Sinto-me numa bolha. Provavelmente a culpa é do sono, normal de quem amamenta de três em três horas, mais coisa menos coisa, todas as noites. Sinto-me num mundo paralelo em que tudo acontece ao ritmo e de acordo com a disposição da minha bebé.
A capacidade de raciocínio está muito abaixo dos 50% (pronto, poderão fazer justas piadas em relação à qualidade desta crónica) e a memória nem sequer atinge os 15%. Se a recuperação acontecer ao ritmo dos filhos anteriores demorarei cerca de 9 meses a sentir-me (mais ou menos) normal. A minha licença durou 42 dias, o período obrigatório atribuído à mãe. Eu acho que devia durar nove vezes mais.
Tenho o privilégio de trabalhar em casa, poder gerir o meu horário, e manter-me presente. Muitas vezes aproveito quando os meus filhos dormem para trabalhar. Na verdade o tempo verbal deveria ser passado - "aproveitava" - porque atualmente quando a minha bebé de dois meses e meio adormece, e depois de os meus filhos crescidos estarem deitados, estou pronta para dormir também. Trabalhar em casa permite-me igualmente amamentar em exclusivo.
Dizem que a amamentação em exclusivo deveria, de forma ideal, durar seis meses. Se uma mãe gozar o período máximo de licença paga a 100% são 120 dias. Com ou sem mama, a minha bolha dura mais do dobro.
Nesta bolha em que a paixão, as hormonas e o cansaço nos colocam, existe também o risco elevado de uma enorme solidão. Se a mãe gozar os 120 dias, apenas os primeiros 25 dias são partilhados com pai. São muitos dias numa bolha tendencialmente solitária.
É verdade que Portugal tem uma lei que - pelo menos em teoria porque a prática das empresas já é outro assunto mais complicado - protege a parentalidade em comparação com a maioria dos países do mundo (os Estados Unidos, por exemplo). Também é verdade que os países do Norte da Europa estão muito passos à nossa frente.
Eu gostava, e desculpem a minha bolha, que juntassem um grupos de especialistas (e não as entidades patronais) e me dissessem quanto tempo deveria durar a licença de parentalidade. Eu gostava, mesmo a sério, que dissessem por quanto tempo deveríamos poder ficar sossegadas, sozinhas ou acompanhadas, nesta bolha.