Teletrabalho: o que defendem patrões e sindicatos?

Parlamento iniciou ontem a discussão de 10 projetos de lei para alterar regime de teletrabalho. Parceiros sociais estão também a discutir com o governo como mudar a lei.
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O governo iniciou em julho do ano passado, e antes de haver projetos dos partidos para mudar as regras do teletrabalho, auscultações com os parceiros sociais para nova regulamentação do teletrabalho, mas não só. O chamado Livro Verde sobre o Futuro do Trabalho inclui outras discussões, como a regulamentação do trabalho das plataformas digitais, para a qual o governo pretende entregar uma proposta no parlamento no final de 2022. Já sobre o teletrabalho, não avançou qualquer calendário para alterações legislativas, estando ainda a receber contributos dos parceiros sociais até à próxima segunda-feira.

No documento entregue aos parceiros sociais, para já, há apenas "14 linhas de reflexão" sobre o que fazer quanto ao teletrabalho. Nelas, o governo fala em "aprofundar e melhorar a regulação do teletrabalho" e em criar "novas modalidades de adoção de modelos híbridos" - ou seja, que permitam trabalho presencial e à distância. Ao mesmo tempo, fala em salvaguardar o princípio de "acordo" entre empregador e trabalhador para o teletrabalho e em "afastar o acréscimo de custos" para o trabalhador com instrumentos de trabalho, assim como em garantir igualdade de tratamento para quem está na empresa ou fora dela, atenuar riscos de isolamento, salvaguardar privacidade ou ainda promover a regulação do teletrabalho na negociação coletiva.

Quanto ao Livro Verde, ainda nem todos os parceiros terão entregado os respetivos contributos finais, mas têm dado conta das suas opiniões nas reuniões com o governo e fora delas. Nalguns casos, considerando os objetivos do governo ainda pouco concretos. Mas defendendo, em todos o casos, e em uníssono, que não se deve legislar "a quente" no quadro da pandemia, que impôs o teletrabalho em condições excecionais. De resto, os parceiros mostram-se, aliás, contra a prorrogação até ao final do ano do teletrabalho no quadro da legislação extraordinária em vigor.

A Confederação de Comércio e Serviços de Portugal (CCP) é uma das organizações que já tornou pública a sua posição. Entende, desde logo, que a regulamentação em vista pelo governo favorecerá a "imposição" do teletrabalho, e defende o fim do subsídio de "refeição, deslocação ou penosidade ou outros inerentes à prestação presencial de trabalho" para quem trabalha em casa. A Confederação Empresarial de Portugal (CIP), por outro lado, ainda não tornou pública a sua posição final sobre o que deve ser o regime de teletrabalho em Portugal no futuro. Mas, em entrevistas, o presidente da organização, António Saraiva, tem-se manifestado contra a ideia de que os empregadores devem suportar custos com consumos de energia, internet, água e outros quando o trabalho é prestado fora das instalações das empresas.

A CGTP e UGT mantêm-se bastante críticas quanto à possibilidade de um recurso mais generalizado do teletrabalho. Embora manifestando posições diversas sobre diferentes aspetos da discussão, ambas as estruturas manifestam receio quanto ao efeito que o trabalho fora das instalações dos empregadores terá na capacidade de sindicatos chegarem aos trabalhadores. Além desta matéria, a CGTP tem insistido na necessidade de ver garantida a igualdade de tratamento entre quem desemprenha funções em regime presencial ou remoto. Sobre os projetos que estão em discussão no parlamento, a intersindical liderada por Isabel Camarinha não vê com maus olhos que os deputados precipitem mudanças que ainda estavam em discussão na Concertação Social. Já a UGT entende que a discussão dos parceiros sociais fica "prejudicada". A central sindical liderada por Carlos Silva ainda não divulgou uma posição final sobre o Livro Verde, mas na última segunda-feira foi ouvida pelo PS no parlamento e considerou que "a lei deve obrigar" a que em contrato coletivo ou individual de trabalho "seja regulado o valor da compensação" aos trabalhadores por despesas acrescidas em teletrabalho. Porém, o projeto legislativo do PS não impõe essa obrigatoriedade. Prevê antes uma possibilidade.

Se a discussão da Concertação Social não tem calendário para mudar regras, as discussões do parlamento também deverão demorar a produzir efeitos. Os projetos dos partidos seguem para discussão na especialidade sem votações, para eventuais textos comuns. Dificilmente o PS contará com apoio do BE ou PSD, ou vice-versa, de acordo com o debate de ontem. Entretanto, e ao longo de 2021, vale a legislação extraordinária para lidar com a pandemia. O governo deverá continuar a impor teletrabalho obrigatório e sem acordo consoante a avaliação dos riscos.

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