Foi em julho do ano passado que, depois de praticamente três anos consecutivos com o stock estagnado na casa dos 12 mil milhões de euros, os Certificados de Aforro deram o salto para os seus tempos de glória, impulsionados pela subida da Euribor a três meses, que fez com que a remuneração daquele produto atingisse o seu máximo de 3,5%, aos quais acresciam prémios de permanência de até 1%. De lá para cá, estes títulos de dívida pública têm vindo a ganhar terreno junto das famílias, com o total de poupança aplicada a ascender a 33,2 mil milhões de euros em junho - um aumento de 157% comparativamente com o mesmo mês de 2022.
Contudo, mostram as últimas estatísticas do Banco de Portugal (BdP), apesar de os Certificados de Aforro terem mantido um ritmo acelerado e captado, desde o início do ano, quase 13,6 mil milhões de euros das poupanças dos portugueses (mais 69% em relação ao final de dezembro), no passado mês as emissões conheceram um abrandamento: se em maio o aumento foi de 2,2 mil milhões de euros, em junho o reforço neste produto cifrou-se em apenas 670,3 milhões de euros, refletindo uma quebra de 70%.
A desaceleração observada no sexto mês do ano estará relacionada com o facto de ter sido precisamente nesta altura que o governo suspendeu a Série E e lançou uma nova, com condições menos vantajosas, baseando-se na necessidade de "realinhar a remuneração dos Certificados de Aforro com a remuneração das restantes fontes de financiamento da República Portuguesa", explicou na altura o Tesouro. Ainda que esteja igualmente indexada à Euribor a três meses, a Série F, criada a 2 de junho, tem um teto máximo de 2,5% e uma maturidade mais longa, fazendo-se acompanhar de prémios de permanência que podem ir até aos 1,75% (acima de 1%, apenas a partir do 12.º ano).
Do lado oposto, os Certificados do Tesouro, outro instrumento de dívida pública, caíram no mês seis pela 20.ª vez consecutiva, numa diferença compreendida em 222 milhões de euros face a maio. Desde outubro de 2021 que estes títulos têm vindo a perder capitalização, tendo os 17,8 mil milhões de euros daquele período encolhido para 12,3 mil milhões em junho, o que representa uma queda de 31%, ou seja, menos 5,5 mil milhões de euros .
Somando os stocks respeitantes a ambos os certificados, conclui-se que, atualmente, as famílias têm aplicados cerca de 45,5 mil milhões de euros em produtos de poupança do Estado. Isto significa que 16% da dívida pública - que em maio se fixou nos 280 mil milhões de euros - é detida por particulares.
A dívida conjunta das famílias, das empresas e do Estado aumentou 1,6 mil milhões de euros em maio, fazendo ascender a 804,4 mil milhões de euros o passivo total da economia, um valor recorde, de acordo com os dados divulgados ontem pelo Banco de Portugal.
O novo máximo foi renovado principalmente do lado do setor público, cujo endividamento registou uma subida de 1,1 mil milhões de euros, para 363,9 mil milhões. O incremento verificou-se sobretudo junto dos particulares (1,7 mil milhões de euros), devido ao investimento em Certificados de Aforro, e das administrações públicas (mil milhões de euros). Em sentido inverso, a dívida das administrações e empresas públicas diminuiu junto do exterior, em 1,4 mil milhões de euros, e do setor financeiro, em 0,4 mil milhões de euros.
Segundo os cálculos feitos pelo DN/Dinheiro Vivo, no mês em análise, o endividamento do setor público não financeiro aumentou 2% em termos homólogos e 0,3% relativamente a abril.
Já no que toca ao setor privado, que engloba empresas e famílias, a dívida aumentou 500 milhões de euros, para 440,6 mil milhões - ou seja, este continua a ser o segmento a assumir um maior peso no endividamento da economia.
Tendo ainda o quinto mês de 2023 como pano de fundo, enquanto o montante devido pelas empresas privadas somou 500 milhões de euros, para 288,8 mil milhões - "traduzindo essencialmente um acréscimo perante o exterior (300 milhões) e o setor financeiro (200 milhões de euros)" -, a dívida dos particulares não se alterou de forma significativa face a abril, situando-se nos 151,7 mil milhões de euros.
Considerando os valores fornecidos pelo BdP, o endividamento das empresas privadas recuou 0,1% em relação ao mesmo mês do ano passado e aumentou cerca de 2% face a abril, enquanto o endividamento dos particulares cresceu 1% relativamente ao período homólogo.