"Privados beneficiam como poucos da existência do INATEL"

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Foi deputado, secretário de Estado, passou pelo gabinete da Presidência e advogado sindical. Desde há quatro anos que Vítor Ramalho assumiu a presidência do Conselho de Administração do INATEL e conduziu a sua passagem a fundação. Sem querer quebrar com a tradição, preservando a memória coletiva, a instituição olha para o futuro e aposta na expansão internacional, sem descurar a responsabilidade para a economia portuguesa. Em entrevista ao Dinheiro Vivo, Vítor Ramalho refere a importância de uma instituição com uma rede de 200 mil associados e que proporciona uma mobilização de pessoas em grande escala.

O que mudou nos últimos quatro anos, desde a passagem a fundação?

Mudou muita coisa. O site do INATEL não existia, era um simulacro de uma coisa a que se chamava site. Hoje o site tem tudo o que uma grande instituição moderna deve ter, de informação permanente, com conteúdos que vão desde a inscrição até à marcação de serviços. Por outro lado, estamos a instalar neste momento, tal como uma grande cadeia de hotéis, a TV corporativa. Tivemos a consciência de que era impensável responder a estes desafios sem rejuvenescer a INATEL, sem pessoas novas. Isso foi feito nos sectores fundamentais da nossa atividade. Também reestruturámos organicamente as nossas agências que se chamavam delegações e o conceito procura dar corpo a uma resposta mais eficaz do ponto de vista comercial. Por isso é que os bancos se chamam agências e não delegações. Temos 11 competições desportivas ao nível nacional, só o futebol mobiliza 308 equipas todos os fins-de-semana. Na cultura, fizemos no ano passado um documentário muito interessante que tem passado por todos os centros de cultura e desporto e a UNESCO também já o apadrinhou, que é a "Sinfonia Imaterial". O Teatro da Trindade é o nosso emblema principal. Há 3 anos quem passasse por ele, via uma fachada degradada, um teatro velho. Nós recuperámos completamente o teatro e vamos agora fazer a requalificação interior.

Quando fala em rejuvenescer, pretende ir contra a associação tradicional entre o INATEL e o turismo da terceira idade? Acredita que essa perceção tem mudado?

Está a mudar lentamente, nem nós queremos que mude radicalmente. Esta é uma instituição muito prestigiada, portanto a memória coletiva tem que ser doseada com respostas de apelo à juventude e, para este efeito, temos dirigido programas para a juventude. Tal como existe o turismo sénior, que é muito importante para esta casa, criámos também o turismo júnior educativo, que procura conciliar aquilo que é o processo educativo normal do sistema escolar com respostas práticas durante o período em que os jovens estão connosco. Por outro lado, temos várias unidades hoteleiras onde os jovens se sentem bem, quer seja na serra, como em Piódão, ou em grandes unidades, como em Albufeira. Essa informação para estratos etários diversificados tem sido uma realidade. O turismo em Portugal nasceu com a antiga FNAT [associação do Estado Novo percursora do INATEL]. Isto tem que se ser dito. Mobilizamos, por ano, do ponto de vista interno - e nesta fase isso é muitíssimo importante - cerca de 150 mil pessoas. Estamos a falar de um universo, multiplicado por quatro que são famílias, que abrange cerca de 600 mil pessoas. O contributo que a INATEL está a dar para a economia nacional, para o desenvolvimento das regiões, sobretudo neste período de crise, é muito significativo. Há um estudo que aprofundei com a UA que conclui que o Estado, com as atividades que desenvolvemos, por cada euro que hipoteticamente empregasse recebia três em troca. Estamos a falar de um universo enorme de pessoas que se envolvem nestas atividades e que exigem deslocações em autocarros, em aviões, toda a gastronomia, os hotéis que temos de contratar... Temos programas em que só podemos ocupar 20% das pessoas que nos procuram nas nossas unidades hoteleiras, 80% são em hotéis que concorrem. São os programas governamentais. Os privados beneficiam como poucos da existência da INATEL. Tenho tido aqui permanentemente presidentes de câmara a fazer apelos sistemáticos, e bem, para a abertura destes programas. Desde que a INATEL existe, nós já utilizámos 600 hotéis do país, em média de quatro estrelas. Respondem na época baixa às necessidades dos hoteleiros que não têm a procura que deviam ter. Se há aposta no turismo e aplicação de verbas reprodutíveis a nível nacional, é neste sector.

Há uma evolução no número de associados?

Não. Há uma procura em manter o número. A procura de serviços diminuiu com a crise e tivemos de ter imaginação para superar isso. O número de associados rondará os cerca de 190, 200 mil. A INATEL compensa largamente os 20 euros por ano. Mesmo que uma pessoa não vá a nenhuma unidade hoteleira, só o facto de ser sócio da INATEL, ter regalias ao nível dos operadores de telecomunicações, da gasolina, dos laboratórios, é altamente compensador.

A Inatel tem essa matriz de apoio aos trabalhadores e neste período acentua-se mais essa necessidade, por parte dos trabalhadores, de terem uma almofada ou um porto de abrigo. Que papel é que o Inatel tem tido, para além dessa parte financeira?

Para ter uma ideia, nós fazemos por ano 800 programas governamentais. É preciso uma grande experiencia acumulada para esse efeito. Essa foi a razão que levou a que a UE, há dois anos, nos tivesses solicitado que fôssemos peritos para acompanharmos um programa que eles pretendem concretizar a partir de Janeiro de 2013, que se chama Calypso. É a reprodução à escala dos 27 em reciprocidade, daquilo que nós fazemos nos programas governamentais. A lógica da Europa é uma lógica do envelhecimento. O turismo vai sustentar-se também muito nessas pessoas de mais idade. Colher a experiência da INATEL, beneficiar dela, aproveitar os programas governamentais é um bem supremo para o país, que nenhuma instituição política pode descurar e cuja aposta é absolutamente fundamental. Vamos abrir, no dia 1 de Junho, uma unidade hoteleira totalmente requalificada em Vila Nova de Cerveira. Estamos a falar de uma região que, envolvendo a Galiza, é uma grande metrópole, são cerca de 600 mil pessoas que estão naquela região. Quem é que nesta altura arriscava, como nós vamos arriscar? Ser-me-ia muito mais fácil nada fazer, olhar para o meu país e deixar a situação correr, mas eu acho que isso era negar o que esta casa é. Portanto, este esforço é um esforço de risco calculado, consciente, por que é um risco de futuro. Eu não tenho dúvidas nenhumas que essa unidade hoteleira vai ser uma unidade de grande sucesso.

Nesse esforço, o papel da tal metrópole que falou de 600 mil pessoas pode ser o piscar de olho a uma expansão?

Pode e vai ser. Vamos entrar numa nova fase. Olhando para o futuro e nunca perdendo de vista esse futuro, temos que ter a consciência de que este mundo é cada vez mais um mundo mais aberto. Portanto, não nos podemos enquistar aos condicionamentos das nossas próprias fronteiras. A relação com o Brasil é uma relação que no futuro temos que aprofundar muitíssimo. Porque o Brasil é para o mundo lusófono uma mais valia tremenda. A relação com a Galiza está na mesma lógica, assim como com a diáspora portuguesa, que eu quero dinamizar muito a partir de agora.

E isso passa, em concreto, pela expansão dos associados para esses países?

Passa, tem de passar também. Sempre tive este objetivo de alargar a base de apoio aos nossos compatriotas que estão no estrangeiro. E cujas relações de proximidade justificam. Esta casa propicia a concretização das chamadas rotas da saudade. De gente emigrada que pode perfeitamente, ao deslocar-se a Portugal, não se cingir ao lugar natal, mas percorrer o país, nas nossas unidades com ofertas aliciantes e enquadramentos históricos.

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