Renan, o fruto do analfabetismo

Oito por cento dos brasileiros jovens e adultos não conseguem ler este texto
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O Brasil tem 13 milhões de cidadãos analfabetos acima dos 15 anos, uma das piores taxas da América do Sul. O governo federal combatia esses números através de um programa criado em 2003, ano da chegada ao poder de Lula da Silva (PT), chamado Brasil Alfabetizado, cancelado pelo ministério da Educação em junho, um mês após a posse do então governo provisório liderado por Michel Temer (PMDB).

A região do país mais atingida pelo flagelo é o Nordeste, com 54% dos casos de analfabetismo espalhados pelos seus nove estados. Maranhão, Piauí, Paraíba ou Sergipe estão entre as situações mais graves. Mas nenhum bate Alagoas, onde em cada 100 pessoas com mais de 15 anos, 22 não sabem ler nem escrever.

E o problema não ataca apenas as regiões rurais: mesmo na capital Maceió, onde se esperariam números mais condizentes com o século XXI, 66 mil pessoas não sabem ler nem escrever, o equivalente a 8,3% da população, o maior número, de longe, entre todas as capitais estaduais brasileiras, apontam os dados da Policy Center for Inclusive Growth, citados pelo jornal Folha de S. Paulo.

A notícia, preocupante e estrutural, saiu em meados de agosto, engolida imediatamente pelos imparáveis acontecimentos políticos e policiais de Brasília. Como os desta semana, em que um juiz do Supremo Tribunal Federal decidiu afastar o presidente do Senado, Renan Calheiros, do terceiro cargo mais alto da nação. Em causa, o facto de Calheiros ser réu num caso de desvio de dinheiro público e da Constituição impedir que cidadãos nessa situação possam estar na linha sucessória do presidente da República.

Pois no dia seguinte, Calheiros driblou o oficial de justiça que levava a notificação da decisão da mais alta corte do país - mandou dizer que não estava em casa, embora estivesse por lá, como documentam imagens de televisão, e mais tarde recusou-se a abrir a porta do gabinete ao mensageiro do tribunal. À noite, que é quando Brasília se torna uma cidade imprópria para menores de 18 anos, o presidente do Senado, Temer e sua entourage, a quem convém a continuidade do aliado Calheiros, e outros juízes do Supremo movidos sabe-se lá por que interesses, combinaram uma estratégia infalível.

Horas depois, em plenário do Supremo, a tese do juiz que queria cumprir a Constituição foi derrotada, por seis votos a três, por um estranho Plano B: sim, Calheiros não pode suceder a Temer, mas não, não vai sair do Senado. Isto depois de, pelo meio, ter desobedecido a uma ordem judicial. Enfim, um conluio detalhado pelos jornais capaz de fazer Aristóteles, Platão e os outros pioneiros da justiça remexerem-se nos túmulos.

O caso pelo qual Calheiros é réu remonta a 2007: pagou, com dinheiro público proveniente de contratos de construtoras amigas, pensão a uma filha fora do casamento com a jornalista Monica Veloso. Esse caso, aliás, levou-o a demitir-se da presidência do Senado, para não perder o mandato, em 2010. Além disso, o chefe dos senadores é investigado em mais 14 casos, oito deles no âmbito da Operação Lava-Jato.

Muito antes da questão da linha sucessória agora em análise, a pergunta que se impõe é como é possível Renan ter sido reeleito, pelos seus pares no Senado, depois do Caso Monica Veloso? Ou antes ainda: como, apesar de todos os escândalos, a população do seu estado o reelegeu senador?

O seu estado, onde ele e o seu clã reinam tal e qual coronéis de um romance de Jorge Amado há décadas, é Alagoas. O campeão do analfabetismo, flagelo do qual Renan Calheiros é fruto.

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