Porto de Aveiro replica conceito 5G italiano para poupar tempo e ganhar mais cargas

Desde maio de 2022 até ao final da primeira quinzena de fevereiro que esteve a ser testada no porto de Aveiro uma rede 5G dedicada à otimização da gestão de cargas. Porto quer estar na linha da frente da inovação e conta, para já, com a Vodafone e Ericsson. O DV viu in loco as soluções testadas e revela-lhe os resultados.
Publicado a

Quando um navio chega ao porto de Aveiro todo o processo de carga e descarga de mercadorias é manual. Apesar de os operadores portuários recorrerem a maquinaria pesada, certo é que a localização e inspeção dos itens, a monitorização do armazém e a decisão do que expedir e como, ainda está dependente do fator humano. O cenário, contudo, terá os dias contados, após a conclusão da prova de conceito que evidenciou como a automatização de processos torna a gestão de carga mais preditiva e eficiente. Tudo com base na rede 5G.

"O 5G será fundamental para aquilo que entendemos que são os portos do futuro", afirma Eduardo Feio, presidente do Conselho de Administração do Porto de Aveiro e do Porto da Figueira da Foz, ao Dinheiro Vivo (DV).

Vamos por partes. No final de 2022, o porto de Aveiro tinha movimentado 5,772 milhões de toneladas de carga, mais 1,4% face a 2021. "O melhor ano de sempre", segundo Eduardo Feio. O ano de 2023 e os anos seguintes poderão ainda ser melhores, à medida que vão sendo utilizadas ferramentas em realidade aumentada, realidade virtual e Inteligência Artificial, suportadas pelo 5G.

Como? Entre maio de 2022 e o dia 17 de fevereiro (esta última sexta-feira), esteve a decorrer num dos armazéns do Terminal Multiúsos da Administração do Porto de Aveiro uma prova de conceito no uso de tecnologia 5G para otimizar a gestão de carga.

Os resultados preliminares partilhados com o Dinheiro Vivo mostram que o tempo que leva a descarregar cada navio caiu 10%, enquanto o número de itens descarregados por hora aumentou 10%. Também o tempo necessário para utilizar a empilhadora caiu 8% e, no final do dia, todo o tempo que é necessário desde que a carga é registada no cais e, posteriormente, arrumada corretamente no armazém, melhorou 14%.

Acresce a redução para um terço do tempo necessário para registar dados do frete do navio na base de dados e o reforço em 50% do número de dados carregados na base, com possibilidade de colocar nova informação, como localização, orientação de posição, empilhamento e estado dos fretes, para acelerar as operações.

Os números têm por base apenas um dos armazéns do porto e a atividade diária dos operadores Aveiport e PTM Ibérica. Para esta prova de conceito, o porto de Aveiro recorreu à Vodafone e à Ericsson. As duas telecom montaram uma rede privada 5G standalone (ou seja, sem necessidade de recorrer ao 4G, algo que ainda não está disponível para o consumidor comum).

Através de duas antenas interiores e uma antena exterior, a par de 14 câmaras de alta definição, com sensores 5G, a Aveiport e a PTM Ibérica conseguiam identificar, em tempo real, a posição de toda a carga na área selecionada do terminal e, adicionalmente, recorrendo a um expert system e a tablets com realidade aumentada, podiam guiar as operações de carga e armazenamento dos fretes. Além disso, dispunham de um "gémeo digital", isto é, uma réplica digital do terminal em tempo real, construída com informações recolhidas a partir da carga, do plano de carga, dos fretes e dos veículos. Assim, e também através de um algoritmo dedicado a softwares logísticos para organizar e posicionar os fretes e óculos de realidade virtual, puderam recorrer a simulações das operações de carga completas, verificando fretes, a respetiva posição e definindo a melhor estratégia para a operação. Isto antes da mesma ocorrer.

Este caso de uso do 5G já tinha sido criado e implementado pela Ericsson no porto de Livorno, em Itália, e foi nos últimos nove meses testado no porto de Aveiro.

Conhecidos os primeiros resultados da prova de conceito, o presidente do porto de Aveiro explica que, agora, é tempo de "avaliar os resultados desta experiência". Assumindo que o 5G "é hoje uma infraestrutura base de qualquer território" e que na atividade logística dos portos "o tempo conta", Eduardo Feio assume a vontade de apostar mais e mais na tecnologia. Contudo, refere ser cedo para antever investimentos ou planos mais concretos nessa área.

O próximo passo é aferir se há "condições para envolver mais atores da comunidade" neste tema do 5G. O gestor assume o desejo de tornar a digitalização das operações no porto "uma realidade no mais curto espaço de tempo". No entanto, "os custos e a rentabilidade" do projeto têm de ser aprofundados.

A par da digitalização, o gestor lembra que o porto de Aveiro também tem planos a decorrer no âmbito da descarbonização da atividade portuária. Realça que tudo o que permita planeamento, monitorização, otimização de processos e melhoria da eficiência é visto com bons olhos, mas ainda é cedo para lançar planos concretos.

De acordo com a estratégia nacional para o 5G, até ao final de 2025 tem de ser disponibilizada aos portos a rede 5G. No caso do porto de Aveiro essa disponibilização tem de ocorrer até ao final de 2024, tal como nos portos de Lisboa, Leixões, Sines e Setúbal.

Henrique Fonseca, administrador da Vodafone Portugal responsável pelo segmento empresarial, afirma que "a tecnologia já existe, não é ficção científica, nem são power points", enfatizando que é possível "ter ganhos de produtividade" com a nova rede móvel.

Ao DV não faz qualquer previsão, mas assegura que são as empresas as grandes beneficiárias do 5G, que permite "medir e fazer contas à produtividade e à competitividade adicional", tanto nos portos como noutras indústrias.

"Esse é um trabalho que temos vindo a fazer com os nossos clientes. Temos uma série de provas de conceito a acontecer com outros clientes de outras indústrias. Estamos a alargar a rede 5G, começámos pelas capitais de distrito e, agora, estamos a alargar a capilaridade da nossa rede. O que temos vindo a fazer é disponibilizar um conjunto de casos de uso que já estão testados e disponíveis, para que as empresas possam experimentar e beneficiar do 5G", realça.

Nuno Roso, head of digital services da Ericsson Portugal, empresa parceira de longa data da Vodafone, acredita que a aplicação do 5G junto das empresas, sem ser em testes, é uma questão de tempo.

"Estamos um bocadinho ainda numa fase experimental", considera, indicando que o caso do porto de Aveiro é um exemplo de como a nova tecnologia pode melhorar operações. No entanto, prossegue, defende que "existe muita curiosidade e muita expectativa" sobre o 5G, embora a nova rede "não seja uma bala de prata que vai resolver todos os problemas". Isto é, a nova tecnologia tem de ser aplicada em conjunto com outras inovações.

"Nós trazemos a tecnologia e, em conjunto, vamos implementar, experimentar, ajustar e ver o que é adequado a cada uma das indústrias. Existe uma grande vontade de digitalização, de otimizar processos e reduzir custos e o 5G pode ajudar nisso", defende.

No caso de Aveiro, "o objetivo é ter resultados bastante promissores, como os que observados em Livorno, Itália", conclui.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt