A Casa da Sorte, a maior empresa portuguesa de venda de lotarias e apostas mútuas, entrou em Processo Especial de Revitalização (PER) e está a negociar dívidas de 35,8 milhões de euros junto dos credores. A Caixa Económica Montepio Geral (CEMG) lidera a lista de credores e é parte decisiva para aliviar a dívida da empresa: se chumbar o plano de recuperação, a Casa da Sorte não consegue ver o seu PER aprovado. Mesmo sob administração judicial, a empresa garante que não há impactos na operação e nas vendas dos produtos dos Jogos Santa Casa.
O banco presidido por José Félix Morgado reclama 21,5 milhões de euros, ou seja, mais de metade da dívida da histórica empresa fundada em 1933 por António Augusto Nogueira da Silva. Os créditos devidos ao CEMG referem-se a vários contratos de financiamentos e estão garantidos através da penhora sobre quotas dos donos da empresa, de acordo com a lista de credores publicada na quinta-feira no portal Citius. Em fevereiro, o Montepio Geral tinha processado a Casa da Sorte por dívidas acima dos 51 milhões de euros, adiantou, na altura, o Jornal de Notícias.
Além do CEMG, há outros bancos na lista de credores da Casa da Sorte, como o BIC (agora EuroBic), que tem a receber 4,6 milhões de euros); o Novo Banco (perto de 1,2 milhões de euros) e o BCP (mais de 500 mil euros).
O Estado é outra das entidades que reclama dinheiro da Casa da Sorte: a Autoridade Tributária tem a receber 2,7 milhões de euros, relativos aos IRC e a processos de imposto de selo; a Segurança Social reclama mais de um milhão de euros por contribuições devidas entre 2012 e 2017.
Nota também para "Os Belenenses", com o emblema do Restelo a reclamar mais de 3,5 milhões de euros por causa de um contrato de cedência de exploração que motivou uma ação judicial do clube lisboeta contra a Casa da Sorte em janeiro de 2017, recorda o jornal Expresso. Em 2010, esta empresa, através da Binganimus SA, começou a explorar o bingo do Belenenses, mas em 2014 entregou o negócio à sociedade espanhola Pefaco, que na mesma altura entrou na gestão de outras oito salas de bingo em Portugal.
Operação com normalidade
Com 22 lojas espalhadas pelo país, a Casa da Sorte é um dos locais mais conhecidos para os jogadores apostarem nas lotarias, raspadinhas e nos restantes concursos promovidos pelos Jogos Santa Casa. Contactada pelo Dinheiro Vivo, fonte oficial dos Jogos Santa Casa garante que "a relação comercial com a Casa da Sorte está a decorrer com normalidade" e que não há qualquer impacto para os clientes.
A mesma garantia foi dada ao Dinheiro Vivo pela diretora comercial da Casa da Sorte. "Recorremos ao PER para reestruturar a dívida. A empresa está a funcionar normalmente, os salários estão a ser pagos e não haverá despedimentos. Mantemos uma boa relação com os Jogos Santa Casa", referiu Paula Soares.
De acordo com o jornal Expresso, a empresa de venda de lotarias terá faturado 57,4 milhões de euros em 2015, último ano com dados financeiros. Nessa altura, terá apresentado lucro de 80 mil euros, abaixo dos 389 mil euros de resultados líquidos positivos no ano anterior. A Casa da Sorte, contudo, tem 10,6 milhões de euros de resultados transitados negativos, ou seja, acumulou prejuízos acima dos 10 milhões de euros.
A Casa da Sorte é liderada desde há alguns meses por José Miguel Marques Mendes, irmão do antigo presidente do PSD Luís Marques Mendes e que preside à Mistura Singular, empresa especialista em recuperação de PME em dificuldades. José Miguel Marques Mendes terá sido indicado pelo Montepio e sucedeu a Alfredo da Cunha Calvão, que tinha presidido à Casa da Sorte na última década.