havia o BCP, depois havia o Banco Mello, que estava a dar os

primeiros passos, não havia muitos bancos privados. Achei que, para

alguém que tinha estado na banca em Nova Iorque, no Brasil, em

Portugal, não sei se tinha muito cabimento, não estava a ver muitos

projectos em que eu viesse a ter uma certa inserção que me interessasse. Depois

reconheço que me habituei a trabalhar com uma certa independência.

Mesmo quando se é quadro de um grande banco como o Citibank, que na

altura era o maior banco do mundo, não há uma sensação de haver

patrão. Patrão é o mercado. Você tem chefes mas uma coisa que se

aprende numa grande instituição é que quanto mais se sobe menos

independente se é porque tem que se prestar mais contas. E há uma sensação

de que se é julgado pelo mérito. Há um esquema de meritocracia

muito escrutinado. Todas as instituições têm políticas, códigos,

as pessoas podem gostar mais de uma cara do que de outra, mas há

muito mais critérios objectivos. Habituei-me a não ter chefes e,

por outro lado, tinha um sonho incumprido na minha vida.

Que era?

Gostava de ter feito uma carreira bancária em várias áreas dos

bancos, gostava de ter chegado à sede do Citibank e trabalhar em

Nova Iorque, e consegui. Ter trabalhado em Nova Iorque no dossier, na

altura, mais importante, que era a dívida externa, como agora são

os problemas das dívidas soberanas, foi muito bom. Aos 30 anos, quando fui para

Nova Iorque, reportava directamente ao CEO, portanto foi uma

oportunidade muito boa.

Depois vim para Portugal privatizar um banco, aos 34 anos, o que à

época, então, era uma revolução. E devo dizer que hoje,

retrospectivamente, achei o acto do professor Cavaco um acto de

coragem porque eu era um tipo novo. Aliás, isso gerou uma certa

celeuma na velha guarda, que são grandes amigos meus, a maioria.

Depois havia um sonho que não tinha cumprido. Eu nunca quis fazer

uma carreira universitária, comecei por dar aulas como professor da

Faculdade de Direito de Lisboa e depois dei aulas como professor

convidado durante anos no Brasil, aqui novamente, na década de 90.

Mas confesso que acho que não tenho jeito para a carreira académica.

Só gosto da parte da comunicação. O que acho fascinante ao dar

aulas é tentar passar o conhecimento prático e não o teórico,

esse lê-se.

Partilhar experiências.

Isso. E dei aulas durante dez anos e dava aulas sempre às oito da

manhã de segunda e às sete da noite de sexta. Não pode haver

melhor teste ao índice de assistência.

Escolhia esses horários?

Escolhia sempre esses horários porque também me convinha, que eu

sou early bird, e ter a sala cheia é uma enorme compensação. Ter

um gordo a falar às oito da manhã de uma segunda-feira, depois do

fim-de-semana, dos copos, da noite, e ter que ser suficientemente

engraçado, persuasivo e com ideias.

Dava aulas de quê?

Moeda e crédito, mercados financeiros.

Pois, isso às oito da manhã de uma segunda-feira...

Mas olhe que ficava contente quando os alunos me vinham dizer que

gostavam das aulas. Mas voltando ao sonho não cumprido. Durante

anos, com um grande amigo meu, sonhámos em fazer um escritório em

Portugal construído com base no modelo anglo-saxónico, ou seja, isto que se vê aqui, quer espacialmente, quer de postura perante o

cliente, de desenvolvimento de carreira, internamente. E eu andei

pelo Brasil, onde os escritórios copiavam o que se fazia nos Estados

Unidos. Não é um escritório personalizado, mas eu não me revejo

nesse modelo. Acho muito difícil hoje, no século XXI, ter um

escritório e um cliente pedir-me uma coisa sobre a qual eu não

percebo nada. Vou eu perder tempo, o cliente também, sai-lhe mais

caro, vou prestar um péssimo serviço.

Substituiu a banca pela advocacia.

Exactamente. A banca tinha já um espaço perfeitamente ocupado e

o mercado é o que é, não se pode reinventar tudo.

E na advocacia estava quase tudo por fazer?

Entrei numa época em que foram feitas todas as privatizações.

Primeiro, foram os bancos, mas depois foi a PT, a EDP, tudo. Havia

aqui um nicho de oportunidade e mais, tinha a vantagem de quem vem do

lado do cliente e da banca e de quem, portanto, conhece os produtos. Portugal estava a avançar para aquilo que tinha o mercado do qual eu

já vinha. Por outro lado, a legislação mudou toda. Eu estava como

que na estaca zero, no arranque. Comecei com zero clientes. Lembro-me

que o primeiro caso que tive foi a compra pelo Central Hispano dos

20% do Amorim no BCP. E foi muito engraçado porque praticamente não

tinha ninguém a trabalhar comigo, então eu fazia de sócio,

advogado-assistente, estagiário, estafeta, ia ao Banco de Portugal

buscar os formulários.

Ganhava mais do que no Fonsecas & Burnay?

Nos primeiros meses talvez não, mas foi muito

rápido.

Teve tantos anos de banca quanto de advocacia, mas sente-se

advogado.

Eu já tinha advogado no Brasil, entrei no Citibank como advogado, cheguei a

advogar fora do Citibank. Comecei a fazer direito trabalhista num

Tribunal, a defender uma multinacional contra os seus trabalhadores.

Estive na área jurídica praticamente novo anos e só depois é que

eu passei para as áreas financeiras.

A banca foi um acidente.

Não, foi por vontade. Apaixonei-me.

E agora regressa à banca, 20 anos depois.

Na verdade, eu nunca deixei a banca. Depois de ter saído do

Fonsecas e Burnay, estive no conselho consultivo do Banif durante

cinco anos, mais tarde no conselho consultivo no banco de

investimento. E também tinha, enquanto advogado, muito trabalho com

os bancos. E era administrador não executivo, com o dr. Raul Capela

na holding Intesa San Paolo, um dos maiores bancos italianos.

Portanto, mantive-me sempre muito envolvido, era presidente não

executivo do Banco Caixa Geral no Brasil.

Sim, mas agora faz parte do conselho de administração do maior

banco português.

Mas como não executivo. O papel de administrador não executivo

tem uma dupla componente, uma de ter uma função de fiscalização e

acompanhamento dos executivos, de uma forma mais partilhada do que

numa concepção de conselho fiscal, que é mais convencional; e de

outro lado, a partilha de certas decisões de teor mais estratégico,

mais político.

Coisas muito importantes.

Muito importantes mas que não têm a ver com a gestão executiva

do banco. No fundo, é ser um complemento construtivo.

Mas porque é que tenta relativizar e minorar a importância do

cargo que acabou de assumir?

Não estou a minorar, mas a dizer aquilo que ele é. O cargo de

administrador não executivo da CGD está como o cargo de chairman da

Zon, ou administrador não executivo da Brisa.

Cargos ocupados por advogados seus colegas [Proença de Carvalho e

João Vieira de Almeida, respectivamente]. Todos eles cargos

importantes.

Sim, mas foi com alguma

mágoa, confesso, que vi algumas pessoas reduzirem o meu curriculum a ser irmão do Professor

Marcelo...

Isso não o irrita?

Claro que não, gosto imenso dele.

Claro, mas não o irrita que os outros falem de si como irmão de

Marcelo, como se não lhe bastasse o que é?

Irritar-me não me irrita, mas ainda hoje me surpreende. Como

estive 15 anos a fazer um percurso profissional onde o apelido e as

relações familiares valiam zero, para mim, surpreende-me e

acho que hoje ninguém confunde qualquer um dos três irmãos.

Não é cansativo?

A mágoa vem, sobretudo, quando os comentários vêm de algumas

fontes que tinham a obrigação de ir ao Google, apenas verificar as

referências curriculares, que estão lá. Reduzir a minha

trajectória na banca...

Mais uma vez, o cargo que vai assumir, não é um cargo

figurativo.

Claro que não, sou presidente do Instituto Português de

Corporate Governance e uma das razões que me levou a aceitar este

cargo foi o facto de vivermos uma situação muito difícil, acho

que este não será o momento mais aliciante para aceitar convites

para se ser administrador de qualquer instituição financeira.

E vai ganhar 2.888 euros, que é pouco mais ou menos aquilo que

ganhava há 20 anos quando chegou a Portugal para privatizar o

Fonsecas & Burnay.

Imagine, nem me lembrava disso.

Logo, não é por dinheiro que aceitou o cargo.

Nem pouco mais ou menos, e muito menos pela responsabilidade.

E foi pelo prestígio?

Não, por muita consideração que a Caixa me mereça, acho que -

não sei se tenho uma auto-estima muito elevada -, mas acredito que

já tenho um curriculum na vida.

Por vaidade?

Não, porque acho que há demonstrar - e eu sou presidente do

Instituto Português de Corporate Governance -, que os

administradores não executivos são, de facto, uma realidade e que

não são comparáveis, em termos de modelo, ao que era o conselho

fiscal, algo convencional. Mas que ao mesmo tempo, também não são os responsáveis pela

gestão corrente. Ou seja, a beleza deste modelo, que, aliás, é

adoptado pela generalidade das instituições financeiras - também

por isso não entendi as críticas feitas -, é essa, e acho que tinha

que dar testemunho, se estou no Instituto Português de Corporate

Governance, se defendo este modelo, se me foi pedido. Acho que é

quase uma missão porque como pode imaginar, só me pode ser prejudicial, o

meu escritório não pode trabalhar com o grupo CGD.

Mas já perdeu muitos clientes?

Não, ainda não perdi nenhum.

Mas e pode trabalhar para a ENI, que é contraparte da CGD num

acordo parassocial na Galp.

As decisões são geralmente tomadas pelos executivos.

Os poderes da comissão executiva emanam do conselho de

administração.

O caso da ENI, já foi anunciado que o Estado, via CGD, está de

saída. Mas, enfim, poderão surgir outras.

E a Sumol+Compal?

A Sumol+Compal e a Caixa estão,

neste momento, num processo em que estão do mesmo lado contra o

Fisco. Mas a lei é muito clara, quando há conflito, tenho que

declará-lo e não voto. Como acontece, por exemplo, na Cimpor. Os

administradores representantes de grupos concorrentes saem sempre que

se está perante um conflito.

Mas se ainda não perdeu clientes, nem prevê que isso aconteça,

porque é que há pouco dizia que o facto de ter aceite o cargo só

lhe pode trazer prejuízo?

Na medida em que o escritório deixa de poder trabalhar para o

grupo Caixa, que é sempre um cliente interessante.

Mas o conflito coloca-se apenas para o grupo Caixa?

Sim, porque não posso estar nos órgãos sociais do grupo Caixa e

ter o escritório a trabalhar com eles. O que deixe que lhe diga, é

uma situação que acontece com outros escritórios. Eu era

presidente da assembleia geral da Galp e quando a Galp começou a

trabalhar com o escritório eu saí da empresa. Há colegas meus, que

eu respeito muito, que continuam a ser administradores e os

escritórios trabalham para as empresas. O único conflito que pode

haver é se na Caixa eu estiver a participar numa decisão que venha

a beneficiar ou a prejudicar alguém do outro lado, que está a ser

assessorado pelo meu escritório. Nesse caso, tenho que dizer. Se eu ou o meu escritório está a patrocinar alguém não posso

participar nessa decisão.

Já sentiu essa limitação?

Não, mas também ainda só passaram dois meses.

As críticas falavam também de partidarismo, de jogos políticos

e de distribuição de quotas entre PSD e CDS. Acha que isso pode ter

contribuído para a sua escolha?

Bom, isso terá que perguntar ao ministro das Finanças. Eu não

sou do PSD, já votei em vários partidos, talvez possa haver, neste

momento, uma simpatia pela linha do PSD, mas não acredito que isso

tenha estado na base da decisão. Muito menos a relação familiar,

essa então acho patética.

Foi uma escolha exclusivamente com base no mérito?

Espero que sim.

Mas então, afinal qual foi a verdadeira razão para ter aceite o

convite, porque até agora só apontou desvantagens?

Já lhe expliquei. Não escondo que, se há sector da economia

onde me sinto à vontade e onde é um bocadinho a minha casa, é o

financeiro. Segundo, porque acho que este modelo de governação

ainda não foi verdadeiramente testado numa entidade pública com os

contornos da Caixa. É um desafio.

Qual será o seu contributo?

Acho que o contributo de qualquer administrador não executivo é

o de poder ser uma espécie de fórum de reflexão qualificado para

debate.

Mas o que levará de seu?

A experiência de 30 a caminho dos 40 anos profissionais, dos

quais a maioria esteve ligado à banca, directa ou indirectamente.

Posso levar o facto de ser ainda um espectador com uma posição

privilegiada, estando num escritório de advocacia, onde muitos dos

negócios e dos clientes, nacionais e internacionais, acabam por

passar.

E as relações e contactos que vier a ter na Caixa, não o

poderão beneficiar a si, enquanto advogado, e ao seu escritório?

Acho que, sinceramente, não preciso da Caixa para ter clientes.

Não é o facto de ser administrador da Caixa que me traz mais

clientes, antes pelo contrário. Até porque haverá sempre a cautela

de evitar a potencial percepção disso.

Voltamos à mulher de Cesar, não basta ser...

Claro, é preciso parecê-lo. E acho que manda o bom senso que uma

pessoa utilize com a maior razoabilidade esse tipo de

relacionamentos. Em momento algum, o facto de vir para administrador

não executivo da Caixa foi visto por mim como potenciador da base de

clientela. Mais de 60% dos nossos clientes são estrangeiros.

O sector bancário atravessa um período muito difícil. Quais são

as suas maiores preocupações em relação à banca portuguesa?

São várias, mas as principais são tentar consolidar a robustez e a solidez do sistema bancário, após estes

stress tests e auditorias, e conseguir mostrar, tal como o senhor

governador do Banco de Portugal já disse, que temos um sistema bancário

que compara positivamente com os demais sistemas.

Não teme pelos resultados destas auditorias da troika?

Os banqueiros estarão expectantes, mas todos muito confiantes de

que o sistema sairá ainda mais fortalecido. A minha segunda

preocupação está em saber como os bancos vão conseguir lidar com

a mudança de paradigma. A lógica assentava num contexto que

desapareceu, de uma alta alavancagem, tudo isso é uma realidade que

está a mudar e, portanto, essa capacidade de o sistema bancário se

reconverter e adaptar a este novo paradigma é, sem dúvida, um

grande desafio.

O que pensa da privatização da CGD?

Prefiro não responder a essa pergunta.

Sei que acredita em bruxas, mais concretamente numa cartomante, a

senhora Alzira.

É verdade, não acreditava, mas consultava-a.

Ela costumava acertar?

Sim, em algumas coisas, falou de que iria mudar de continente três

vezes. Ela morreu, voltei a vê-la enquanto ela foi viva. Ao longo da

minha vida, ela acertou. Há um misto de coincidência com uma carga

energética, que admito que possa haver em algumas pessoas. Isso

aplica-se a toda uma temática que tem a ver com os aspectos

astrológicos. Lembro-me que quando os meus filhos escolheram a sua

carreira, para além dos testes psico-técnicos, fizemos também um

mapa astral. E a minha mulher que é, realmente, uma adorável mulher

e uma óptima mãe, mas que não acredita muito nestas coisas, é

muito mais racional do que eu nestes assuntos, achou bem. E hoje,

olhando para o mapa astral vê-se uma incrível complementaridade.

Alguma vez lhe disse que iria voltar à banca?

Isso não, nunca abordámos essa questão.

E encontrou alguma possibilidade de carreira política?

Isso é verdade, anteviu uma passagem por algo que poderia ter a

ver com essa vertente.

Que ainda não se concretizou?

Que ainda não se concretizou e que acho que talvez aí ela vai

falhar. Essa pasta está muito bem entregue na família, tem estado

muito bem entregue a outras pessoas, nomeadamente ao meu irmão

Marcelo.

Mas não será isso que o impedirá de vir a ter uma carreira na

política?

Acho que a vida é feita de sequências, momentos e oportunidades

e não houve esse apelo.

Nunca o sentiu?

Tive outros apelos.

Mas nada garante que não o possa vir a sentir?

Nada garante.

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