Quem "lavou" o cérebro das mulheres? Até elas pensam que eles são os criativos

Os resultados demonstram que, tanto os homens como as mulheres, associam a criatividade a traços que, por estereótipo, são “masculinos”.
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A PESQUISA: Devon Proudfoot, estudante de doutoramento na Duke University, e os colegas Aaron Kay e Christy Koval desenvolveram vários estudos de discriminação de género e criatividade. Num destes, os participantes avaliaram a importância de certas características de personalidade para a criatividade.

Os resultados demonstram que, tanto os homens como as mulheres, associam a criatividade a traços que, por estereótipo, são “masculinos” — independência, ousadia — mais do que a traços “femininos”, como a cooperação e a sensibilidade. Noutro estudo, os investigadores pediram aos participantes que avaliassem o design de uma casa, mas variavam o género do arquiteto. Mulheres e homens, igualmente, deram nota mais alta à criatividade quando lhes diziam que o arquiteto era um homem.

A HIPÓTESE: A discriminação de género é tão insidiosa que afeta também a maneira como avaliamos a inventividade? E quem “lavou” os cérebros das mulheres para elas acreditarem que as ideias dos homens são melhores? Devon Proudfoot, defenda a sua pesquisa.

A nossa pesquisa demonstra claramente que as pessoas associam a criatividade a características normalmente atribuídas aos homens — audácia, independência, tendência a correr riscos. Por causa disso, as pessoas acreditam que os homens são geralmente mais criativos que as mulheres. Isto não afeta só avaliações de trabalho, como foi o caso dos arquitetos. Descobrimos também que os chefes de 134 executivos avaliaram o pensamento das mulheres como significativamente menos criativo que o dos homens Isto tem repercussões: noutro estudo que realizámos, os gestores homens que foram classificados como mais criativos que as mulheres eram percebidos como mais merecedores de recompensas.

Fantástico. Mais uma maneira de os homens obterem um reconhecimento que, se calhar, não merecem.

Na verdade, não é isso que a nossa pesquisa sugere. O padrão de resultados que encontramos é mais consistente com a tendência dos supervisores para subestimarem a criatividade das mulheres, não para sobrestimarem a dos homens. É o que contribui para a diferença de género nestas avaliações.

Qual é a importância de analisar a discriminação de género em relação à criatividade?

Este trabalho surgiu a partir de um programa mais vasto de análise das forças sociais e psicológicas que podem explicar por que razão as mulheres não chegam a posições superiores. Também há provas de que cada vez se valoriza mais a criatividade no trabalho. Num inquérito recente a 1500 CEO, a criatividade foi identificada como a capacidade mais importante para o futuro, pelo que as perceções que temos dela influenciam quem avança e quem não.

Mas essa não é, certamente, a única explicação para a escassez de mulheres no topo? Não são vários os fatores em jogo?

Já há muitas pesquisas que demonstram que os homens são considerados mais competentes e inteligentes, e melhores líderes que as mulheres. Sabemos que as perceções sobre a criatividade tendem a estar correlacionadas com as perceções de capacidade. Mas não estamos a demonstrar que, por os homens serem vistos como melhores, são, por defeito, vistos como mais inovadores. Ao controlar estatisticamente as perceções dos participantes acerca da competência e capacidade da pessoa avaliada, mostramos que não se trata apenas de um preconceito geral contra as mulheres no trabalho. É algo de muito específico acerca da criatividade.

E que é…?

Os nossos estudos sugerem que a razão para os homens serem vistos como mais criativos é a crença de que a criatividade exige autonomia, independência e pensamento divergente do status quo. E estes são traços “masculinos”.

Como é que começámos a associar esses traços com a criatividade?

A nossa pesquisa não se debruçou sobre as origens. Além disso, foi realizada apenas com participantes americanos. Estávamos mesmo à procura de uma interpretação cultural específica da criatividade. Mas a minha intuição diz-me que vivemos numa cultura muito individualista, que enfatiza a independência como forma de concretização. E associamos a inovação à autonomia.

Podemos combater essa discriminação pondo mais mulheres em lugares cimeiros?

As pesquisas mostram que tanto os homens como as mulheres estereotipam com base no género. Também confirmámos isso.

Quer dizer que as mulheres se discriminam umas às outras. Isso não é muito animador.

Sim, mas não foi uma surpresa. Na verdade, era o que esperávamos.

E se as mulheres, simplesmente, agissem mais como homens?

Num dos nossos estudos, pedimos aos participantes que lessem relatórios acerca de gestores femininos e masculinos. O que descobrimos foi que, quando um homem era descrito como agindo de maneira muito “masculina”, era percebido como mais criativo — e mais merecedor de uma promoção ou um bónus. Não encontrámos o mesmo efeito para as mulheres gestoras, mesmo que o seu comportamento fosse descrito de maneira idêntica.

Sempre a somar! E quanto aos empregadores? Julgo que os preconceitos não se limitem apenas a algumas organizações más?

Nem por sombras — a maioria das pessoas tende a ser influenciada por estereótipos de género num momento ou noutro. Esta pesquisa tem implicações para o sucesso organizacional. Se houver menos probabilidade de as organizações verem as ideias e outputs das mulheres como criativos, podem perder boas inovações.

Se todos sabemos que a discriminação de género é negativa para os indivíduos, organizações e economias, porque não podemos remediá-la?

É essa a grande questão. Há tantos mecanismos que sustentam a desigualdade de género na nossa sociedade. A nossa pesquisa analisa um deles. As pessoas não são perfeitas a julgar os outros. Muitas vezes são influenciadas por estereótipos e categorias sociais. Estão muito ocupadas, sobrecarregadas mentalmente e fazem juízos de valor apressados. Isto faz parte das nossas limitações cognitivas.

O número de mulheres empreendedoras está a crescer rapidamente. Acha que as mulheres trabalham por conta própria, em parte, para evitarem o impacto da discriminação de género?

Não sei, mas tenho outro projeto a decorrer que analisa dados longitudinais sobre homens e mulheres empreendedores e se eles têm a mesma probabilidade de receber financiamento de capital de risco. Estamos a pensar se as perceções de criatividade e tendência a correr riscos podem ajudar a explicar as diferenças

Que outros caminhos querem percorrer com a pesquisa?

Interessam-nos duas questões de follow-up. Primeiro, serão as mulheres associadas a traços masculinizados percebidas como mais criativas que as outras? Além disso, em que contextos é que a discriminação de género não favorece os homens? Num dos nossos estudos, por exemplo, descobrimos que os homens na área do design de moda não eram vistos como mais criativos que as mulheres. Queremos estudar porquê.

A vossa pesquisa sugere maneiras de mitigar a discriminação?

As nossas descobertas são a primeira prova de discriminação de género na criatividade. Queremos acumular mais antes de fazer sugestões. Mas espero que toda a gente que nos leia reflita se está a ser influenciada por preconceitos de género quando avalia o output criativo. Estar consciente já é um pequeno passo na direção certa.

As pesquisas também concluem que as pessoas têm mais probabilidade de ser influenciadas por estereótipos quando estão cansadas ou esgotadas, quando não dispõem dos recursos cognitivos para desenvolver uma impressão exata.

Quer dizer que devemos dormir bem, principalmente quando sabemos que vamos ter de avaliar o desempenho de alguém?

Precisamente.

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