Portugal não sai do euro, mas como seria?

Publicado a

Portugal não vai sair do euro, mas como seria se saísse? E o que aconteceria ao nosso dinheiro?

Qual é o risco de perdermos o euro e voltarmos ao escudo?

Há dois anos, a questão nem se colocava, mas a crise da dívida

soberana e a intervenção externa trouxeram a pergunta para cima da

mesa. Segundo o economista Nouriel Roubini, o risco de Portugal sair

do euro é de 30%. Já o ex-ministro da Economia e Finanças Joaquim

Pina Moura considera que esse cenário é impensável. A mesma

opinião é partilhada pela esmagadora maioria de outros

especialistas. Segundo os cálculos dos analistas do UBS, o abandono

da moeda única custaria 11 500 euros a cada português só no

primeiro ano. Cerca 50% do PIB desapareceriam de um dia para o outro.

Como seria Portugal no dia seguinte à saída do euro?

No dia seguinte a Portugal deixar o euro as duas das principais

consequências seriam a desvalorização brutal da moeda e a subida

em flecha das taxas de juro. A desvalorização da nova moeda face ao

euro e a outras divisas tornaria as exportações mais competitivas

(boa notícia), mas, por outro lado, as importações (péssima

notícia) ficariam impossivelmente caras. O economista João Ferreira

do Amaral estima que a saída do euro levaria a uma depreciação

cambial da ordem dos 30%, mas há quem aponte para uma queda maior

que se acentuaria com o tempo. Para o sector financeiro seria o quase

colapso. As linhas de crédito internacionais fechar-se-iam e as

poupanças dos aforradores teriam tendência a fugir. O País seria

governado a partir do Banco de Portugal.

O que aconteceria aos meus empréstimos?

A maioria dos especialistas financeiros e economistas contactos

pelo Dinheiro Vivo não têm uma resposta definitiva. Ainda assim, a

conversão automática dos empréstimos na nova moeda - os euros eram

convertidos no novo escudo à taxa de câmbio fixada nesse dia - é

admitida como a solução mais provável. Qual seria o efeito desta

conversão forçada? "Com a desvalorização da moeda, um

empréstimo com uma prestação de 500 euros poderia passar para mais

do que os cem contos correspondentes, o que seria muito duro para as

famílias", adianta fonte do sector bancário. Ou seja, o

câmbio fixado poderia não ser o mesmo que aquele que existia quando

Portugal aderiu ao euro (200 escudos=1 euro); logo a dívida, em

escudos, poderia ser mais alta do que o valor original.

Até que valor está garantido o meu dinheiro no banco?

O dinheiro depositado nos bancos portugueses está protegido pelo

Fundo de Garantia de Depósitos. Este fundo garante o reembolso da

totalidade do valor depositado por cada cliente até 100 mil euros,

por conta e por banco. Quer isto dizer que, se tiver 150 mil euros na

mesma instituição, só terá direito ao reembolso de 100 mil euros.

Já se tiver os 150 mil euros divididos em contas de dois bancos

conseguirá receber a totalidade do montante. No caso de existirem

dois titulares da conta têm ambos direito a receber 100 mil euros

cada, uma vez que são garantidos os valores por depositante e por

instituição. Já num cenário de um casal que tenha uma conta de

250 mil euros conjunta e partilhada com dois filhos, estão

garantidos 400 mil euros. Ou seja, ter uma conta com vários

titulares é uma boa ideia.

Posso abrir uma conta num banco da zona euro?

Sim, pode abrir uma conta bancária em qualquer país da Zona Euro

ou da União Europeia. No entanto, os bancos são livres de aceitar

ou não o seu pedido. Antes de abrir uma conta, "o banco precisa

de conhecer os seus potenciais clientes e isso pode exigir mais

diligência na avaliação do pedido de não residente", explica

a Comissão Europeia. Contudo, as autoridades alertam para o facto de

esta recusa só ser aceitável se existir uma justificação

comercial, porque os bancos não devem discriminar qualquer cidadão

da UE por causa da nacionalidade. Embora existam bancos que têm a

política de não aceitar clientes não residentes, por outro há

outros que até têm produtos específicos para este segmento,

oferecendo condições vantajosas aos depositantes. Os custos destas

contas são, de um modo geral, muito parecidos, mas o melhor mesmo é

recolher informação e comparar as ofertas com cuidado. Em termos de

garantias, os valores são idênticos a Portugal. Com a aplicação

de uma directiva comunitária, os fundos de garantia de depósitos

dos países europeus garantem 100 mil euros por depositante, por

banco. Não se esqueça, no entanto, do seguinte: O Lehman Brothers

caiu e era um grande banco de investimento mundial. Ou seja, dimensão

não significa obrigatoriamente mais segurança.

Posso levar dinheiro para fora do país?

Qualquer pessoa que entre ou saia de um país da União Europeia -

seja de carro, avião, comboio ou barco - e leve consigo 10 mil euros

ou mais (ou o equivalente em outras moedas), é obrigado a declará-lo

às autoridades aduaneiras. Esta declaração, disponível no site da

Comissão Europeia, faz parte da estratégia comunitária de combate

à lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo. Caso não

declare o valor, ou a declaração seja falsa (para fugir aos

impostos), o dinheiro pode ser apreendido. Cada país estabelece as

suas sanções. A Comissão Europeia adianta que "a

confidencialidade dos dados fornecidos é garantida, a fim de

proteger a sua segurança ao transportar dinheiro". Mas pode

haver troca de informação entre as autoridades quando há sinais de

que "o dinheiro está a ser utilizado com o fim de branqueamento

de capitais ou financiamento do terrorismo". No caso de o

dinheiro pertencer, por exemplo, à empresa para a qual trabalha,

deve colocar o nome da empresa na declaração. Para as pessoas que

viajam em grupo, o limite de 10 mil euros aplica-se individualmente.

A obrigação de declarar aplica-se a todos: menores através de seus

pais ou responsáveis legais, pessoas mentalmente incompetentes ou os

seus representantes legais.

Posso abrir uma conta bancária na Suíça?

Sim, independentemente de ser uma conta normal ou numerada

(identidade mais protegida). No entanto, os bancos reservam-se o

direito de o aceitar como o cliente. Podem, por exemplo, rejeitar se

tiverem dúvidas quanto à origem dos seus fundos. Seja como for, se

não estiver a fugir ao fisco ou a lavar dinheiro - em certas

situações os bancos podem até pedir documentos que comprovem a

origem dos rendimentos depositados -, é legal abrir uma conta. Para

o fazer, basta dirigir-se a um escritório de representação do

banco ou, caso não exista uma subsidiária, terá mesmo de ir até à

Suíça. Para os clientes com residência fora da Suíça, o UBS

recomenda que "não tenham menos de 50 mil francos suíços (41

mil euros) depositados, não adiantando valores sobre as comissões e

os juros praticados. Lembre-se, no entanto, que nos últimos dois

anos a Suíça, pressionada pela Alemanha, começou a mudar, embora

devagar, a sua política de privacidade dos detentores estrangeiros

de contas, tendo aceite colaborar nas investigações lançadas para

identificar fugas ao fisco. Para quem pretende mais informações, o

melhor mesmo é contactar a Associação de Bancos Suíços (Swiss

Bankers Association).

O que fizeram o Deutsche Bank e o Barclays que me possa

interessar?

O Deutsche Bank e o Barclays em Portugal passaram, recentemente, a

ser sucursais. Deixaram, portanto, de ser bancos de direito

português. O que significa isto? Simples: que o dinheiro depositado

no Deutsche Bank e no Barclays passou a estar protegido pelos fundos

de garantia alemão e britânico, respectivamente, e deixou de estar

sob a alçada do Fundo de Garantia de Depósitos português. As

garantias destes fundos alemão e inglês - desencadeadas apenas em

caso de falência - são as mesmas que existem em Portugal no que diz

respeito ao montante: 100 mil euros por depositante e por

instituição. Se em vez da falência de um destes bancos estivermos

a falar da saída de Portugal do euro, todos os produtos que fazem

parte do balanço são automaticamente convertidos no novo escudo.

Há, no entanto, uma alternativa. O Deutsche Bank está a vender uma

conta que é aberta em simultâneo em Portugal e na Alemanha. Esta

conta, com fundos diferentes, tem também interlocutores diferentes.

Ou seja, o gestor da conta não está em território nacional, está

fora. Se Portugal saísse da moeda única, estes euros seriam

convertidos não em escudos, mas em marcos (isto se a Ale manha

também voltasse ao marco).

O que aconteceria às minhas acções e fundos?

Se Portugal saísse do euro, o dinheiro investido em produtos

financeiros em euros seria convertido na nova moeda, o novo escudo.

"Tal como se fez em 2002, em que as acções e unidades de

participação dos fundos passaram de escudos para euros, teria de

ser estipulada uma taxa de câmbio que indicasse que um euro valeria

x escudos, fazendo-se depois a conversão", adianta uma fonte do

sector financeiro. Isto significa que continuaria a deter os mesmos

títulos. Estes simplesmente passariam a ser denominados noutra

moeda. Para situações de falências de bancos ou corretoras, as

acções dos investidores já estão protegidas através do Sistema

de Indemnização aos Investidores (SII), que "garante o

reembolso até ao limite de 25 mil euros por cada investidor",

segundo a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). O

valor-limite é estabelecido por investidor e não por conta. Isto

significa que, numa conta com dois titulares, o reembolso máximo

seria de 50 mil euros. São abrangidos instrumentos como acções,

obrigações, títulos de participação, unidades de participação

em fundos de investimento, bilhetes do Tesouro, entre outros. No

entanto, o SII não reembolsa ao preço a que o investidor comprou,

ou seja, não compensa as menos-valias. O montante é calculado com

base no valor dos instrumentos à data em que é accionado o sistema.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt