Este urgia-me a participar numa manifestação, na semana seguinte, para protestar contra o tráfico sexual de crianças, sob o mote "Salvem as Crianças" ("SaveTheChildren"). Fixei a hashtag alguns segundos até reconhecer a fonte e o tom da mensagem. Este não era um protesto da centenária organização britânica "Save The Children". Este era um evento relacionado com o grupo que segue a teoria da conspiração de extrema-direita mais rebuscada de sempre: QAnon.
As pessoas que participaram no evento e foram para as ruas de LA empunhavam cartazes acusando a elite de Hollywood, desde Chrissy Teigen a Steven Spielberg, de estar envolvida numa gigantesca cabala de tráfico sexual de crianças. Essa é a premissa QAnon, um movimento que começou nos confins da Internet e chegou ao Twitter do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que repetidamente deu credibilidade a publicações ligadas à conspiração.
Num vídeo de resumo da manifestação em Hollywood, os clips do evento são alternados com imagens de crianças em sofrimento ao som da voz melancólica de Lauren Daigle, cantando "Rescue". Pelo meio vê-se um homem de megafone na mão a galvanizar a multidão. Embora os promotores do #SaveTheChildren (agora modificado para #SaveOurChildren por causa da organização britânica) digam que não têm ligação ao QAnon, o homem do megafone é o mesmo que se descortina, um mês mais tarde, no meio da "marcha pela liberdade" em Beverly Hills, onde "patriotas" apoiantes de Trump cantam "U.S.A!" e abanam bandeiras com o nome do presidente, prometendo que "onde vai um, vão todos".
Esse é o código QAnon, é uma espécie de assinatura presente nos vídeos, redes sociais e manifestações ao vivo para onde o movimento se alastrou. Em todos os vídeos relacionados com isto que se encontram no YouTube e outras plataformas, nota-se que as produções são boas, mas não tão boas que percam a aura de movimento espontâneo das massas.
É disso que o QAnon se alimenta. A ideia de ascensão do cidadão comum, o levantamento dos oprimidos, a vingança dos patriotas. Tudo o que rodeia esta conspiração tem um aroma forte de fim do mundo. O apocalipse está tão perto que é quase possível avistá-lo, cavalgado por não outro que o messias Donald John Trump, e tudo o que aconteceu nos últimos quatro anos encaixar-se-á nesta grande máquina de reversão do statu quo.
O movimento começou em Outubro de 2017, quando um utilizador auto-intitulado "Q" começou a fazer publicações no fórum 4chan alegando ser um membro de alto nível do governo norte-americano com acesso a informação altamente confidencial. Este indivíduo disse que estava a arriscar-se para tornar pública a guerra secreta entre Donald Trump e o "estado profundo", controlado pela cabala de tráfico sexual de crianças que além das elites de Hollywood - como Oprah Winfrey e Tom Hanks - é comandada por Hillary Clinton, Barack Obama e George Soros. O papa Francisco e o Dalai Lama também estão envolvidos, segundo a teoria, e o abuso de crianças - que estarão a ser raptadas em massa - inclui rituais satânicos.
Nos últimos três anos, a conspiração transformou-se numa imensa tenda onde cabem as previsões e acusações mais incríveis que é possível imaginar. Tal como a "denúncia" de que Joe Biden matou os militares do grupo de elite Seal Team 6. Ou que os tiroteios em massa são na verdade eventos falsos organizados pela cabala. E que a investigação do procurador-especial Robert Mueller foi uma estratégia do próprio Trump para impedir um golpe de estado.
Enfim, chegaram a prever que Mark Zuckerberg ia fugir dos Estados Unidos. Também continuam à espera de um grande e decisivo evento, uma espécie de batalha final ao estilo "Guerra dos Tronos" intitulada "The Storm" (A Tempestade), durante o qual milhares de membros da cabala serão presos e o exército vai tomar o poder nos Estados Unidos. Já mencionei que também dizem que John F. Kennedy Jr está vivo e vai substituir Mike Pence na vice-presidência?
No fim-de-semana passado, muitos dos ávidos seguidores do movimento juntaram-se numa "conferência" no Arizona, Q Con Live. Isto podia ser o roteiro de um filme apocalíptico realizado por Michael Bay, mas até os Transformers são mais realistas.
A tragédia é que, por causa da associação com uma causa nobre - quem é que não quer salvar as crianças? - o movimento tem conseguido chegar a muita gente insuspeita e bem intencionada, recrutando pessoas que nunca se tinham metido em conspirações. Ao mesmo tempo, está a desviar recursos da causa legítima para acabar com o tráfico de crianças, o que por si só é alarmante.
A complexidade das teorias, a aura de secretismo e as explicações do "Q" para o facto de nenhuma previsão se ter concretizado tornam muito difícil puxar os crentes para fora da bolha. Segundo "Q", as previsões que não se realizaram eram desinformação, para enganar o inimigo. É uma circularidade: com esta estratégia, nunca há nada que se possa provar ser falso e a teoria consegue expandir-se ad aeternum. Tudo o que acontece é desconstruído e remontado dentro da conspiração.
Uma tal associação de crenças já é perigosa online, mas os seguidores QAnon verteram para o mundo real e estão a aparecer em comícios pró-Trump, em marchas de protesto e em breve chegarão ao congresso. A candidata Marjorie Taylor Greene, que corre pelos republicanos no 14º distrito da Geórgia e deverá ganhar, é uma fervorosa apoiante QAnon. Há outros candidatos - mais de uma dúzia, segundo a Slate - que são aliados QAnon e estão a tentar chegar à Câmara dos Representantes do congresso americano.
Isto nunca teve piada, mas agora está realmente perigoso. O facto de o Twitter só em Julho ter banido contas QAnon da sua plataforma e o Facebook só em Agosto ter começado a remover centenas de grupos e páginas ligados ao movimento explicam como se ramificou de forma tão eficaz. As redes sociais ignoraram os avisos durante anos, mesmo depois de o FBI ter classificado o movimento como ameaça terrorista.. O YouTube só agora está a tomar medidas semelhantes. Para muita gente, incluindo para o congresso norte-americano, é tarde demais.