Piadas de brasileiros

"Não é preciso", foi uma resposta do humorista português Raul Solnado, com longa experiência de Brasil, a uma questão de Hebe Camargo, lôngeva e influente comunicadora brasileira, quando ela, depois de lhe contar uma ou duas piadas inocentes sobre portugueses no seu programa, o questionou: "Ah, Raul, não me diga que vocês lá em Portugal não contam também piadas de brasileiros?". "Não é preciso", respondeu Solnado.
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Não é preciso porque em primeiro lugar os brasileiros herdaram o costume - inteligente - dos portugueses de se rirem deles próprios.

Em Portugal, naquelas piadas meio juvenis que começam "estava um inglês, um francês e um português..." é ao português que cabe quase sempre o papel de tolo ou, na melhor das hipóteses, o papel de chico esperto, um personagem que escapa do problema por via de um expediente entre o sagaz e o ridículo. Ou seja, respondendo a Hebe de forma diferente da de Solnado: não, em Portugal não se contam piadas de brasileiros contam-se piadas de portugueses.

No Brasil, já se sabe, para o bem ou para o mal, nada é levado excessivamente a sério. A não ser o futebol, a mais séria das coisas menos sérias da vida, como o definiram por aqui.

Ou nem o futebol: basta ver que alguns brasileiros se deram ao trabalho de criar um site que vai atualizando com rigor matemático o placar do Alemanha-Brasil do Mundial 2014, neste momento na casa dos 70 000-10 000.

E o jogo mais dramático da história gloriosa da seleção verde-amarela ainda cunhou a última das numerosas expressões brasileiras que aludem ao futebol: quando numa conversa se gera um daqueles silêncios constrangedores, um dos participantes quebra-o com um "e entretanto..." ao que os outros completam "... e entretanto, golo da Alemanha".

Em São Paulo, a crise da água é que não tem graça nenhuma porque está a tomar proporções apocalípticas. Com o sistema de seis barragens que abastece a cidade, o Cantareira, a cinco por cento da sua capacidade, um responsável já falou até em racionamento radical: cinco dias por semana sem cair uma gota das torneiras.

A culpa - todos os especialistas concordam - é muito mais das autoridades do que de São Pedro. Aliás, não deixa de ser irónico, como comentou o jornalista e escritor António Prata, que a cidade mais rica do país mais rico em água do mundo chegue a este ponto.

Mesmo assim, nas marchas do Carnaval de São Paulo, a água, ou a falta dela, vai ser a estrela com personagens como a Sereia da Cantareira, que vive seca, ou propostas como a emigração em massa dos 20 milhões de paulistanos para o minúsculo Uruguai (3,3 milhões de habitantes) presidido pelo muito simpático José Mujica.

Quando falta água, normalmente acaba por faltar energia - após o enésimo apagão paulistano, a imagem de centenas de pessoas a abandonar as carruagens paralisadas de metro e a seguir pelos trilhos foi dantesca. E a junção dessas duas faltas está a transformar São Paulo numa espécie de Gotham City erguida no meio do Saara.

Mesmo sem soluções técnicas ou políticas, o Ministro das Minas e Energia resolveu acalmar a nação dizendo, com um sorriso entre o amarelo e o grotesco e perante jornalistas entre a incredulidade e o pavor, que "como Deus é brasileiro, a chuva vem aí de certeza...". Instantes depois da sua inspirada graçola, um novo apagão deixou o ministro e os repórteres às escuras num constrangedor frente a frente.

Não se sabe se alguém arriscou dizer "e entretanto... golo da Alemanha" mas a situação lembrou a velha piada segundo a qual os santos, ao verem Deus criar um país como o Brasil, sem falhas sísmicas, sem ciclones, sem tufões, sem tsunamis e ainda bonito por Natureza, Lhe perguntaram se não estava a ser injusto para com as outras nações. Respondeu Deus: "Calma, vocês ainda não viram os políticos que eu vou lá pôr..."

Ah, e a situação lembrou também a tal resposta do Solnado.

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