Rubens Menin: "O mundo ideal é aquele em que, para ganhar dinheiro, é preciso investir e correr riscos"

Empresário brasileiro, que já investiu quase 100 milhões de euros no Douro, falou ao DV sobre os entraves da burocracia portuguesa e a dificuldade de o país se vender bem fora de portas.
Rubens Menin deverá continuar a investir no Douro
Rubens Menin deverá continuar a investir no Douro
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É um dos homens mais ricos do Brasil, dono da CNN Brasil e com negócios na construção, desporto e banca. Rubens Menin foi recentemente entronizado confrade da Confraria de Vinho do Porto. No ano passado colocou no mercado dois vinhos do Porto de 80 anos, cujas garrafas de 50cl custam mais de 1500 euros. Numa conversa com o Dinheiro Vivo, o empresário falou da importância de correr riscos, de trabalhar de perto com as universidades e os outros produtores de vinho do Porto e pediu mais responsabilidade às elites, num momento em que o mundo são só incertezas.

O que torna a região do Douro tão atrativa para os seus investimentos e qual é o seu verdadeiro potencial?

Eu acredito muito na qualidade e no potencial do terroir da região do Douro. No passado, vi uma região muito menor, Priorat, ali em Espanha, ser "descoberta" e explodir com vinhos de excelente qualidade e preços elevados. O Douro é assim também, como um tesouro, mas muito maior. E a Universidade de Trás-os-Montes tem contribuído muito para isso. Enquanto outras regiões de Portugal já faziam vinho de mesa há muito tempo, o Douro só começou a fazê-lo a sério nos anos 2000. É uma região abençoada. E olhe que eu conheço praticamente todas as regiões produtoras de vinho do mundo. O Vinho do Porto é o grande embaixador do Douro no mundo. É impressionante o que está a acontecer: hoje em dia, qualquer restaurante na China, Estados Unidos, Canadá ou Brasil tem Vinho do Porto. Os consumidores internacionais gostam muito do tawny. O Vinho do Porto é um produto único, exclusivo do Douro, tal como o champanhe é de Champagne, e isso significa que também é um produto do mundo, sendo único no mundo! E devia ser vendido como tal…

Quais são os planos de crescimento e de investimento da Menin Douro Estates na região?

Acabámos de comprar mais um pedaço de terra ao lado da nossa propriedade. Também temos a HO (Horta Osório) no Baixo Corgo, na região de Santa Marta. Atualmente, estamos no processo de aprovação do projeto para uma adega nova, de forma a aumentar a nossa capacidade. Este ano prevemos colher 500 toneladas de uva, o que dará cerca de 500 mil garrafas. O nosso potencial com a terra nova é de 600 toneladas, mas o nosso sonho é chegar às 1000 toneladas. Não sei se vamos conseguir, até porque temos a teoria de não comprar uva de fora, mas é o sonho. Queremos também investir no enoturismo para completar o ciclo. Já temos uma estrutura a funcionar, mas temos em projeto uma ampliação com um espaço de eventos, mais salas de provas e um restaurante. Para além disso, precisamos de melhorar a infraestrutura local. O meu sonho seria a construção de uma ponte no Ferrão, junto à paragem do comboio, semelhante à ponte do Pinhão. E até entraria nesse investimento. É uma zona muito apropriada em termos de topografia e não seria cara, mas daria um impulso económico e de enoturismo gigantesco à região. Portugal e o seu verdadeiro potencial ainda não são totalmente conhecidos no mundo. O vinho português ainda é mal vendido lá fora, e produtos excecionais como os queijos e os enchidos (que têm uma qualidade equivalente ao Pata Negra espanhol, mas por metade do preço) continuam por descobrir. Além disso, Portugal tem uma história riquíssima desde o século I que deve ser promovida, motivando as pessoas a visitar e conhecer a fundo regiões históricas como o Porto, Braga e Guimarães.

Como é que a sua experiência em setores tão diversos como media, banca e construção ajuda na gestão deste projeto no Douro?

Hoje, aos 70 anos, já não sou executivo, sou o chairman das empresas. Isso significa que eu, basicamente, penso. E a minha experiência ajuda-me a ter uma visão mais alargada do negócio, mas menos operacional. Claro que isto só é possível porque temos equipas e pessoas qualificadas; não se faz nada numa empresa sem gente. Na Menin, temos pessoas extremamente importantes, como o nosso enólogo chefe, Tiago Alves de Sousa, que considero mágico, e o seu assistente, Manuel. Além disso, a Menin é extremamente organizada em termos gerenciais. Na nossa sede administrativa, perto de Vila Real, conseguimos analisar todos os dados, desde o custo por hectare às indicações de plantio. Ter informação de qualidade dá-nos a tranquilidade necessária para investir.

Disse que Portugal se vende mal no mundo. Os empresários deviam trabalhar mais em conjunto? Estaria disponível para o fazer?

Considero que a união é fundamental. Precisamos de unir as empresas em prol de objetivos e metas comuns e lutar por isso de forma conjunta. Os "Douro Boys" chamaram a atenção para a região na altura em que foi necessário, mas hoje já não estão com a força que tinham. Nós não conseguimos nada sozinhos. Quanto mais pessoas estiverem a beber vinhos de Portugal e Vinho do Porto, melhor para o setor, mas para isso precisamos do apoio de todos. Como proprietário da CNN Brasil, tenho procurado fazer a minha parte. Já vamos no quinto programa transmitido sobre Portugal e os seus vinhos, no Brasil. Nesses programas, promovemos não apenas o Douro, mas todas as quintas de Portugal, porque é importante mostrar aquilo em que acreditamos. Portugal ainda não se vende bem e o seu potencial não é totalmente conhecido.

Falou da Universidade de Trás-os-Montes há pouco. Era importante reforçar o trabalho entre academia e empresas?

No Brasil, as empresas trabalham de forma muito mais integrada com as universidades do que em Portugal, onde essa ligação ainda é rara e considerada fraca. Por exemplo, na nossa construtora no Brasil, a MRV, temos quase 1000 estagiários que fazem formação profissional prática durante a graduação. Na Menin, também aplicamos esta filosofia: recebemos muitos estagiários de enologia, bioquímica, turismo e enoturismo. O Tiago Alves de Sousa, que também é professor universitário, traz turmas para visitar a nossa adega e ver o processo produtivo. Temos uma excelente parceria com a universidade e apresentamos um índice de aproveitamento de estagiários muito alto ao fim do estágio.

Portugal é conhecido pela burocracia e muitos falam de entraves ao investimento. Gostava de ter a sua opinião sobre isso…

O Brasil e Portugal partilham de uma burocracia complexa e pesada que atrapalha os investimentos. Nos Estados Unidos, por exemplo, a burocracia é muito menor. Em Portugal, a aprovação de projetos é muito demorada e lenta, como temos sentido na pele. Como empresário vindo do Brasil, estou habituado a este tipo de entraves, mas o ideal seria que não existissem. A população portuguesa está ciente disto e é algo contra o qual se tem de lutar de forma organizada. Vou contar-lhe algo, e falo do fundo do coração: eu sou descendente de portugueses e italianos – o meu nome Menin é italiano, Teixeira de Sousa é português, então estou à vontade (risos). Dos povos latinos, o português é o mais bem-educado, mais polido, mais erudito, mais fino. Então, temos de aproveitar o que tem de bom na cultura portuguesa, que essa cultura de delicadeza, simpatia e botar um pouco de pimenta do inglês, do sangue saxão que tem até uma participação grande na região do Douro para poder dar mais dinamismo à economia. Eu acho que isso é o ideal.

O senhor tem falado publicamente sobre a necessidade de controlar as taxas de juro. Como analisa o atual momento económico global e como se planeia na incerteza?

O mundo ocidental atravessa um momento muito complexo. As taxas de juro estão elevadas, embora tenham começado a cair nos Estados Unidos. Quanto mais alta é a taxa de juros, menor é o investimento. As taxas de juro elevadas favorecem o "rentista". O rentista prefere deixar o dinheiro a render juros de forma tranquila no banco em vez de correr o risco de investir na economia real. No entanto, o mundo ideal é aquele em que, para ganhar dinheiro, é preciso investir e correr riscos. Adicionalmente, vivemos sob uma pressão inflacionária muito grande, complementada pelas guerras na Ucrânia e no Irão. Planear neste cenário de grande incerteza é possível, mas é muito mais desafiador; exige fazer as contas de forma ainda mais rigorosa para não errar.

Tem muita experiência em vários mercados, contextos políticos e ciclos económicos. Acha que os empresários podem ter uma voz mais participativa na delineação de políticas económicas?

Acho que não só os empresários, acho que toda elite deve participar –intelectuais, todo mundo que tem algum conhecimento que possa ajudar a disseminar pela sociedade, deve participar. E a forma correta de fazer isso é através das associações de classes. Faço isso no Brasil. Essas associações se reúnem, discutem os problemas e levamos àqueles de direito para poder discutir. Funciona. Todas as vezes que a gente tem uma coisa que a associação de classe abraça e leva para frente, dá certo. Eu acho que a elite, como um todo, foi pouco participativa nos últimos tempos; só queria usufruir das coisas, mas não queria ajudar. Eu acho que hoje é o momento para uma elite que seja mais participativa e trabalhe, não em prol dela mesma – porque no passado trabalhava em prol dela mesma – mas em prol do todo. Eu não falo isso com nenhuma demagogia, eu falo porque acredito nisso. Se nós não tivermos essa mentalidade, eu acho que a coisa caminha de forma mais lenta.

Se pudesse deixar um recado ou conselho aos governantes portugueses, mesmo em vésperas de ser conhecido o Orçamento do Estado para 2027, qual seria?

Na vertente económica, qualquer governo tem de focar-se em três lutas essenciais: primeiro, contra a inflação; segundo, contra os juros altos; e terceiro, contra a burocracia. Para combater a burocracia, é indispensável haver planeamento estratégico. Portugal precisa de planeamento para infraestruturas. O projeto do comboio de alta velocidade ligando Lisboa, Porto, norte de Espanha e Madrid é importante e está a sair do papel, mas precisamos de planeamento contínuo para aeroportos e pontes.

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