O mercado nacional de smartphones caiu com estrondo no terceiro trimestre do ano, quer em número de unidades vendidas quer na receita global das vendas. Preveem-se dois a três anos de contenção do lado dos portugueses para os próximos tempos, após um "grande ciclo de renovação" de smartphones..De acordo com dados da IDC cedidos ao Dinheiro Vivo (DV), entre julho e setembro, venderam-se 520,4 mil smartphones em Portugal, menos 25,9% do que no terceiro trimestre de 2021 (quando se venderam mais de 630 mil máquinas). Com a quebra do lado da procura, também as receitas caíram. As vendas totalizaram 194 milhões de euros, um recuo homólogo de 10%..O terceiro trimestre marca o fim de cinco trimestre consecutivos de crescimento para o mercado português. Francisco Jerónimo, vice-presidente da IDC Europe, diz ao DV que há diferentes motivos que explicam a quebra acentuada..Primeiro, "a diferença cambial teve impacto". Isto é, contabilizando as vendas em dólares, as receitas do mercado português caíram 23%, em termos homólogos. Depois há uma "questão técnica" quanto às unidades vendidas, sendo que "80 mil unidades da Xiaomi não foram reportadas no terceiro trimestre, serão incluídas no quarto trimestre". Se esses devices tivessem sido incluídos, a quebra no número de unidades vendidas seria de 15%, em termos homólogos. Mas estes são detalhes técnicos..O que motivou o decréscimo do mercado nacional de smartphones foi o fim do "grande ciclo de renovação" de aparelhos que se vinha a verificar desde a pandemia.."Há [neste momento] a questão da inflação e do aumento generalizado dos preços", refere Francisco Jerónimo. Aliás, o preço médio de venda dos telemóveis fixou-se nos 374 euros, mais 21% do que há um ano (308 euros), considerando "a diferença cambial e os ajustes de preços". No entanto, o mercado não caiu, maioritariamente, por causa desse agravamento.."O mercado português registou vários trimestres de crescimento consecutivos. Não foi a subida dos preços que levou a esta queda, que já se esperava. Os consumidores que renovaram as suas máquinas nos últimos dois anos, neste terceiro trimestre já não precisavam de renovar os seus devices. E os que precisavam optaram por esperar", explica..Acresce que "os orçamentos das famílias são limitados" e, "quando as contas da água ou luz sobem, são feitas escolhas", pelo que se sentiu "um adiamento nas decisões de compra". Assim, após "fortes crescimentos no pós-pandemia", o mercado português entrou numa "fase de contração"..Segundo Francisco Jerónimo, esta é uma fase que se prolongará, pelo menos, nos próximos seis meses, com a IDC a prever que, em Portugal, se refletirá em dois ou três anos "sem crescimentos" no mercado de telemóveis..Para o quarto trimestre, a perspetiva é que as vendas caiam cerca de 2%..Apesar da quebra há um dado tecnológico importante. Numa altura em que as empresas de telecomunicações estão a implementar a quinta geração da rede móvel (5G) no país, a IDC constatou que os smartphones 5G representaram 59,4% das vendas entre julho e setembro. "Tudo indica que a venda destes aparelhos continuará a subir", diz Francisco Jerónimo..De acordo com os dados da IDC, Samsung, Apple, Xiaomi, Oppo e Alcatel/TCL foram as marcas mais procuradas em Portugal no terceiro trimestre. Com exceção da Apple, todas as cinco fabricantes viram o número de unidades vendidas cair..Contudo, segundo Francisco Jerónimo, o feito da Apple não é de particular relevância. Não só beneficiou das referidas 80 mil unidades da Xiaomi não terem sido contabilizadas neste trimestre, como se trata da "marca que retém maior valor ao longo do tempo", um prestígio que pode justificar o porquê das vendas continuarem no verde quando todas as outras marcas caem. Mas "está praticamente em queda"..A Apple beneficia, habitualmente, do facto de trabalhar "exclusivamente para segmentos de topo", mas até ao final do ano isso poderá não ser suficiente."Perspetivamos que venha a cair no quarto trimestre", afirma o vice-presidente da IDC Europe. No terceiro trimestre, vendeu 88 mil unidades, mais 0,4% face a igual período de 2021, sendo o preço médio de venda de um iPhone 919 euros..Não obstante, a liderança do mercado português continua com a Samsung. A marca sul-coreana vendeu 252,5 mil unidades, menos 12,7% em termos homólogos, e viu a quota de mercado fixar-se nos 48,5%..Poderá a Samsung preservar melhor a sua posição de liderança quando todo o mercado está a cair? Francisco Jerónimo explica que a quota de mercado da Samsung é elevada devido à "sua capacidade de investir mais nos pontos de venda", por exemplo através de "maiores descontos". Entre julho e setembro, o preço médio de venda de um telemóvel Samsung foi de 295 euros..A terceira marca mais vendida foi a Xiaomi, com 68 mil unidades comercializadas, menos 59,7% em termos homólogos. Não fossem as 80 mil unidades por contabilizar, a Xiaomi "teria sido o segundo maior fabricante" em Portugal, conseguindo uma quota de 31% em vez da quota registada de 13,1%..Seguem-se (por esta ordem) a Oppo e a Alcatel/TCL. No caso da Oppo, que vendeu pouco mais de 35 mil unidades (-53,5%) e registou uma quota de mercado de 6,7%, Francisco Jerónimo conta que a marca está a enfrentar problemas nas cadeias de abastecimento e que a estratégia da fabricante "está mais focada em ter lucro" do que em conquistar mais espaço no mercado. Já a Alcatel/TCL fixou a quota de mercado em 6,4%, após comercializar pouco mais de 33 mil unidades (-28%).