Precisa de um hacker? Aqui pode contratar um

Há sites para contratar tradutores, equipas de limpeza ou fotógrafos. E depois há o Hacker"s List, onde se contratam piratas.
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Um estudante universitário do Missouri oferece até 245 dólares a quem arrombar o servidor da universidade e mudar as suas notas. Uma empresa da Pensilvânia paga até dois mil dólares a quem remover uma crítica negativa à marca, que aparece na primeira página dos resultados do Google. Um homem do Arizona precisa de piratear o email da ex-mulher para a localizar e permitir que os tribunais resolvam a custódia do filho em comum.

Bem-vindos à Hacker"s List: um site onde quem procura um hacker pode contratar um, e onde os piratas trabalham como freelancers. Há quem peça acesso a contas alheias no Facebook, esquemas para avançar em jogos de telemóveis e assaltos a contas de Whatsapp. Os hackers propõem uma remuneração e competem pelo trabalho. É incrível. Algumas pessoas precisam de voltar a entrar em contas de email suas, às quais perderam acesso. Outras querem desindexar de motores de busca publicações que consideram ofensivas.

O site, HackersList.com, tem uma "Política de Utilização Aceitável" na qual determina os limites do serviço. Proíbe, entre outras, a utilização de hackers para infringir leis, para a venda de narcóticos e outras substâncias controladas; promover violência ou infringir direitos de autor; apoiar esquemas em pirâmide, e a lista continua. É uma salvaguarda dos autores da plataforma, que querem prestar um serviço semelhante ao Craig"s List ou Angie"s List. Os utilizadores até se comprometem a não quebrar a lei, mas quem verifica isso? Ontem, os administradores da plataforma enviaram um aviso por email a lembrar aos membros que devem "denunciar qualquer projecto que infrinja" os termos de serviço. "Vamos manter o Hacker"s List seguro e limpo", dizem.

A verdade é que já existem serviços de contratação de hackers, simplesmente não organizados desta forma. Muitas empresas contratam piratas "éticos" para testarem a segurança das suas próprias redes, o que torna este tipo de serviços numa ideia fabulosa. No entanto, a julgar pelos "projectos" que por lá andam, a maioria pede coisas completamente ilegais. [Ninguém lê dez páginas de termos de serviço, senhores do Hacker"s List]. Resta saber como se faz o enquadramento legal, dado que são anónimos espalhados por todo o mundo, e se alguma força policial se vai entreter com casos de lana caprina.

Depois de navegar pelo site, mostrei-o a um especialista em cibersegurança, Yochai Greenberg, vice-presidente de Cibersegurança e Tecnologia da Gallagher Protection Services. A reacção foi elucidativa: "Isso parece-me suspeito, no mínimo." Greenberg explica que só é legal arrombar uma conta de email própria se as credenciais de acesso estiverem arquivadas no nosso computador/equipamento. "Se piratear o seu email, tem de piratear o servidor do Gmail, Yahoo ou onde tenha a conta. E isso é proibido."

Mas a causa do portal parece nobre: "contratar um hacker não deve ser um processo difícil. Na Hacker"s List, queremos torná-lo simples e livre de preocupações." O site garante os pagamentos se ambas as partes estiverem satisfeitas, e o cliente pode depois classificar a qualidade do serviço. No entanto, Greenberg questiona: "Como é que eles conseguem manter o anonimato dos utilizadores e ao mesmo tempo receber dinheiro e garantir o trabalho?" A plataforma cobra uma percentagem por cada projecto concluído satisfatoriamente, e há mais de 800 projectos já listados e 40 piratas registados. "Quem quer um hacker a sério, procura nos fóruns", conclui o especialista. Foi o que fez o FBI, há dois anos: prendeu mais de uma dezena de pessoas numa operação contra piratas-a-contrato.

O New York Times diz que os três autores do portal não estão prontos para revelarem as suas identidades e que o site está registado na Nova Zelândia (olá, Kim DotCom, tudo bem por aí?).

O jornal cita um especialista em crimes informáticos, Thomas G. A. Brown, que se mostra preocupado com este tipo de plataformas. "A contratação de hackers pode permitir a indivíduos sem conhecimentos técnicos lançarem ciberataques com um grau de negação plausível, baixando as barreiras de entrada para o crime online."

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