As famílias portuguesas gastaram de janeiro a setembro deste ano qualquer coisa como oito mil milhões de euros em bens do tipo duradouro, como “veículos, mobiliário ou equipamentos elétricos”, alguns dos itens mais importantes segundo as estatísticas oficiais.
Esse valor traduz-se num crescimento (real, descontando já a inflação) de 8,5% face ao mesmo período de 2015 e é o terceiro avanço mais forte da zona euro. As famílias residentes em Portugal gastaram, basicamente, mais 633 milhões em apenas um ano.
As bases de dados do Eurostat consultadas pelo Dinheiro Vivo revelam ainda que aquela subida de 8,5% é a quarta maior da Europa (em 21 países para os quais já há informação).
Em termos de crescimento acumulado desde início do ano, Portugal está apenas atrás da Eslovénia (10,8%) e de França (8,7%). Fora da zona euro, o consumo de bens duradouros apenas avança com mais força na Polónia (14%).
Os maiores perdedores foram Bulgária (-29%), Malta (-31%) e Luxemburgo (-35%).
O Instituto Nacional de Estatística (INE) já dera conta, na semana passada, de que a procura interna está a ser o maior motor do crescimento neste ano, superando inclusive o contributo das exportações líquidas (expurgadas as importações).
A ajuda desta despesa das famílias tem sido importante para sustentar esta retoma. É determinante a puxar pelo consumo de outros de bens e serviços (veja-se o caso dos combustíveis). Mas também impulsiona as importações, que diminuem o PIB.
O aumento do consumo de bens mais caros é o reflexo de vários fatores. Da política de devolução de rendimentos (salários e pensões) e do aumento da confiança, dois pontos tantas vezes assinalados e elogiados pelo ministro das Finanças, Mário Centeno para explicar a natureza da recuperação.
Puxar pelo crédito bancário
Mas também se explica à luz da aceleração pronunciada dos empréstimos bancários para consumo e pelo facto de, durante vários anos (o tempo da troika), as famílias terem parado de renovar esse tipo de bens, normalmente mais caros, cortando no seu consumo.
Nos novos empréstimos bancários, o Banco de Portugal diz que o crédito pessoal (um dos fins é compra de bens para o lar) estava a subir quase 29% em setembro face ao mesmo mês de 2015. O crédito para compra de carros novos ia com um aumento de 29%; para compra de usados ia em 26%.
O consumo de bens duradouros, embora tenha arrefecido um pouco no terceiro trimestre, continua a registar aumentos assinaláveis. O INE e o Eurostat apontam para crescimentos de 6% no terceiro trimestre.
O Eurostat destacou que, no PIB, “Croácia, Eslovénia, Grécia e Portugal registaram os maiores crescimentos face ao trimestre precedente”, mas depois mostrou que a economia doméstica está a crescer (1,6%) abaixo da média europeia em termos homólogos (1,9% no caso da União Europeia e 1,7% no caso da zona euro), o que já acontece há algum tempo. E está com o nono ritmo mais fraco da UE.
Assim é porque o investimento na economia portuguesa está demasiado fraco, a cair de forma persistente desde o final de 2013, arrastado pela construção, sobretudo.