Rio de Janeiro: Parque olímpico ao abandono

Uma cidade fantasma dentro da Cidade Maravilhosa: arenas fechadas, entulho acumulado e conflitos em tribunal entre os gestores dos espaços.
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No fim-de-semana passado, o Parque Olímpico, considerado o coração dos Jogos Olímpicos do Rio de janeiro de 2016, recebeu uma prova de Vólei de Praia. Não seria notícia, não fosse o caso de ter sido o primeiro e único evento disputado no local nos cinco meses posteriores à festa olímpica que arrebatou os sentidos de milhões de telespetadores do mundo inteiro. A poucos metros da quadra onde os voleibolistas aplicavam bloqueios e levantamentos, acumulavam-se cabos de ferro, fios de cobre, entulho, lixo, poças de água parada. E quase nenhum sinal de vida.

Do dia 9 de outubro de 2009, quando o Rio de janeiro bateu Madrid, Chicago e Tóquio na luta pela organização dos Jogos Olímpicos, a 18 de setembro de 2016, data da festa de encerramento dos Jogos Paralímpicos, a palavra mais repetida pelos governantes do Brasil e da Cidade Maravilhosa foi “legado”. Cinco meses depois, em vez de “legado” ouvem-se sobretudo expressões como “cidade fantasma”, pela pouca utilização do espaço pelos habitantes cariocas, ou “elefante branco”, pelo elevado custo de manutenção dos recintos. Das 26 principais instalações do Rio-2016, 14 estão fechadas e boa parte sem calendário atribuído. Os custos apenas do Parque foram do equivalente a 700 milhões de euros.

“É uma absoluta falta de compromisso com o dinheiro público e com a gestão, o Brasil está a rasgar dinheiro”, disse a senadora Ana Amélia, do PP, partido que apoiou os governos Lula da Silva e Dilma Rousseff, ambos do PT, e está na base aliada do de Michel Temer, do PMDB, levando o assunto ao plenário do Congresso Nacional na sexta-feira passada.

As Arenas Cariocas 1, 2 e 3, onde se realizaram as provas de basquetebol, judo, luta livre, luta greco-romana, taekwondo e esgrima, estão todas fechadas mesmo sendo consideradas de caráter permanente pela organização no plano inicial. As duas primeiras são administradas pelo Ministério do Desporto do Brasil mas ainda não têm calendário de eventos definido. A última será transformada numa escola voltada para a prática desportiva. A partir de quando? Não se sabe. O custo anual de manutenção é, de acordo com o jornal Folha de S. Paulo, de 17 milhões de reais, isto é, mais de cinco milhões de euros.

Ali ao lado, o Velódromo, palco do Ciclismo de Pista dos Jogos, custa 3,5 milhões de euros por ano (perto de um milhão de euros) porque para não se estragar o piso de madeira siberiana é necessário ter o ar condicionado ligado em permanência. O governo federal e o Comité Olímpico do Brasil estudam o que fazer com o espaço.

Em Deodoro, a única região carente do Rio a sediar parte dos Jogos, o Parque Radical fechou as portas em dezembro, quando o contrato com a empresa que geria o local terminou, e não tem data para reabrir. O circuito de canoagem, que em princípio se transformaria em piscina para as populações do bairro, está fechado. Assim como outras áreas supostamente para utilização de comunidades locais como o Centro de BMX, o Centro de Hipismo, o Centro de Hóquei, o Centro de Mountain Bike e a Arena da Juventude. O Ministério do Desporto assinou um acordo de cooperação com o exército que prometeu realizar meros quatro treinos e quatro provas nos locais ao longo dos 365 longos dias de 2017.

Para um público completamente diferente, o Parque Olímpico de Golfe, erguido numa área ambiental da mais exclusiva Barra de Tijuca, funciona sem problemas na base do aluguer do espaço com tarifas perto dos 100 euros por pessoa. No entanto, a infraestrutura também corre o risco de fechar por questões judiciais por causa de um suposta dívida da Confederação Brasileira de Golfe a uma empresa privada.

Outro dos símbolos dos Jogos – da cidade e do futebol mundial – o Estádio do Maracanã continua fechado e sem calendário de eventos à vista. O consórcio que o administra, composto por governo do Rio e pela construtora Odebrecht, envolvida até à raiz dos cabelos na Operação Lava-Jato que investiga escândalo de corrupção multimilionário na petrolífera estatal Petrobrás, tenta negociar a venda da concessão.

Ao Globoesportes, o Ministério do Desporto esclareceu que uma equipa da pasta começou a trabalhar no Parque Desportivo apenas a partir de dia 23 de janeiro, está em fase de estudo e cogita por ora fazer licitações para a manutenção e gestão das instalações sob sua responsabilidade. Órgãos ligados à prefeitura do Rio afirmam que “é inevitável” o cenário de obra porque “o Parque Olímpico está em processo de adaptação, desmobilização e desmontagem”.

A prefeitura carioca, assim como o governo do estado do Rio de Janeiro, enfrenta grave crise financeira, que levou até os seus responsáveis a declarar “estado de calamidade pública”. Serviços básicos de saúde, educação e higiene têm faltado. A Polícia Militar local entrou em greve – na realidade, em motim porque a greve não é facultada pela Constituição brasileira a agentes de segurança – com bloqueios em 27 dos 100 batalhões do Rio. Apesar do impacto diário nas populações não se comparar ao do vizinho Espírito Santo, em caos absoluto, do jogo entre Botafogo e Flamengo do fim de semana resultou um morto e sete feridos em confrontos por défice de contigente policial.

Neste cenário, os Jogos Olímpicos e Paralímpicos que durante um mês produziram campeões, como Michael Phelps, Usain Bolt ou Simone Biles e momentos magníficos para todos os amantes do desporto não passam de uma memória passageira. E essa memória passageira, e pouco mais, é até ver o único legado da aventura olímpica do Rio de Janeiro.

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