Produção de vinho cai cerca de 40% no Douro

O número foi adiantado ao Dinheiro Vivo por Frederico Falcão, presidente da ViniPortugal. Apesar de ainda ser cedo para fechar os números, produtores já falam de quebras acentuadas.
O país está atualmente em época de vindimas. O ano foi marcado por um verão quente e por doenças como o míldio
O país está atualmente em época de vindimas. O ano foi marcado por um verão quente e por doenças como o míldioFOTO: Artur Machado / Global Imagens
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O Douro deverá “ter uma quebra de produção superior ao esperado, provocada por algum escaldão, e por um impacto significativo do míldio (uma doença que provoca a atrofia do crescimento das plantas)”, adianta Frederico Falcão ao Dinheiro Vivo. “O resto das regiões ainda não terminou a vindima, mas os aumentos e as quebras deverão estar alinhados com a expectativa”. No Douro, no entanto, “esperava-se uma quebra a rondar os 15% e o que os produtores com quem tenho falado me dizem é que estamos a ver uma quebra na produção a rondar os 40%”, adianta.

No mesmo sentido, ainda esta semana a Symington revelou que espera uma redução no tamanho dos bagos das suas uvas 30% inferiores à média, devido sobretudo à inconstância do clima.

Numa altura em que o Douro se tem debatido com elevados volumes de inventário, o que tem tido um impacto negativo no preço das uvas, a pergunta impõe-se: esta quebra de produção ajuda ou agrava a situação?

“Para o produtor de uva é uma má situação, porque são menos rendimentos”, adianta Frederico Falcão. “Mas, por outro lado, pode ajudar à estabilidade de região, porque pode ajudar a equilibrar os stocks”, o que poderá tero um efeito positivo no preço das uvas, considera o presidente da ViniPortugal sem querer adiantar mais, numa altura em que a campanha ainda decorre.

“Em termos gerais de vindima no país,  está muito heterogénea. Tenho sentido produtores muito contentes com a qualidade e outros muito apreensivos. Foi um verão muito quente e muito seco e dependerá muito da região e do terroir. Há castas que estarão fantásticas e outras que não se deram tão bem. Mas como dizem os nossos amigos franceses, vai ser um ano excecional, certamente”, atira, divertido o responsável.

Frederico Falcão aproveitou ainda para comentar os últimos números libertados pelo Instituto d da Vinha e do Vinho, que divulgou no início desta semana dados recolhidos pela Nielsen, que dão conta de que, se por um lado as exportações de vinhos nacionais cresceram em volume, tendo caído em valor, no mercado nacional verificou-se a tendência inversa: houve menos litros vendidos, mas um aumento da faturação, graças sobretudo ao impacto do turismo e da restauração. Fazendo a ressalva de que a Nielsen acompanha apenas cerca de metade do mercado, Falcão é perentório quando olha para estes números:

“A perceção que eu tenho é precisamente essa: nos supermercados há um crescimento do preço médio (subiu de 4,80 para 5 euros), e ainda que na restauração seja muito difícil ter dados concretos porque as associações do setor não os divulgam (a Nielsen fala de um preço médio a rondar os 8,33 euros o litro) , a perceção que tenho, falando com os produtores, é que a restauração está a ser uma perda em volume. Todos eles se queixam disso. Porquê?Porque os restaurantes se viraram para os turistas, sobretudo em Lisboa, no Porto e no Algarve, e, portanto, estão a abusar da margem nos vinhos. Aquilo que há uns anos achávamos que era uma loucura, que eram margens de 100%, hoje são margens de 300% ou 400%. E já vi restaurantes a cobrar 1000% de margem. Portanto, não há como não terem impacto nos produtores, sobretudo em Portugal onde grande parte deles faz pequenas produções que têm como principal destino, precisamente, os restaurantes”, continua.

Quanto às exportações de vinho para os EUA, o mercado que tem sido a grande aposta da ViniPortugal na última década, Frederico Falcão admite que vai haver uma mudança de estratégia. Isto porque as tarifas de 15%, que desde dia 1 de agosto estão a ser aplicadas às referências europeias, estão já a impactar as vendas, apesar de ainda ser cedo para tirar grandes ilações. O que o responsável sabe é que importadores e produtores estão a tentar trabalhar em conjunto para acomodar parte do custo destas taxas, por forma a reduzir o aumento do preço no consumidor. E, ainda que na última década os EUA tenham sido o mercado a que a ViniPortugal alocou maior orçamento na divulgação dos vinhos nacionais - acima de um milhão de euros por ano -, os próximos meses deverão registar uma inversão nessa estratégia.

A proposta ainda tem de ser aprovada, mas Falcão admite que o objetivo “é reduzir o investimento no próximo ano – ainda que tenhamos de esperar para perceber o impacto real destas tarifas -, deixando de ser o país número 1. Esse lugar passará a pertencer ao Brasil. Os EUA serão o segundo. E vamos reforçar também no Reino Unido e na Polónia, onde temos tido um crescimento muito interessante, sobretudo nos últimos anos”, adianta Falcão. Quanto ao impacto global das tarifas impostas por Trump, Falcão lembra que é “sempre um bocadinho otimista. Já tivemos números piores em cima da mesa”, diz, divertido, recordando a ameaça de 200% à importação de bebidas alcoólicas chegadas do Velho Continente. 

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