É ali por volta dos 13/14 anos e dura até aos 20 e poucos. Os pais perdem o encanto, a esperteza e deixam de servir. Até lá é só romance. Uma paixão. Qualquer mãe feia é a mãe mais bonita do mundo, a melhor; todos os pais são modelos de valentia, de força, heróis todos os dias. Eles choram por nós até aos 13 anos. Um dos meus filhos deitava-se à porta da casa-de-banho à espera que eu acabasse o banho, todos eles lutavam para se sentarem ao meu lado no sofá. Não viviam sem mim. Tinham saudades quando iam dormir fora e mais ainda quando ia eu. Sentiam-se abandonados, desprezados e invadidos por uma tristeza profunda quando não sabiam de mim.
Foram anos disto. Vão brincar! Nada, só queriam ficar agarrados às pernas da mãe ou do pai, como se fosse a última vez que nos fossem ver. Acreditavam em tudo o que lhes dizíamos, aceitavam todos os conselhos, imitavam-nos. Até que um dia, assim de repente, um a um, começaram a fugir. Acabaram comigo por razão nenhuma.
Estamos nessa fase. A fase em que só falam para pedir coisas: sair, dinheiro, comida, boleias. A nossa relação com os filhos passa a ser empresarial - sendo nós os trabalhadores explorados, espremidos, da relação. O contrato é simples: eles existem e nós damos coisas. Há pais que se sentem traídos com esta mudança radical dos equilíbrios da relação fraternal. Chegam a ofender-se, amargurados por tamanha ingratidão. Foram noites sem dormir, tardes no parque, horas em festas de crianças, milhares de euros em gelados, fast food, brinquedos, anos de dedicação até que um dia acordam espezinhados e esquecidos. O que é que eu fiz? Nada. Eles é que fizeram anos.
Depois da infância platónica, passamos a ser dispensáveis. Evitáveis, até. Os anos passam e paulatinamente passamos a estúpidos. Nada do que dizemos é certo, todos os conselhos são chatos, qualquer ordem é absurda e todos os exemplos servem exatamente para fazer o oposto. É a fase em que os pais são substituídos pelos amigos e pelos pais dos amigos. Eles acabam connosco para começarem com outros. Um pai qualquer tem mais credibilidade do que o próprio. Se queremos chegar aos nossos filhos tem de ser por procuração, por via de outros pais. "Olha, podes convencer o meu filho a estudar mais?"; "O miúdo quer tirar Filosofia e filiar-se no BE, podes falar com ele?"; "Consegues saber se ele ainda tem a mesma namorada?". Não há outra maneira. Educamos recorrendo a uma rede de espionagem.
Até tarde, os nossos filhos vivem em manada. As manadas de amigos dos quais bebem todos os conselhos - e não só - e copiam todos os exemplos. É a dinâmica de grupo a funcionar em nosso desfavor. Começa assim "Eles vão todos, porque é que eu não posso ir?" Ao que nós respondemos: "Mas eu não sou mãe deles." E ouvimos as criaturas a pensar: "Parva...!" A partir daí é o descalabro. Os nossos filhos deixam pura e simplesmente de ouvir tudo aquilo que ainda temos para lhes ensinar, explicar, mostrar. Toda a nossa sabedoria e experiência de vida para nada.
"Eu também já tive a vossa idade..." Eles riem-se e não conseguem imaginar os pais a pularem ao som dos AC/DC. Até coram só de pensar no ridículo. É também quando aprendem a levantar os olhos ao alto, a encolher os ombros, a bufar e a responder em monossílabos. Só perguntam se vamos sair para poderem ficar sozinhos em casa e só choram quando não os deixamos sair. Somos nós, pais, o único obstáculo entre eles e a felicidade terrena. Uma vida sem horas, sem regras, sem obrigações, sem secas, sem atrofiantes viagens de carro em família.
Até que o nosso telemóvel toca e é um dos jovens. O coração bate. Será que ele quer voltar? ""Tou mãe? Está tudo bem?" Que amor! Mas não, só ligou porque precisa de dinheiro.
E nós, como pais que somos, não desistimos de acreditar e em todos os telefonemas temos esperança de que desta é que ele precisa de um conselho, de conversar, quer voltar e não apenas uma boleia. São anos nisto. Até que ele crescem. E nós também.
Jurista