Às 8 horas da manhã, lá eu estava a fazer jogos verbais no computador. Misturava substantivos, testava adjetivos, procurava uma síntese.
Como definir um homem em três, quatro, vá lá, cinco palavras. Não é uma coisa fácil, acredite. Mais ainda quando sabe que esse alinhar de vocábulos vai estar espalhado por todo o país.
Intranquilo era o meu estado de espírito ao tentar titular o último cartaz da campanha do Engenheiro Guterres nas legislativas de 1995.
Às 10:00 da manhã teria que enviar rascunhos para aprovação. As eleições seriam dali a uns dez dias, segundo eu me lembro (nota: nunca confie piamente na minha memória; tenho cabeça de cronista, importa-me mais a versão do que o facto).
Já andava naquela tarefa há uma semana. Naquele dia, tinha começado às seis da matina. Por volta das 9:30 dei o trabalho por encerrado. Havia encontrado meia dúzia de soluções. Era uma questão de enviar para quem de direito e esperar que escolhessem uma. Fui lavar o rosto e tomar um café. O meu dia de trabalho (o oficial, aquele que me pagava as contas) ainda estava para começar.
Ao retornar ao escritório, li por uma última vez o que estava escrito. Tudo correto, tudo tranquilo, tudo seguro. Ou seja, tudo sem graça. “Tudo sem alma, sem coração”, pensei com os meus botões. Fez-se luz.
Das duas palavras (“alma e “coração”) gostava da segunda. Representava o lado humanista e afectivo que Guterres havia mostrado a Portugal durante meses de campanha. Faltava uma outra, a que representasse o lado intelectual, racional, daquele engenheiro que estudava muito todos os dossiers, que (eu já havia escrito noutro cartaz) era “o homem que sabe o que quer para o país”.
Eu procurava um oposto de “coração” que não fosse um antónimo. Queria mais um complemento. Sei lá o que aconteceria se naquela época eu tivesse acesso fácil à internet ou já existisse o Google. Talvez a palavra encontrada fosse outra. Mas, por alguma razão, saiu-me a palavra “razão”.
“Razão e Coração”, rabisquei sobre o papel onde estava impressa a imagem do engenheiro. Para mim fazia sentido. Todo o sentido. Mas, por não ser uma resposta padrão, não seria fácil de aprovar.
Houve no PS quem não gostasse daquela formulação. Passadas algumas horas fui chamado à sede do partido. “Arriscado”, diziam alguns. “Perfeito”, diziam outros. Não se chegava a uma decisão. O Jorge Coelho pediu licença para ligar para Guterres. Leu ao telefone a frase: “Razão e Coração”. Abriu um sorriso. Desligou a chamada. Disse pouco mais que: “Quando é que isto vai estar impresso na rua?”
O resto foi história. É história. Faz parte da história deste país e da minha história pessoal.
O título desta crónica também poderia ser “Orgulho & Pudor”.
“Orgulho” porque é aquilo que sentimos quando vemos alguém de quem gostamos alcançar o reconhecimento merecido.
“Pudor” porque ele é sempre bem-vindo ao falarmos de quem privamos no passado.
Da minha parte, espero que o Engenheiro Guterres, nas suas novas funções, continue a merecer o título “Razão e Coração”. O mundo agradece.
Ou como diria o meu Tio Olavo: “No fim da história tudo faz sentido. Se não faz sentido é porque não chegou ao fim”.