Com os Descobrimentos, Portugal abriu caminho para a primeira globalização, conectando continentes através de novas rotas não só comerciais mas também sociais e culturais. Em pouco mais de um século, os portugueses estabeleceram uma rede de relações que ia desde a Terra Nova e o Brasil até à China.
A partir daí os quatro cantos do mundo passaram a estar interligados. Contudo, a globalização e a respetiva configuração da rede de relações nunca foi um processo linear, conhecendo mudanças significativas ao longo dos séculos. Acontece que uma das maiores transformações está neste momento em curso.
Fenómenos como o brexit, o decoupling EUA vs. China (disputa entre estas duas potências pela supremacia mundial), a pandemia provocada pela covid-19 e as guerras na Ucrânia e no Médio Oriente têm gerado um abrandamento na dinâmica global, um fenómeno que muitos começaram a apelidar de slowbalization.
O termo procura refletir a desaceleração nas trocas comerciais e nos fluxos internacionais decorrente de disrupções nas cadeias de abastecimento, da imposição de sanções (como as que os países ocidentais impuseram à Rússia) e da adoção de políticas protecionistas em países cujos governos procuram dar prioridade ao mercado interno.
Há até quem vá mais longe e fale de “desglobalização”, ou seja, de um retrocesso efetivo na interconectividade global. No entanto, a realidade parece apontar para uma transformação mais complexa e estratégica. Efetivamente, mais do que a um recuo, aquilo a que se assiste é a uma reconfiguração das redes de relacionamentos económicos, políticos e sociais. Um exemplo muito concreto é a reestruturação das cadeias de valor - empresas e governos estão a diversificar fornecedores e a aproximar-se de mercados regionais ou mesmo locais, pese embora sem deixarem de manter ligações internacionais estratégicas.
Esta reglobalização decorre também de diferentes posicionamentos quanto a fenómenos como as alterações climáticas e as desigualdades. Se é certo que muitos países se fecham sobre si mesmos (veja-se a posição Donald Trump no que se refere ao acordo de Paris e aos fluxos migratórios), assiste-se, por outro lado, à emergência de processos de cooperação que procuram dar respostas coletivas a desafios que são de todos, como os que se prendem com a sustentabilidade e a solidariedade entre países ricos e em desenvolvimento.
Assim, em vez do fim da globalização, o mundo está a assistir à sua evolução, ajustando-se às exigências do tempo complexo, incerto, volátil e ambíguo que vivemos. Neste contexto, a reglobalização não deve ser encarada como uma ameaça - é um facto, ponto. O que significa que os países que mais rapidamente forem capazes de se reajustar política, económica e militarmente são os que vão estar no comboio da frente nas próximas décadas.
E termino como comecei: a falar de Portugal. Nos séculos XV e XVI fomos first movers, isto para utilizar uma linguagem tão do agrado dos estrategas empresariais. E por isso chegámos onde chegámos. Acontece que atualmente o problema não é sequer sermos second ou third movers.
O problema é que este desafio está completamente fora do radar das nossas preocupações. Leia-se, das preocupações do nosso Governo bem como de muitas das nossas empresas, universidades e instituições. Por isso, não é preciso ter uma bola de cristal para saber onde NÃO vamos estar nas próximas décadas.
Professor da Porto Business School