"Reutilizar e Recondicionar" foi o tema do último de seis debates organizados pelo movimento ambiental Faz Pelo Planeta by Electrão, que ao longo dos últimos meses procurou contribuir com a sensibilização para a importância da reciclagem. Na conversa que decorreu esta quinta-feira, analisou-se o impacto ambiental e social dos produtos recondicionados que ganham nova vida e evitam, assim, a exploração de novos recursos naturais. Com a multiplicação de empresas dedicadas a este segmento de mercado, recolhendo bens em fim de vida que são depois reparados e vendidos, pode o ambientar sair beneficiado?
A ideia é que seja possível, por esta via, reduzir o número de equipamentos destruídos e reaproveitá-los, comercializando-os a preços mais baixos. Desta forma, mais pessoas podem adquiri-los e menos recursos são desperdiçados. "[O recondicionamento] é das melhores opções que podemos ter ao nível da gestão de resíduos", explica o diretor-geral da Electrão. Existem, porém, vários desafios a superar para que este seja um segmento de mercado em crescimento acelerado, nomeadamente no que respeita ao processo de recolha. "A reutilização implica métodos de recolha muito mais ligeiros que garantam que o equipamento não é deteriorado", esclarece Ricardo Furtado. Aliás, o responsável diz mesmo que a Electrão está a estudar a introdução de um sistema de depósito para pequenos equipamentos elétricos e eletrónicos no sentido de facilitar esta tarefa difícil.
Ultrapassada esta fase, o consumidor tem acesso a telemóveis ou computadores, por exemplo, que funcionam corretamente e que, quando vendidos, estão cobertos por uma garantia legal de dois anos. "Quando um bem é recondicionado, mas em que no fundo existe uma venda, estes bens móveis que são usados têm a mesma garantia de dois anos como um equipamento novo", sublinha Elsa Agante, da Deco Proteste. No entanto, a par com o reaproveitamento de materiais e produtos, é necessário, defende, que as pessoas estejam recetivas à sua utilização e que compreendam a mais-valia de optar por um recondicionado em vez de comprar um novo produto. "Estamos a fazer um esforço na educação do consumidor", diz.
Isabel Jonet, que lidera a Entreajuda e o Banco Alimentar Contra a Fome, admite que existe "mais gente a querer doar os seus bens e equipamentos", inclusive empresas que renovam os seus computadores e encontram nesta instituição a solução. "Temos o banco de bens doados desde 2005 e é o maior projeto logístico de reutilização na Europa, não há outro igual, e por isso somos uma referência para muitas entidades", aponta. Esta experiência acumulada permite apoiar instituições em todo o país - só em 2020, foram mais de 1500 -, tendo já conseguido ajudar a oferecer computadores novos e recondicionados a crianças que não tinham possibilidade de assistir às aulas em casa durante os confinamentos gerais. Missão semelhante tem o projeto Replay, criado por Ana Salcedo, que desde março procura recolher brinquedos usados e estragados para lhes dar um novo propósito. "Pedimos às famílias para porem mãos à obra e desmontarem os brinquedos nas diferentes categorias de materiais, até para entenderem a complexidade [do processo]", detalha a fundadora.
Além de garantir a reciclagem dos materiais que compõem estes brinquedos, a iniciativa quer dar corpo ao conceito de upcycling, que no fundo passa por acrescentar valor através da criação de novos produtos. "Com parte do plástico, vamos encaminhá-lo para criar uma peça de mobiliário urbano", exemplifica. Quem diz brinquedos, diz chapéus de chuva estragados que são transformados em peças de moda, como casacos ou sacos, através do R-Coat. A italiana Anna Masiello, que vive em Portugal desde 2017, tem hoje uma equipa de cinco costureiras que produzem as peças de vestuário e já conta com mais de 30 pontos de recolha nacionais. "Queremos mostrar que o upcycling não tem de ser um produto que parece caseiro. Queremos mostrar que isto era lixo e agora é um produto com qualidade", afirma.