Portugal cai no PIRLS, relatório que avalia leitura e literacia de crianças no 4º ano

Na semana em que foram revelados os resultados do PIRLS, o Educar tem Ciência debruçou-se sobre a importância dos primeiros anos de escolaridade.
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Portugal teve uma classificação de 520 pontos no relatório PIRLS, apresentado esta semana, uma descida face ao estudo anterior. Este foi o ponto de partida para o debate entre o investigador João Marôco e Nuno Crato, em mais uma edição de Portugal tem Ciência, um projeto da Iniciativa Educação em parceria com a TSF e o Dinheiro Vivo.

Produzido pela IEA (International Association for the Evaluation of Educational Achievement), o PIRLS avalia a literacia e a leitura em crianças do quarto ano de escolaridade. "Este teste é feito numa altura fundamental de transição para o percurso académico dos alunos. Até ao quarto ano, geralmente, as crianças aprendem a ler. E têm de aprender a ler bem porque, a partir daí, vão ler para aprender", referiu João Marôco, que sublinhou a importância da literacia e leitura nos quatro primeiros anos do primeiro ciclo para o sucesso da globalidade do percurso educativo.
Um aspeto que torna ainda mais relevante a descida de oito pontos dos alunos portugueses. João Marôco alertou para a necessidade de entender o que está por trás dos bons ou maus resultados.

Em 2016 o investigador fez um estudo a partir dos resultados do PIRLS, que revelou serem os recursos educativos em casa, uma das principais variáveis que influenciava o desempenho dos alunos. Para o investigador, são também estes recursos facilitadores que explicam a diferença de resultados obtidos por escolas públicas e privadas nos vários estudos nacionais.

"Em todos estes estudos tem-se verificado que há uma influência por parte da cultura geral e da educação das famílias - sobretudo das mães - é uma coisa transversal", referiu, por seu turno, Nuno Crato. Como lembrou João Marôco, há estratégias que podem ser desenvolvidas em todos os agregados familiares. Caso da promoção ativa da leitura. "Não tem de ser pôr os miúdos a ler o que eles acham que é uma seca. E mesmo que os pais não gostem de ler podem incentivar os seus filhos, de uma forma produtiva e construtiva: "eu não tive tempo para ler isso, faz-me lá um resumo". Porque é diferente ler do que ter de ler e fazer um resumo", explica o investigador.

Gostar de ler, de acordo com as conclusões do PIRLS, não foi determinante para os resultados alcançados. Contudo, os alunos que liam mais horas por dia tiveram melhores prestações. Um facto que levou o debate para a necessidade de treino destas competências. "É como jogar futebol. Não é por estarmos a ver uma equipa a jogar que vamos ser bons jogadores", exemplificou João Marôco que lembrou que os jogadores de excelência treinam todos os dias, mesmo fora dos horários estipulados. "Nenhum compatriota tem dificuldade em dizer que praticar é importante, mas quando se chega ao ambiente escolar os pais dizem: o meu filho tem tantos trabalhos de casa, coitado, não consegue fazer mais nada", lamentou.

A este propósito, Nuno Crato lembrou que o gosto pela leitura não está diretamente ligado com a capacidade de leitura. "Às vezes as pessoas pensam que se aprende a ler gostando de ler, e não é bem assim: aprende-se a ler de uma forma sistemática", frisou. O presidente da Iniciativa Educação sublinhou ainda a importância da exposição prévia à literacia, reforçada pelos resultados do PIRLS, que dá um caráter fundamental ao trabalho desenvolvido ao nível do pré-escolar.

"É muito importante utilizar não só os resultados dos testes mas principalmente os resultados de contexto, para perceber quais são as variáveis que nos explicam as diferenças entre alunos para, depois, quem decide sobre política educativa poder decidir com base na evidência", destacou João Marôco.

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