Não são as proclamações solenes de convergência com a Europa que alteram o contínuo acentuar da divergência de Portugal face aos países com os quais nos comparamos.
Os dados que o comprovam são conhecidos, mas vistos no seu conjunto como constam de um Manifesto cívico contra o atraso económico e social do país, recentemente divulgado - aliás referido em publicação deste grupo de media -, tornam-se assustadores e demolidores das políticas públicas seguidas nos últimos anos.
O PIB cresceu apenas 1,25% em média anual de 1995 a 2021, 25 anos, dos quais 18 anos de governo socialista ou da geringonça e quatro de correção de rota exigida pela intervenção da troika negociada pelo governo de Sócrates. Desde 1999 até 2020 Portugal teve o terceiro crescimento mais lento da zona euro, 0,8% ao ano, e os portugueses têm hoje menos poder de compra face à média da UE do que há mais de 20 anos.
Se em 2015 o PIB per capita português era de 78% da média europeia e estava acima de dez países da UE, em 2021 era apenas superior a seis outros Estados, tendo caído para 74% da média. Nesse ano, Portugal tornou-se o quarto país da zona euro com menos poder de compra.
As políticas seguidas traduziram-se em baixos salários, tendo o salário médio crescido apenas 4% de 2000 a 2021, quando o dos países da OCDE cresceu 22%.
A realidade que estes números evidenciam é indesmentível, todavia diariamente encoberta por uma oratória sofista que produz uma realidade virtual, focando a atenção em políticas de rótulo atraente, muitas sem conteúdo ou execução, cujo último exemplo é a nova política de habitação, nome grandioso para um conjunto quase vazio pela impossibilidade de cumprimento. Fazendo esquecer que a crise da habitação se deve em parte relevante a políticas coercivas da criação de riqueza e que, no fundo, são a causa dos baixos salários, bem patentes no facto de mais de 50% dos trabalhadores ganharem menos de 1000 euros por mês.
Daí os alarmantes níveis de pobreza que justificam a emigração, cujo número na última década superou a registada na década de 1960.
Se a esta pintura real juntarmos a degradação de serviços públicos essenciais, não se vê como não ficarmos sobressaltados com as políticas seguidas, um poderoso veneno continuado.
Declaração de interesses: fui um dos subscritores do Manifesto.
Economista