Foi nos anos 1990 que se iniciou a vaga de investimento português na Polónia. Três companhias em particular - Jerónimo Martins, Millennium BCP e Mota-Engil - viram no gigante do Leste europeu uma oportunidade para fazerem crescer os seus negócios. “As empresas portuguesas começaram a olhar para o país entre 1995 e 1998. A Jerónimo Martins deu o mote, ao decidir comprar uma rede de supermercados polaca, a Biedronka, na altura, já com poucas lojas.
Logo depois o BCP comprou o Big Bank Gdansk e um pouco mais tarde surge a Mota-Engil. É engraçado que quase todas começaram com pequenas aquisições e a partir daí é que evoluíram grandemente”, explica ao Dinheiro Vivo Tiago Costa, da Câmara de Comércio Polónia-Portugal.
Atualmente, as três companhias formam a santíssima trindade do investimento português no país. Com uma Biedronka em cada esquina, a Jerónimo Martins anunciou esta semana que, este ano e até março, já abriu mais 11 lojas e investiu 101 milhões de euros no país. O rosa do Millennium bcp também pinta as principais ruas. Só em 2016, o braço polaco do banco aumentou os seus resultados em 28,3% face a 2015, atingindo o valor mais elevado de sempre, 160,3 milhões de euros. Já a Mota-Engil aproveita a onda de investimento público e destaca-se na construção das estradas polacas.
Com mais de 300 mil quilómetros quadrados e 38,4 milhões de habitantes, a Polónia é atualmente um dos maiores Estados membros da UE, no que diz respeito a área, população e também economia. O PIB per capita em 2015 foi de 27,715 dólares e o produto interno bruto cresceu 40% entre 2008 e 2015. É o maior beneficiário de fundos comunitários, estimando-se que, entre 2014 e 2020, receba cem mil milhões de euros de Bruxelas para modernizar o país.
Conjugados, estes fatores tornam a Polónia um isco apetitoso para as empresas portuguesas que, nas últimas duas décadas, têm decidido apostar aqui. “A Polónia é um dos maiores alvos dos investidores de Portugal. Eu fico surpreendida com a quantidade de marcas portuguesas que cá temos: Biedronka, Millennium BCP, Eurocash... só para citar algumas”, sublinha Ágata Mezynska, da Agência de Comércio e Investimento da Polónia.
Apesar de os números oficiais indicarem que o investimento português no país ascende a 4,8 mil milhões de euros, Mezynska explica que na realidade o valor é muito mais alto. “O banco central polaco deu-se ao trabalho de ir conferir o verdadeiro país de origem de todas as companhias estrangeiras a atuar na Polónia. E, nas suas contas, chegou à conclusão de que, desde os anos 1990 e até 2015, as empresas portuguesas já tinham investido 9,8 mil milhões de euros.” E geraram lucros de 123 milhões de euros só em 2015, sendo que 80% do valor foi reinvestido.
Mas o investimento português nem sempre foi constante. Depois da vaga inicial da década de 1990, o boom deu-se na altura em que a Polónia aderiu à União Europeia, em 2004. “A nível burocrático tudo se facilitou e, depois da adesão, entraram logo umas 60 empresas. Primeiro foram as pequenas e médias empresas (PME) e, à medida que o país evoluía, entraram também as grandes, nomeadamente a EDP Renováveis, a Martifer, o Grupo Amorim, o BES Investimento. E não nos podemos esquecer do fenómeno Eurocash. Apesar de a companhia não ser de capital luso, o proprietário é português. É um caso de sucesso na Polónia, é o maior grossista do mercado e está no top 10 das maiores empresas”, sublinha Tiago Costa.
Depois do boom, seguiu-se um afrouxamento trazido pela crise financeira. Enquanto Portugal e a maioria dos países europeus atravessavam dificuldades, a Polónia manteve-se em contraciclo, com bons indicadores económicos. “Deixou de ser um destino barato para as empresas portuguesas. Não era fácil arranjar capital para conseguir investir aqui. E, se calhar, esse período perturbou a vinda de novas empresas”, sublinha o responsável da Câmara de Comércio Polónia-Portugal. Ainda assim, atualmente há mais de 150 companhias portuguesas na Polónia, com várias dimensões e em diversos setores, desde energias renováveis à banca, retalho e construção.
Mas se os investimentos estagnaram, as exportações portuguesas para a Polónia aumentaram consideravelmente. Em 2016, os números da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) indicavam um valor de exportações para o mercado polaco na ordem dos 573,7 milhões de euros. Ainda assim, a balança comercial ficou negativa, já que as importações foram de 728,7 milhões.
Em 2015 eram 1236 as empresas portuguesas que exportavam produtos para a Polónia. A indústria e metalurgia lidera a exportação, enquanto aparelhos eletrónicos estão no topo da tabela das importações. Peças e acessórios automóveis ganham destaque nas trocas comerciais entre os dois países, uma vez que tanto Portugal como a Polónia têm fábricas da Volkswagen.
De realçar também o setor dos vinhos. “Portugal tem crescido imenso nessa área, já devemos ter uma quota de 7% a 8% do mercado polaco. Grande parte deve-se à Biedronka e à Eurocash também, que promoveram muito os produtos portugueses. Hoje, já quase todas as cadeias vendem vinho português. E há 12 anos o vinho nem sequer entrava na lista de exportações”, afirma Tiago Costa. Em 2016, as vendas de vinho para a Polónia ascenderam os 19,4 milhões de euros, sendo a quarta categoria com maior peso no total das exportações nacionais para aquele país.
Mas nem só de trocas comerciais e investimento se faz o fluxo da economia e, no setor do turismo, a relação entre a Polónia e Portugal também se tem estreitado nos últimos anos. A AICEP indica que os turistas polacos, só no ano passado, foram responsáveis por 736,5 mil dormidas nos hotéis portugueses, uma subida de 20% em relação ao ano anterior. O turismo proveniente deste país proporcionou à economia portuguesa uma receita de 103,7 milhões de euros.
A jornalista viajou a convite da Embaixada da República da Polónia em Lisboa