O ISQ, um dos maiores centros tecnológicos do país, está presente no dia-a-dia dos cidadãos de forma indelével, mas quase transparente. Uma das múltiplas atividades deste organismo privado é garantir a segurança alimentar, de equipamentos e de infraestruturas. Com mais de 800 colaboradores a nível nacional, o ISQ carimba a sua marca no nosso quotidiano quando verifica a temperatura dos camiões de transporte de bens perecíveis, a qualidade dos frescos que estão nas prateleiras dos supermercados e a calibragem das balanças nestes espaços comerciais. São processos de controlo obrigatórios e um crivo de qualidade e segurança, mas que normalmente passam despercebidos ao consumidor. As inspeções alimentares são cruciais para a saúde e bem-estar das populações, mas o papel desta entidade vai muito mais longe.
Como conta António Vilarinho, diretor da delegação Norte do ISQ e responsável pela direção de inspeções técnicas e regulamentares, uma das áreas onde a entidade intervém é na inspeção de parques infantis, equipamentos desportivos e também de diversão, como os muito procurados divertimentos das feiras populares. Os clientes vão desde câmaras, escolas, centros comerciais, associações, a empresas que exploram estes recintos. O ISQ atua no controlo das condições de segurança da instalação e exploração dos espaços de lazer e desporto, avaliando todos os apetrechos na fase inicial de operação e posteriormente de manutenção, inclusive os pavimentos, de forma a determinar o grau de performance em caso de choques/quedas.
No entanto, e apesar destas inspeções terem caráter obrigatório, os incumpridores passam incólumes. O país tem assistido - felizmente, não muitas vezes -, a acidentes com gravidade nestes espaços. Há uma "forte componente de sorte", diz António Vilarinho. Afinal, aponta, "não há coimas, nem fiscalização. Tem faltado a frontalidade necessária às entidades" que tutelam estes espaços. No caso dos equipamentos de diversão, a lei exige inspeções anuais. No entanto, a avaliação é feita num momento e num determinado local de instalação. Quando a máquina é montada noutro recinto - este negócio é itinerante -, há uma nova instalação elétrica, os componentes mecânicos podem ter sofrido alterações na montagem ou na deslocalização... surge uma componente de risco. Já os parques infantis e os recintos desportivos carecem de validação para entrarem em funcionamento e também a cada cinco anos de exploração, e sempre que ocorram alterações.
O papel de verificador do ISQ é tão lato que se estende também a infraestruturas de maior dimensão e impacto. Como recorda António Vilarinho, foi o ISQ que analisou a resistência dos parafusos da ponte metálica D. Luís I, no Porto, antes do metro passar a atravessar o rio Douro pelo tabuleiro superior. As travessias em metal de Fão e de Viana do Castelo têm igualmente o seu carimbo de segurança. Mais a sul do país, o ISQ estabeleceu uma ligação à Ponte 25 de Abril que remonta aos finais da década de 80. A última avaliação data de 2020, quando realizou uma inspeção dos aparelhos de apoio do pilar 5 e se concluiu pela necessidade de substituição dos discos, intervenção levada a cabo no ano seguinte.
Em cima do gás
Uma das áreas onde o departamento de inspeções mais atua é a do gás. Neste caso, o ISQ realiza inspeções nas vias públicas (onde correm as condutas), nas instalações domésticas e dos setores terciário (hotéis, restaurantes, cafés) e industrial. Segundo frisa António Vilarinho, "o ISQ é a maior entidade inspetora de gás a nível nacional". As verificações são obrigatórias, no caso da indústria e serviços a cada três anos, e em habitações particulares em cada cinco. Muitas das vezes, os consumidores estão "distraídos", mas em caso de acidente - e no gás, tendem a ser graves - estando a data de inspeção caducada, o seguro não cobre prejuízos, alerta António Vilarinho. No domínio energético, o ISQ também realiza avaliações às instalações elétricas, mas neste caso só são obrigatórias na fase inicial. "Normalmente, os acidentes não têm tanto impacto como o gás, embora sejam muitos. É uma luta antiga para que haja mais inspeções ao longo da vida da instalação". E volta a frisar: "Temos tido sorte".
Incrementar competências
O instituto privado e independente, de utilidade pública e sem fins lucrativos, tem ainda uma área laboratorial acreditada e um departamento de sistemas integrados de engenharia ao serviço da economia e das empresas portuguesas. Em simultâneo, assume uma aposta forte na formação de trabalhadores no ativo, desde profissionais altamente qualificados a técnicos especializados. Em Vila Nova de Gaia, criou o Ecotermolab, uma escola-laboratório, onde os formandos têm aulas em ambiente real. As salas estão equipadas para responder a formações em automação e robótica, AVAC e climatização, soldadura e segurança, eletricidade e energia.
Segundo Marisa Pais, responsável pela área de formação do ISQ na região Norte, a associação tem procurado acompanhar a tecnologia que vai aparecendo, tendo apostado nos últimos anos e investido nas áreas de automação e robótica, controlo industrial e lançado cursos em hidrogénio e baterias de lítio. Isto, sem retirar relevo à formação em soldadura (a génese do ISQ é esta especialização), que abrange todas as funções deste processo, estando certificada a nível nacional e mundial. O ISQ ministra cerca de mil cursos anualmente, muitos nas instalações do cliente/empresa e à medida, abrangendo perto de 22 mil profissionais de norte a sul do país. Marisa Pais frisa que os cursos são exclusivamente frequentados por trabalhadores no ativo, enviados pelas empresas ou profissionais que procuram progredir no mercado de trabalho. Esta não é, contudo, uma opção do ISQ. "Temos muitas empresas a pedir-nos soldadores. Nós podemos ministrar formação a jovens. Mas onde vamos encontrar 15 jovens que queiram ser soldadores?"
O ISQ registou um volume de negócios de 48 milhões de euros no ano passado. O grupo, que agrega várias participadas nacionais e internacionais, apresentou uma faturação de 75 milhões. O ISQ está presente em mercados como Espanha, Angola, Brasil, Macau, Argélia, Cabo Verde, Timor Leste e Guiana Francesa, mas a internacionalização tem-se apresentado "uma mochila pesada de transportar", diz António Vilarinho. "Estes processos são muito caros". No Brasil, por exemplo, "os proveitos para atravessar o Atlântico desvanecem-se" na carga fiscal.