Quitando dívidas

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Estou endividado até ao pescoço e não sei mais para onde me virar. Todos os dias, deito-me a dever para muita gente. Respostas a e-mails profissionais, e-mails pessoais, mensagens de WhatsApp, comentários no Stories, no Instagram. LinkedIn? Não entro há meses, só para evitar o confronto com a quantidade de mensagens a apresentar o portfólio (se o leitor é um deles, desculpe).

E o Facebook? Somos cobrados até por posts que não vimos “Hugo!!! Tenho um novo cachorro e você nem Like deu.” “Hugo, estive em Lisboa e você nem comentou.”

Falta-me saúde para isso. Mas voltando a mensagens, o Facebook é o antro da minha vergonha. Monólogos no Messenger e até votos de Feliz Ano Novo estão ali a embolorar como rabanada deixada ao relento desde o Natal. (Aliás, 2018 é outro que tal. Ainda agora chegou e já está a dever para todo o mundo. Paz, saúde, menos cinco quilos, um novo emprego, o amor da vida. Não queria estar no lugar dele. Juro, se na época em que nos comunicávamos por carta recebesse o mesmo número de envelopes, mudaria de casa.)

Como deixei chegar a esta situação?

As redes sociais têm um preço. Segundo o meu amigo Suppion, psicólogo em exercício, mas não meu terapeuta. Abro parênteses. (Infelizmente, porque amigo não pode ser terapeuta de amigo. E como terapia com não amigos é cara de mais, prefiro gastar esse dinheiro com ele numa mesa de bar. Cada um paga metade e o garçon ainda ganha 10%). Fecho parênteses.

Segundo ele, “não podemos tudo, somos castrados. Difícil é aceitar essa condição. Uma saída é fecharmos o nosso círculo. Definir prioridades, aceitar que não podemos responder a todos e valorizar as trocas no mundo real. Ou então fugir para a Antártida.

Como sou averso ao frio, tenho uma solução melhor. Estou a criar uma A.I. de mim próprio para responder a todos em meu nome. Uma artificial inteligence, em inglês mesmo. Inteligência artificial soa menos gourmet e não permite fazer o trocadilho que reservei para o final do artigo.

Profissionais mandam mensagens para mostrar portfólio? A minha AI responde com simpatia e ainda coloca o link do portfólio num Google Docs que posso acessar sempre que precisar de um freelancer ou mesmo contratar. Respostas a assuntos triviais? A minha AI responde de forma leve e bem-humorada.

Até este texto que estão agora a ler, e que sempre devia ao Dinheiro Vivo até ao último minuto, foi escrito e entregue a horas por ele. (Espero que estejam a gostar. Se não, voltem no próximo mês. A AI ainda está em fase experimental e daqui a quatro semanas já terá incorporado o humor de Ricardo Araújo Pereira e o olhar esquizoanalista de Nélson Rodrigues)

Desde que pus a AI a rodar, vivo mais o olho no olho. Janto mais com amigos, vejo mais séries na Netflix, ligo mais pra família. Tenho uma vida social e pessoal próxima dos tempos de faculdade, pré-Mirc.

A sério, estou tão feliz que me apetece cantar a plenos pulmões o refrão do hino da Galp de 2004: Menos Ais, menos Ais, menos Ais. Quero maaaaais AI’s.

Vá, amados leitores, cantem comigo: Menos Ais, menos Ais, menos Ais. Quero maaaaais AI’s!!!

(Não cantaram? Hum... Mais um ajuste pra AI: melhorar o poder de persuasão. E, já agora, melhorar as piadas de encerramento: “Menos Ais, maaaais AI’s”... tst, tst... que vergonha, Hugo... que vergonha...)

Hugo Veiga, Executive Xreative Director da AKQA São Paulo

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