Reciclagem política

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Um governo de esquerda, liderado pelo PS, "não permitirá que o Estado perca a titularidade sobre a maioria do capital da TAP", dizia Costa em 2015, entre convicção e o piscar de olho a BE e PCP para garantir que havia casamento que lhe assegurasse o lugar, se a sós não conseguisse a maioria. E de facto, depois de perder as eleições, não só precisou de BE e PCP para se equilibrar à cabeça de uma geringonça governativa como cumpriu a nacionalização da companhia aérea portuguesa. Por muito que agora o negue, na semântica, em São Bento, António Costa pagou aos privados para ficar com uma maioria de papel (a decisão continuou na mão dos privados, até mais expressiva do que antes) e quando a pandemia chegou, pôs Pedro Nuno Santos ao leme para atirar os privados borda fora, mesmo que isso significasse trilhar o caminho de destruição que Passos Coelho, pela venda, quisera evitar - despedimentos em massa, corte de rotas e frequências, emagrecimento à condição da atual TAPzinha. Pela "estratégia de afirmação lusófona" e "imprescindível ligação aos principais destinos da emigração portuguesa" - que até hoje não existem -, a TAP tinha de ser pública.

Fast forward a janeiro de 2023. O mesmo António Costa, ainda primeiro-ministro, ainda socialista, afirmava ao Parlamento: "Estamos numa fase do processo de alienação total ou parcial da participação do Estado na TAP. É útil e necessário que haja estabilidade." A TAP tem de ser privada, portanto. Esqueça tudo o que viu e ouviu antes.

O mesmo primeiro-ministro, ao fim de sete anos, lembrou-se que a Habitação sempre foi sua prioridade - mesmo que nunca tenha mexido um dedo para resolver a crise, nem como PM nem nos oito anos que esteve como presidente da Câmara de Lisboa. E por isso se lançou a revelar um megapacote que afinal não traz soluções, antes é base para iniciar uma eventual discussão. Um plano que nem a melão chega, é fruta de plástico a enfeitar a cena.

É o chefe de governo que tem feito caminho a dar o dito por não dito, desde os tempos em que tirou o tapete ao colega António José Seguro. Que dirige a orquestra socialista que chama os responsáveis pela privatização da TAP a responder quando se exige saber mais das trapalhadas da atual gestão pública da companhia. Que ora protege ora faz que esquece a existência de governantes da sua "mais alta confiança" que protagonizam episódios que nos assombram e envergonham, como os idos Cabrita, Pedro Nuno e Miguel Alves (o braço direito de Costa que estava acusado de prevaricação), mas também os até agora resistentes Cravinho e Maria do Céu Antunes.

Foi este o socialismo que ascendeu e se instalou no poder, beneficiando das contas limpas por quem lhe antecedeu no governo e do maior volume de fundos europeus alguma vez visto. Muitíssimo mais dedicado à própria sobrevivência do que ao ímpeto de deixar um país melhor.

Nessa aflição, ao fim de ano e meio de derrota autárquica e com a ameaça de uma acusação de corrupção a dar urticária a primeiro-ministro e ministro das Finanças pelo que deixaram em Lisboa, o PS alinha esperanças em Marta Temido para "recuperar a Câmara" - como se a cidade fosse património dos socialistas e a vitória de Moedas uma espécie de desvio desagradável.

A ministra que disse que o pessoal da saúde tinha de deixar de ser piegas e trabalhar mais, que passou as PPP a buldózer gerando impensáveis problemas nos únicos hospitais que não os tinham, que empurrou para demissões em bloco as direções de inúmeras unidades de saúde, que geriu a pandemia à patada e por achómetro, que revelou todo o seu potencial despótico e foi por isso premiada por Costa com um cartão de fidelização do PS. A ministra que precisou que morresse uma mulher grávida para perceber o resultado das suas políticas. É esta a candidata que os socialistas promovem à liderança de Lisboa.

Nesta semana até já teve direito a tempo de antena, com entrevista na SIC Notícias. Até setembro de 2025, ainda no-la vão vender como salvadora da pátria.

SOBE: Miguel Stilwell d"Andrade, CEO da EDP, e Filipe Silva, CEO da GALP
Aquilo que Portugal tem capitalizado enquanto um dos países europeus que mais investem e apostam nas energias limpas não resulta das políticas seguidas. É fruto dos passos dados por companhias como a Galp, que embarcou numa viagem de profunda transformação do seu negócio rumo ao solar, e a EDP, que tem acelerado esforços no sentido de dar gás às eólicas e também ao fotovoltaico - aqui e além-fronteiras, como nesta semana vimos, com a apresentação dos planos de investimento. Se Portugal pode orgulhar-se da sua capacidade renovável, é graças a companhias como estas, que assumem o risco e abraçam o futuro, muito antes de contarem com políticas públicas que promovam os seus esforços. Por vezes até contra as marés públicas que ainda criam inenarráveis barreiras regulatórias e burocráticas e regimes fiscais que não só não promovem como são punitivos do crescimento e do investimento. EDP e Galp só não vão mais longe e mais depressa porque esta é uma corrida de obstáculos. Cabe ao governo remover as barreiras (licenças, entradas de rede, leis e impostos) que as impedem de avançar ao melhor ritmo.

DESCE: Ana Mendes Godinho, ministra Trabalho, Solidariedade e Segurança Social
Enquanto a criação de emprego está congelada e o desemprego continua a subir, fixando-se em janeiro nos 7,1% - e já sem justificação possível com sazonalidades e desajustes -, a ministra vai sorrindo e acenando com experiências moderninhas, como a semana de trabalho de 4 dias, que pouco acrescentam de valor à nossa economia, num momento em que a emigração de jovens deixa Portugal cada vez mais pobre de talento e vulnerável a uma crise profunda na previdência.

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