O ano de 2022 não poderia ter melhor início para a portuguesa Relive. Uma semana depois desta imobiliária digital (proptech) ter iniciado o programa para startups do acelerador Techstars, nos Estados Unidos, eis que concluiu uma ronda de investimento seed, angariando um milhão de euros. A ronda foi liderada pela gestora de capital de risco portuguesa Shilling. A norte-americana Techstars também entrou no barco, bem como a Accel, a Bynd, a Indico Capital Partners e a Portugal Ventures, além dos fundadores da Anchorage (Diogo Mónica) e Feedzai (Pedro Bizarro) enquanto business angels.
A Relive é uma startup focada na digitalização do negócio imobiliário, criada em 2020 por José Costa Rodrigues, Henrique Brás e Sérgio Pinto Ferrás. A premissa do negócio da Relive é, por um lado, atrair para o imobiliário adultos entre os 25 e os 40 anos, que procuram trabalhar por conta própria ou ter um rendimento extra com uma ocupação profissional mais flexível. Por outro, contribuir para a digitalização do negócio imobiliário, simplificando todos os processos para consultores, proprietários e potenciais compradores. Para isso, a proptech criou uma aplicação móvel digital onde qualquer consultor imobiliário associado à Relive, bem como os proprietários de imóveis, possam acompanhar e gerir todo o processo de compra, venda ou arrendamento.
Ao Dinheiro Vivo (DV), o cofundador e CEO da Relive, José Costa Rodrigues, explica que a startup quer ser a "Uber do imobiliário", centralizando numa plataforma digital todas as ferramentas necessárias e fornecendo-as a consultores imobiliários, para que possam agir por conta própria - tal como a Uber faz com os motoristas de plataformas TVDE. No final de 2021, a Relive já contava com 100 consultores imobiliários associados, além de uma equipa de quatro pessoas (incluindo os três fundadores) a gerir a startup. Além disso, a proptech conseguiu angariar mais de 100 imóveis e fechou 50 transações imobiliárias (compra, venda e arrendamento) em todo país, sobretudo na região do Algarve, em Lisboa, no Porto, em Setúbal, bem como em Leiria e Santarém.
"Vamos entrar no momento-chave de qualquer startup"
Com o financiamento garantido os objetivos para 2022 são claros para José Costa Rodrigues: recrutar, desenvolver e melhorar a aplicação móvel e investir em marketing para promover o trabalho da startup. Isto, enquanto a proptech desenvolve o negócio nos EUA, apoiada pelo acelerador Techstars. "A Relive tem um potencial gigantesco", afiança o jovem empreendedor, que no seu currículo já conta com a criação da Forall Phones e o projeto de literacia financeira Meu Capital.
Quanto a recrutamentos, o objetivo é ter no final do ano uma equipa de gestão de 15 pessoas. "Vamos entrar no momento-chave de qualquer startup, que é quando passamos da equipa inicial de quatro ou cinco pessoas, para dez ou quinze. São estas pessoas que vão criar a cultura da empresa", afirma José Costa Rodrigues.
Acresce a meta de ter mais de 250 consultores imobiliários a trabalhar com a Relive, até ao fim do ano.
A par do crescimento da equipa, há que melhorar a aplicação móvel. "Criar um melhor interface para os nossos parceiros, simplificar o processo de CRM [que permite agilizar toda a burocracia inerente aos processos] para gerir o negócio são os próximos passos", detalha.
"Mas a Relive não vale apenas pela tecnologia, mas por todo o conjunto que estamos a desenvolver", sublinha o cofundador e CEO da proptech. Segundo José Costa Rodrigues, como a Relive está focada em atrair e criar novos e mais jovens consultores - "um target que as grandes imobiliárias estão com grandes dificuldades em cativar" -, além de que a aposta passa por apostar em regiões do país e em segmentos de imóveis, a listar e comercializar, com valores mais baixos face à oferta das grandes imobiliárias, esta startup "valerá mais por empoderar e ajudar a criar negócios junto de quem procura novas oportunidades", mas que não tem capital para investir por conta própria. A startup também promete "comissões maiores".
"Se conseguirmos desenvolver boa tecnologia, com uma base de empreendedores muito diferenciada, acredito que valeremos por todo o conjunto", remata o empreendedor.
Por isso, a terceira meta da ronda de investimento passa por "investir em marketing para dar a conhecer a Relive, para os consultores trabalharem e para os proprietários venderem o imóvel".
Este primeiro financiamento permite à startup acelerar a ambição. Para Pedro Santos Vieira, managing partner da Shilling, que liderou a ronda de investimento na Relive, a proptech tem "uma solução escalável para um problema bem identificado e para um tipo de cliente específico". Uma vantagem reconhecida pelos novos investidores, pois a abordagem "extremamente focada", realça o gestor da Shilling, "permitirá no futuro executar uma visão mais ambiciosa: revolucionar uma das maiores e mais tradicionais indústrias globais".
Daí a aposta de uma gestora de capital de risco que já investiu na Uniplaces ou na Unbabel. "Com este investimento continuamos a demonstrar a nossa convicção de que, quando uma equipa fundadora é forte a explorar uma boa oportunidade de mercado, grandes coisas acontecem", refere Pedro Santos Vieira.
Relive desenvolve negócio a partir do Texas
Mas nem só do financiamento angariado depende o futuro desta startup. O desenvolvimento do negócio da Relive também passa pelos EUA, onde os fundadores da proptech conseguiram inscrever o projeto num programa de três meses da aceleradora Techstars.
A partir de Austin, no Estado do Texas, a Techstars desenvolve programas de aceleração de negócio. Todos os anos abre apenas 12 vagas para startups se candidatarem ao programa e aceder a um ecossistema que promete alavancar qualquer negócio. Destas 12 vagas, apenas uma vaga se destina a empresas fora dos EUA. José Costa Rodrigues explica que em média surgem 17 mil candidaturas e que "menos de 1% são aceites". Ora, em 2022, a Relive foi a única empresa fora dos EUA a entrar no programa da Techstars.
O cofundador e CEO da Relive resume um pouco todo o processo ao DV: "Quando ainda estava na Forall Phones já tinha perfeita noção de que o imobiliário seria o meu negócio seguinte. Sempre que tinha de abrir uma loja na Forall era tudo super complexo. Dessa experiência surgiu a ideia da Relive para simplificar os processos. Comecei com um investimento pessoal de 150 mil euros, encontrei dois sócios e lançamos o projeto. Este setor é ultra competitivo e tivemos de perceber onde fazíamos a diferença. O primeiro ano correu bem para a nossa dimensão e os EUA sempre foram um objetivo".
"Analisei o que fizeram as grandes startups e unicórnios portugueses para entrar nos EUA. Entraram numa aceleradora, por isso, candidatámo-nos às três principais aceleradoras dos EUA - Techstars, 500 Startups, Y Combinator", prossegue.
Os primeiros contactos não foram fáceis, mas a Relive acabou por conseguir chamar a atenção e receber proposta de "duas das três aceleradoras". Os fundadores da Relive escolheram a Techstars, cuja aceitação do projeto num programa de aceleração de negócio "ajudou com o que os investidores ainda se motivassem mais na ronda de investimento", agora concluída.
"Quando soube que tínhamos entrado chorei", confessa José Costa Rodrigues. Afinal, "apesar dos bons momentos" que diz já ter tido na vida profissional, "este foi uma validação extra". "Os americanos não são melhores do que nós, nem têm nada que nós, portugueses, não tenhamos", garante.
"Acredito que é possível sermos um unicórnio"
A partir de Austin, a ideia não é só aproveitar a Techstars para melhorar o negócio em Portugal. Também há o objetivo de "criar as bases em 2022 para o mercado norte-americano". A proptech ainda está a "tratar da burocracia e licenças" para poder começar a operar nos EUA. Por isso ainda não há portfólio na terra do Tio Sam. O processo de conhecimento do mercado ainda está no início. "Mas, daqui a um mês, já esperamos ter atividade", revela. O objetivo é ter cinco consultores nos EUA até ao final de 2022.
De que forma a Techstars pode ajudar a acelerar e escalar o negócio da Relive? "O menos importante é o dinheiro" diz José Costa Rodrigues, revelando que o investimento da Techstars numa startup pode ir até 120 mil dólares (cerca de 105 mil euros).
O que interessa mesmo, realça o CEO da Relive, é fazer crescer a rede contactos, o chamado networking. "Nos EUA, usam de facto o poder da rede de contactos e no mundo das startups tudo é uma questão de introdução à pessoa certa no momento certo", comenta o jovem empresário.
A par do networking, serão importantes as ferramentas que a Techstars pode fornecer para fazer evoluir o conceito de negócio da startup portuguesa. "Ajudam-nos a definir a estratégias e dão-nos ferramentas, muitas vezes tecnológicas, para entrarmos no mercado [norte-americano]", revela. A vantagem disso, sublinha, é que "adaptação e aceleração do produto da Relive nos EUA, a partir das leis e lógicas de negócio norte-americanas, é adaptável a Portugal".
O caminho desta proptech está a ser feito com todo o cuidado. "O mercado imobiliário é sempre uma aposta de longo prazo. Vender casas não é a mesma coisa que vender telemóveis", argumenta José Costa Rodrigues, revelando que a Relive já atraiu a atenção de "um tubarão" do setor. Contudo, o objetivo é não perder o foco e desenvolver e expandir uma marca própria.
Pode a Relive aspirar vir um dia a conseguir o título de unicórnio (startup avaliada em mil milhões de dólares)? "É um sonho, mas todos os empreendedores têm de ter um sonho grande", responde.
"Acredito que é possível lá chegar. O crescimento pode demorar, mas acredito que a Relive pode um dia valer mais de mil milhões de dólares. Gostava mesmo de um dia cotar em bolsa porque acho que podemos ser o futuro do ramo imobiliário", conclui.