“Retorno da Web Summit chegará daqui a cinco ou dez anos”

A convicção é de João Vasconcelos, corroborada por Paddy Cosgrave, mentor do Web Summit
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Na próxima semana, um grande acontecimento vai tomar conta do país. De 7 a 10 de novembro, Portugal acolhe a Web Summit, com o evento a ocupar os dois espaços maiores do Parque das Nações, na capital: o Meo Arena e a FIL.

A conferência mundial de tecnologia vai acontecer em Lisboa, pelo menos, nos próximos três anos. Trazê-la de Dublin para cá implicou um investimento de 1,3 milhões de euros por cada ano, num total de 3,9 milhões de euros. Discute-se agora a possibilidade de alargar o prazo por mais dois anos e garantir também edições em 2019 e 2020.

À conversa com o Dinheiro Vivo, João Vasconcelos, secretário de Estado da Indústria, assume que “podemos estar a falar da criação de uma geração Web Summit e isso é um retorno que só vamos ter daqui a cinco ou dez anos. Estamos a trabalhar nisto a longo prazo. A curto prazo estamos a falar da atração de investimento e de startups”.

Também Paddy Cosgrave, CEO da conferência tecnológica, confirma a vontade de a organização manter a ligação a Portugal no futuro. “Queremos construir relações ainda mais fortes em Lisboa nos próximos anos.” O irlandês adianta que há retornos que podem não ser tão óbvios mas que acontecem. “As startups que vieram à Web Summit em 2015 angariaram mil milhões de dólares (mais de 900 milhões de euros).”

Ao longo destes dias, várias iniciativas associadas acontecem um pouco por toda a cidade. Todos parecem querer aproveitar a boleia da cimeira. De placards de boas-vindas espalhados pelas ruas a publicações que se multiplicam em inglês, estão ainda marcados na agenda inaugurações, prémios, demonstrações, concertos e festas.

A Web Summit marca a agenda mediática, política e social. São esperadas mais de 50 mil pessoas, entre líderes de empresas como Facebook, Renault-Nissan, Nasdaq e Forbes, a figuras mediáticas como Ronaldinho e Joseph Gordon-Levitt.

O governo posiciona-se como o principal parceiro do evento. Em todos os anúncios oficiais da Web Summit, António Costa faz questão de estar presente ao lado de Paddy Cosgrave, o CEO da cimeira. Como se de um namoro de tratasse, Portugal vive a fase do deslumbramento, com um país inteiro rendido.

Contudo, esta relação começou com protagonistas diferentes. Foi o anterior executivo, sob a liderança de Passos Coelho, que conduziu as negociações, através do secretário de Estado adjunto e da Economia Leonardo Mathias. Nos bastidores, muitos e-mails, reuniões, visitas e conversas. De um lado, Paddy Cosgrave e a sua equipa, do outro, um contingente português: representantes do governo, da AICEP, do Turismo de Portugal e de Lisboa, da Câmara Municipal e até da Embaixada de Portugal na Irlanda.

Nas redes sociais, mais pressão surgiu. A publicação digital Ship lançou o movimento Let’s Bring the Web Summit 2016 to Lisbon, criando um grupo no Facebook que atingiu mais de cinco mil participantes. Paddy Cosgrave admite que pesou na decisão ter visto a sua conta inundada de mensagens de portugueses a pedirem-lhe para trazer a cimeira para Lisboa.

A capital do país acabou por prevalecer sobre Amesterdão, que também estava a ser considerada. O anúncio surgiu a 23 de setembro de 2015 no Twitter do criador da Web Summit. Foi o momento de “pedido de namoro”. O deslumbramento dura desde então.

Perto do final desse ano, Portugal mudou de governo mas o entusiasmo manteve-se. António Costa assume então o cargo de primeiro-ministro e João Vasconcelos passa de diretor da incubadora Startup Lisboa a secretário de Estado da Indústria.

O irlandês conta que o bom ambiente de trabalho entre as partes se manteve. “O governo português e as entidades locais têm sido e continuarão a ser bastante cooperantes em trazer a Web Summit para Lisboa. A comunidade tecnológica local, o governo e as entidades locais têm um papel importante no sucesso da cimeira.”

Ainda assim, Paddy Cosgrave não cortou laços com os ex-governantes. Leonardo Mathias já admitiu que costuma almoçar com o irlandês sempre que este e a sua equipa vêm a Lisboa e contou que o CEO da Web Summit lhe ofereceu um bilhete platina para conferência. Já Paulo Portas, ex-vice-primeiro-ministro, que subiu ao palco com Paddy Cosgrave no último dia do evento em Dublin, foi convidado para ser orador em Lisboa, tendo sido um dos últimos confirmados.

A ferida irlandesa

Um ano de preparação para o evento foi o suficiente para alimentar o burburinho e fazer crescer a expectativa. Portugal passou a sensação no mundo do empreendedorismo e Lisboa chegou a ser apontada como a sucessora de Londres, de Berlim e até de Silicon Valley.

“Há um impacto enorme na imagem do país. Estamos a mostrar um país inovador e sofisticado, mesmo antes da Web Summit. Fomos a Macau, São Paulo e Silicon Valley e perguntaram sempre por Portugal. Acabei de dar uma entrevista a um jornalista do The Guardian. Isto para mim já está ganho”, afirma João Vasconcelos, entusiasmado.

Além de falarem com o secretário de Estado português, o que os jornais internacionais também contam é que Paddy Cosgrave se foi embora da Irlanda de coração partido. À RTÉ, uma rádio irlandesa, o CEO da Web Summit admitiu que não queria que a cimeira abandonasse Dublin e que esperava que um dia pudesse regressar. Contou também que as negociações com o governo irlandês duraram até ao último instante em que o acordo acabou por ser assinado com Lisboa.

No blogue oficial da Web Summit foi exposto o rol de e-mails que Paddy Cosgrave trocou com o gabinete do primeiro-ministro Enda Kenny, em que o CEO da cimeira instava os governantes a tomarem uma decisão. Em apoios públicos para a conferência, o irlandês conseguiu um total de mais de 800 mil euros (menos 500 mil do que o investimento anual do Estado português para a Web Summit).

Nas suas missivas, Paddy Cosgrave afirmava que não pedia mais dinheiro, apenas que lhe resolvessem quatro questões específicas: o tráfego nas estradas, os preços dos hotéis, que aumentavam demasiado na altura da conferência, os problemas nos transportes públicos e a cobertura wi-fi do evento.

O jornal Irish Times afirma que a Web Summit nunca se adaptou a Dublin e que Dublin nunca se adaptou à Web Summit. Nos últimos anos, as vozes críticas andavam a subir de tom. A plataforma europeia online de tecnologia Tech.eu divulgou vários artigos de opinião a acusar a cimeira de não estar verdadeiramente preocupada com as startups, mas apenas em fazer dinheiro, trazendo pouco valor aos participantes.

Alvo de críticas foi ainda o constante spam feito pela equipa. Também um post num blogue espanhol, em que o autor apelidava a Web Summit de “circo”, foi amplamente partilhado nas redes sociais. Numa tentativa de calar os críticos, a equipa de Paddy publicou um artigo intitulado “A Web Summit é uma fraude?”, em que tentou responder a todas as falhas que lhes estavam a ser apontadas.

Em Portugal, também há quem se queixe dos preços altos dos bilhetes (neste momento o valor dos ingressos de visitante varia entre mil e mais de cinco mil euros), mas são poucos os que se atrevem a criticar abertamente a conferência tecnológica. A maioria está expectante para perceber o que a Web Summit tem para lhes oferecer e de que forma podem lucrar com ela.

Contudo, não é só a Web Summit que tem algo a provar a Portugal. Como em qualquer relacionamento, Portugal também tem de mostrar o que vale, à Web Summit e ao mundo. “Em termos de logística, é a parte sobre a qual estou mais descansado, porque estamos habituados a grandes eventos, como a final da Liga dos Campeões em Lisboa, em 2014, e o Rock in Rio. Só que nenhum destes eventos tem a função de mostrar um país sofisticado, inovador, tecnologicamente evoluído." Estamos a falar de sete mil CEO e de dois mil jornalistas. É uma plateia com níveis de mais: “Temos de ter o pitch de Portugal afinado, de um país moderno e que quer fazer parte da inovação”, assegura João Vasconcelos.

Paddy concorda. “A Web Summit vai trazer mais de mil investidores a Lisboa, muitos deles pela primeira vez. Temos tantas empresas e empreendedores a vir que é uma grande oportunidade para que se apaixonem pelo país.”

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