Dificilmente o mercado livreiro vai recuperar este ano as perdas de milhões de euros sofridas com o fecho de livrarias durante o confinamento. Os portugueses leram menos, ou pelo menos, compraram menos livros físicos. Resultado? Perdas de 20 milhões de euros num sector que no início do ano dava sinais de algum crescimento.
Até junho as perdas rondavam os 30%, mas nos meses seguintes continuam a cair na ordem dos dois dígitos, ou seja, todos os meses se vende menos 2 milhões de euros. Nem o disparo na venda de e-books tem vindo a compensar estas perdas de um mercado que chegou a valer 140 milhões de euros, lamenta Inês Condeço, diretora de marketing da Fnac. Editoras já estão a fechar portas. "É fundamental que as pequenas livrarias possam disponibilizar o seu catálogo online e que se invista também nos e-books".
A quebra de vendas também tem impactado a Fnac que tinha na venda dos livros 40% das suas receitas. Por isso, a cadeia avançou com a ação Livros de Uso Obrigatório. Chamou nomes como o humorista Ricardo Araújo Pereira, as cantoras Ana Bacalhau e Rita Redshoes e os escritores João Tordo e José Luis Peixoto para sensibilizar os portugueses para a necessidade de ler livros. Hoje é o Dia Internacional da Literacia.
Até junho a venda de livros em Portugal caiu 28,3% segundo os dados da GfK Portugal. A que aponta este fenómeno numa altura em que, dados os meses de confinamento, se esperava um possível aumento das vendas?
Efetivamente as vendas decresceram muito nos meses de confinamento, chegando a atingir quebras de 65%, e, apesar das vendas online e dos ebooks e e-readers terem disparado nas vendas, não compensou de todo a perda que se assistiu nas lojas físicas. A verdade é que Portugal já era um dos países da Europa que menos lia. Com o período de confinamento, a perspetiva era de que houvesse um aumento dos hábitos de leitura, o que não aconteceu. A compra de livros é muitas vezes uma compra de impulso ou desejo que acontece no "passeio às lojas " que esteve suspenso durante vários meses. A compra online é mais racional e foi canalizada para outro tipo de bens que se tornaram urgentes, ficando o consumo de livros destinado apenas a leitores mais regulares. O livro é um bem destinado ao tempo livre que foi ocupado por serviços de streaming, por exemplo, que cresceram muito durante a pandemia.
O mercado valia cerca de 140 milhões. Dada as quebras verificadas, o que calcula que poderá agora representar? Há forma de recuperar as perdas sofridas?
Olhando para o panorama atual, é provável que este ano não seja possível recuperar a redução de consumo nos primeiros meses do ano, numa perda que já representa 20 milhões de euros. Embora haja uma recuperação nos últimos dois meses, o mercado continua a cair cerca de 20%. Ainda assim, o período que se aproxima é o período mais forte de vendas de livros do ano e, por isso, o mercado está com esperança que os portugueses recuperem os hábitos de leitura e de consumo de livros. Para isso, depende de todos nós estimular este eixo da cultura em Portugal e sensibilizar todos os portugueses para lerem mais.
Como antecipam o fecho do ano para o mercado a nível global?
Ainda é difícil fazer perspectivas, no entanto é expectável que o consumo recupere após estas fases de contingência que vivemos em que as pessoas consomem menos no geral. Penso que poderemos também assistir a uma transformação digital na leitura com o aumento de e-readers e venda de e-books, tal como já acontece noutros países da Europa onde o confinamento não trouxe uma crise tão acentuada ao mercado livreiro. Prevê-se que em sete anos, os e-books representem 20% do mercado a nível mundial.
Essa tendência de quebra manteve-se em julho e agosto? Como têm evoluído as vendas?
Tem-se assistido a uma diminuição da quebra mas o mercado continua a descer na ordem dos dois dígitos. Portanto, ainda não há uma recuperação efetiva da perda. Essa dependerá muito da retoma dos comportamentos de confiança dos consumidores para um regresso às lojas, bem como a uma sensibilização generalizada para a necessidade de criação de hábitos de leitura. Uma sociedade evoluída e preparada depende disso para um futuro próspero.
Algumas editoras, caso da Cotovia, anunciaram o fecho. Antecipa decisões semelhantes de outros editores?
O mercado livreiro está efetivamente a passar uma fase muito difícil. Mesmo após a abertura do comércio, continua a existir uma notória redução de pessoas na rua e em centros comerciais, na ordem dos 50%. Por isso, é fundamental que as pequenas livrarias possam disponibilizar o seu catálogo online e que se invista também nos e-books, área que cresceu muito neste período, quer com a venda de e-readers, como o KOBO, com crescimentos de cerca de 150%, quer na venda dos livros em formato e-book. No entanto, é preciso termos consciência que o nosso problema é estrutural e já vinha do passado. Deve ser uma missão nacional colocar mais portugueses a ler e sobretudo a lerem mais.
E qual foi o impacto da covid-19 nas vendas da Fnac nesta categoria? Qual o peso desta categoria nas vendas e como antecipam a sua evolução em 2020?
A Fnac desceu em linha com o mercado, com impactos muito significativos nas vendas, pois os livros e restantes produtos editoriais representam cerca de 40% das vendas da Fnac. Tem sido difícil fazer prospeções pois tem continuado a haver alterações nas regras de mercado, como por exemplo as horas de fecho dos centros comerciais, que não facilitam a retoma dos comportamentos e portanto a antecipação dos resultados. Estamos a fazer tudo para recuperar e ajudar o mercado livreiro, razão pela qual lançamos o movimento dos Livros de Uso Obrigatório que visa sensibilizar todos os portugueses para a necessidade de ler livros.
O que pretendem com esta iniciativa?
A Fnac, deparada com esta crise no mercado dos livros e enquanto maior promotor cultural em Portugal, decidiu avançar com o movimento “Livros de Uso Obrigatório”, fazendo um paralelismo com a obrigatoriedade atual de usar máscara. Neste movimento, lançado em simultâneo com o arranque da Feira do Livro do Porto e de Lisboa, falamos de “máscaras literárias”, realçando que a leitura é tão vital como as máscaras que agora todos nos vemos obrigados a usar diariamente e evidenciando que os livros nos protegem da falta de conhecimento, abrindo horizontes, estimulando a criatividade e a imaginação. Ainda no seguimento desta iniciativa, ao longo do mês de setembro, e de forma a tornar este movimento transversal, a Fnac desafia todos os booklovers a tirarem uma fotografia com a sua “máscara literária” e a partilharem a imagem nas redes sociais com as hashtags #bookmask e #usoobrigatorio. A campanha vai também estar presente na televisão e na rádio, não numa vertente comercial, mas com sugestões de leitura para os portugueses. Vamos ainda sugerir os melhores livros “de uso obrigatório” no nosso Blog Estante e nos vídeos Expert Fnac que partilhamos nos nossos canais digitais. Todas estas iniciativas têm um objetivo comum: levar os portugueses a lerem mais, a criarem/retomarem hábitos de leitura e alertá-los para a atual crise que o setor dos livros atravessa.
Que outras medidas estão a levar a cabo para apoiar o mercado editor/livreiro nesta fase de quebra de vendas?
Além da campanha institucional para a promoção da leitura, na qual estamos também a trabalhar com o Plano Nacional de Leitura, e de estarmos presentes na feira do livro na representação de editoras mais pequenas, temos também levado a cabo várias ações de consignação que permitem a pequenos editores estar presentes e à venda na Fnac. Temos também realizado a promoção de livros no canal digital, quer com vídeos dos autores, quer com conteúdos digitais da revista estante, da Fnac, que permitem aos leitores conhecer e estarem mais próximos dos livros.