PME querem incentivos fiscais para ajudar a combater a falta de mão-de-obra

Mais de seis em cada dez empresas nacionais têm dificuldade em contratar pessoal qualificado e a sua inexistência traduz-se na sobrecarga dos existentes e na perda de negócios.
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Seis em cada dez empresas portuguesas teve dificuldade em contratar pessoas com as competências adequadas às suas necessidades, uma questão que é transversal a todos os setores económicos. Este é mesmo o maior problema identificado pelas PME nacionais nas respostas a um inquérito da União Europeia, no qual reclamam incentivos fiscais, designadamente através da redução da TSU à Segurança Social, e ações de requalificação profissional. Subsídio diretos são também bem acolhidos.

Estes são números do Eurobarómetro sobre a escassez de competências nas PME, da responsabilidade da Comissão Europeia e que ontem foi dado a conhecer no âmbito da Assembleia da PME, que hoje termina em Bilbau, Espanha.

O estudo, resultado de um inquérito a mais de 13 mil pequenas e médias empresas europeias - e a mais quatro mil de países não comunitários como Suíça, Reino Unido, Turquia, EUA, Canadá ou Japão, entre outros - mostra que a falta de recursos qualificados é a maior dificuldade apontada por 54% dos inquiridos, seguida dos obstáculos regulatórios e da carga administrativa, ambos indicados por 34% das PME, e das dificuldades de tesouraria, nomeadamente por atrasos de pagamentos, uma preocupação para 21% das empresas.

Em Portugal, as dificuldades de tesouraria são indicadas por 15% das empresas, que compara com os 21% da média da UE e os 43% dos gregos ou os 32% e 30% das PME húngaras e espanholas. A maior preocupação para as empresas portuguesas é a dificuldade na contratação de pessoas com as qualificações certas, apontada por 52% dos inquiridos, seguida dos obstáculos regulatórios e burocracia ( 22%) e a transição da empresa para um negócio mais sustentável e amigo do ambiente (18%). Cada empresa podia escolher três opções.

No total, houve 40% de empresas a indicar que tiveram "muita dificuldade" e 22% a apontar "alguma dificuldade", nos últimos dois anos, para encontrar funcionários com as qualificações certas. São 6 em cada 10 empresas. Tal como nos restantes países europeus, são as posições mais técnicas que têm maior dificuldade de preenchimento (31%), a par dos especialistas em investigação e desenvolvimento (16%), profissionais de vendas ou atendimento ao cliente (15%) e especialistas em IT (13%).

Com 76% dos inquiridos a assumir que levam até meio ano para preencher um lugar - contra uma média de 62% na UE - e 48% das empresas a dizerem que têm até cinco lugares vagos por falta de mão-de-obra adequada - 52% na Europa -, não é de admirar que 45% das PME portuguesas admitam que o impacto disto é a sobrecarga dos restantes trabalhadores. Aumento dos custos de produção, produtividade reduzida e dificuldade em manter padrões de qualidade são outras das consequências apontadas, bem como a perda de negócios. Apesar disso, 45% dos inquiridos em Portugal não tem planos para implementar o uso de Inteligência Artificial.

Um quarto das PME nacionais tentou contratar dentro da União Europeia e 20% em países extracomunitários. As dificuldades burocráticas, a barreira da língua e a falta de candidatos adequados foram os principais problemas detetados. Refira-se que mais de metade (57%) das que tentaram contratar em países comunitários dizem não ter tido dificuldade em fazê-lo.

Questionados sobre que tipo de apoio externo seria útil para que as empresas possam lidar com a falta de trabalhadores qualificados, os incentivos fiscais surgem à cabeça, com 38% das respostas no total da média europeia e 43% dos portugueses, seguidos da requalificação profissional (30% na UE e 43% em Portugal) e de subsídios diretos (28% de respostas europeias, 21% portuguesas). Aliás, 39% das empresas portuguesas diz ter realizado ações de formação e de requalificação profissional para colmatar o problema, sendo que 37% procurou, ainda, melhorar os salários e os benefícios oferecidos.

"A falta de trabalhadores qualificados começou por ser uma situação específica de alguns países e setores, mas hoje é um dos três maiores problemas identificados pelas pequenas e médias empresas. E que deverá piorar, à medida que a economia europeia recupera e a população envelhece", diz Bonifácio Garcia Porras, chefe de unidade da Direção-Geral do Mercado Interno, Indústria, Empreendedorismo e PME da Comissão Europeia (DG Grow), para quem a questão vai colocar "pressão sobre a competitividade" das empresas, criando "riscos de encerramentos".

Um problema que é transversal a praticamente todo o tipo de empresas e de setores. Varia entre os 61% das micro, os 77% das pequenas e os 80% das médias empresas que apontam a falta de qualificação como um obstáculo na contratação de novos trabalhadores e os 85% das grandes empresas. Quanto a indústrias, destaque para os 86% do turismo, os 65% da fileira têxtil e os 67% da construção. No fim da tabela estão a indústria aeroespacial e de defesa, com 50%, a energia e as renováveis com 62% e as atividades digitais com 56% dos inquiridos.

Bonifácio Garcia Porras admite que este seja o "desafio mais importante" com que as PME europeias se defrontam, a par de outros, como a inflação, e lembrou que a Comissão Europeia apresentou, em setembro, um pacote de apoio às PME que inclui uma revisão da diretiva pagamentos. Este responsável garantiu ainda que Bruxelas irá estar "muito atento" à transposição da nova diretiva pelos Estados-membros.

Róza Thund und Hohenstein, eurodeputada e relatora da diretiva, afiança que "a falta de uma cultura de pagamentos atempados prejudica a sobrevivência de muitas empresas e em especial das PME". Garante, no entanto, que essa cultura "é mais forte" entre as pequenas do que as grandes empresas. Sobre a falta de recursos humanos qualificados, Róza fala numa questão "altamente política" e muito ligada às migrações, assegurando que há muitos refugiados com "imenso potencial" ao nível formativo e que não está a ser devidamente aproveitado porque a regulamentação e as leis "não são adequadas às necessidades e capacidades destas pessoas".

*A jornalista viajou a convite da Comissão Europeia

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