Nos últimos anos multiplicaram-se as empresas dedicadas ao recondicionamento de equipamentos informáticos e de telecomunicações, que recolhem produtos em fim de vida ou a precisar de reparação e voltam a introduzi-los no mercado. "A reutilização também permite que mais pessoas tenham acesso a equipamentos que por outra via não conseguiriam ter", afiança Ricardo Furtado, um dos participantes no último de seis debates organizados pelo movimento Faz Pelo Planeta by Electrão. O tema da conversa desta quinta-feira, moderada pela diretora do Dinheiro Vivo, Joana Petiz, dedicou-se à importância de «Reutilizar e Recondicionar», analisando o impacto ambiental e social desta nova forma de olhar o consumo.
A ideia é que seja possível, por esta via, reduzir o número de equipamentos destruídos e reaproveitá-los, comercializando-os a preços mais baixos. Desta forma, mais pessoas podem adquiri-los e menos recursos são desperdiçados. "É das melhores opções que podemos ter ao nível da gestão de resíduos", explica o diretor-geral da Electrão. Existem, porém, vários desafios a superar para que este seja um segmento de mercado em crescimento acelerado, nomeadamente no que respeita ao processo de recolha. "A reutilização implica métodos de recolha muito mais ligeiros que garantam que o equipamento não é deteriorado", esclarece Ricardo Furtado. Aliás, o responsável diz mesmo que a Electrão está a estudar a introdução de um sistema de depósito para pequenos equipamentos elétricos e eletrónicos no sentido de facilitar esta tarefa difícil.
Isabel Jonet, que lidera a Entreajuda e o Banco Alimentar Contra a Fome, admite que existe "mais gente a querer doar os seus bens e equipamentos", inclusive empresas que renovam os seus computadores e encontram nesta instituição a solução para dar utilidade a esses produtos. "Temos o banco de bens doados desde 2005 e é o maior projeto logístico de reutilização na Europa, não há outro igual, e por isso somos uma referência para muitas entidades", aponta. Esta experiência acumulada permite apoiar instituições em todo o país - só em 2020, foram mais de 1500 -, tendo conseguido ajudar a oferecer computadores novos e recondicionados a crianças que não tinham possibilidade de assistir às aulas em casa durante os confinamentos gerais. Ao mesmo tempo, a componente social vai além da doação de bens e passa, também, pela oportunidade dada a "pessoas que o mercado de trabalho habitual não valoriza". "Tenho uma pessoa com trissomia 21 que arranja os computadores e que desmantela os que já não podem ser utilizados", partilha.
No entanto, a sensibilização dos consumidores continua a ser um desafio que é necessário resolver, avisam os especialistas. No caso dos equipamentos elétricos e eletrónicos, a disponibilização de garantia nos produtos vendidos é essencial para dar confiança ao comprador, que desta forma sabe estar protegido contra avarias. "Há muita sensibilização a fazer", afirma Isabel Jonet. Inês Soares, criadora do projeto Novonovo, reforça a ideia dizendo que não acredita que "exista alguém que diga que prefere deitar no lixo em vez de doar", mas é preciso garantir informação e facilitar o processo de recolha de bens para que a reciclagem aumente. "A maior motivação é pessoal, não há nada melhor do que isso", remata.