Portugal e os desafios da sustentabilidade empresarial

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A sustentabilidade acarreta muitos desafios já em 2022. Quase todos são equiparáveis e torna-se difícil priorizar um sob o outro. Nem tudo se resume ao ambiente, mas também e principalmente, à vida de cada um de nós. É, portanto, uma intersecção entre o meio ambiente, a sociedade e a economia que em tempos de PRR e fundos europeus importa também compreender em Portugal.

A volatilidade climática é uma preocupação crescente para as empresas globalmente, embora estudos como o [1] Cervest 2021 sugiram que a maioria das organizações ainda não integram o tema nas suas análises de risco financeiro. Alguns dos obstáculos são a dificuldades que enfrentam em medir o impacto ambiental, os fornecimentos insuficientes de inputs relativos a emissões de baixa densidade, custos e os objetivos a curto prazo. Quase todos os inquiridos neste estudo referiram que as suas organizações têm sentido o impacto das alterações climáticas nas suas mais variadas ramificações. O caminho dependerá da contratação de profissionais especializados que definam metas concretas no combate climático dos próximos anos. Auditar o que o seu conselho sabe e perceber o que não domina. Um maior conhecimento climático que seja transversal ao mundo empresarial e esteja alinhado com cada realidade corporativa concreta é crucial. As implicações das mudanças climáticas em áreas chave como as operações financeiras e os novos investimentos são essenciais para um melhor desempenho. Desenvolva-se uma visão comum que reduza o uso insustentável de recursos naturais em cada contexto, tornando os relatórios climáticos e de sustentabilidade tão relevantes como os financeiros. Com o empurrão global da economia circular, cada negócio deverá começar a implementar alguns destes princípios nas operações do seu dia-a-dia.

A diversificação é uma palavra-chave para a implementação de políticas de sustentabilidade já este ano. Aplicá-la significa procurar diversos tipos de empregadores em cada setor, com traços que podem ser menos comuns num determinado enquadramento, mas que servem como complemento aos mais tradicionais. Para lá da responsabilidade social corporativa, esta mudança pode ajudar a combater algumas desigualdades e a fomentar outros equilíbrios. O governo deve orientar o caminho através de diretivas públicas, mas cabe a quem de direito implementar a mudança no setor privado.

Compreender que as empresas que se alinham com as linhas da Enviromental Social Governance (ESG) também têm um melhor desempenho a médio e longo prazo é um dos factos empresariais essenciais dos nossos tempos. Isto tem sido reconhecido globalmente pelos mercados financeiros que analisavam como risco maior a consciencialização das alterações climáticas e rapidamente passaram a descrevê-las como outra de oportunidades de negócio incalculáveis. Um setor financeiro que certamente não se guia pela moralidade da urgência dos tempos nesta vertente ambiental, mas quando se trata de retornos financeiros desta dimensão, a realidade é que o próprio sistema económico muda. Isto já acontece atualmente com os dividendos no mercado próprio de empresas que atuam de acordo com o ESG e que acabam por diminuir as suas externalidades negativas. Em Portugal ainda não são muitas. Ora, quem não é sustentável, dificilmente será competitivo hoje num mercado abrangente.

A maioria dos consumidores entre os 18 e 45 anos acreditam que as marcas não são suficientemente honestas sobre a sua responsabilidade ambiental e desenvolvem práticas de greenwashing sistemáticas. Esta força matriz do lucro das empresas é mais exigente com a responsabilidade corporativa e a transparência do que em qualquer outro momento da nossa história. Possuem-se meios e formas muito mais rápidas para detetar essas mesmas linhas de transparência. A exigência refletida na expressão anglo-saxónica do walk the talk de cada organização é posta mais à prova do que nunca. Acrescente-se isto à atual legislação da União Europeia em direção à proteção de políticas sustentáveis constantes, procurando reduzir os impactos ambientais enquanto mantêm benefícios económicos sociais, e facilmente se conclui que nenhuma empresa será sustentável demais amanhã.

Os principais desafios relativos à sustentabilidade não são fáceis de enfrentar. Principalmente para grande parte das empresas portuguesas. Requerem mudança de mentalidades em muitos locais onde isso demora a arrancar. Mas como o tempo não para, um líder que fique aquém de implementar políticas sustentáveis e que não as procure fomentar, perderá de vista ser exatamente isso amanhã.

Por isso mesmo, 2022 já nos desvenda a principal questão para os líderes empresariais: ser sustentável ou não ser de todo.

Gonçalo Ribeiro Telles, consultor de Comunicação e Analista Político

[1] 2021, The Cervest 2021 Intelligence Outlook: US and UK Enterprises

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