A Ryanair prepara-se para investir 50 milhões de euros na abertura de dois novos centros de treino para pilotos e tripulantes. Um deles deverá nascer na Península Ibérica e em cima da mesa estão como hipóteses as cidades do Porto e de Madrid. A low-cost admite estar já em negociações com as autoridades da Invicta, rejeitando uma possível aposta em Lisboa, e o desempate com o país vizinho irá depender das condições oferecidas.
"Temos muitas rotas no Porto da mesma forma que também temos em Madrid. A questão será qual a cidade que irá oferecer o melhor terreno para as instalações para um centro de treino", revelou esta quinta-feira o CEO da low-cost, Michael O'Leary, durante um encontro com jornalistas, em Dublin. Os timings para o arranque do projeto não estão ainda definidos mas a localização deverá ficar fechada ainda este ano.
Além da Península Ibérica, a companhia de baixo-custo irlandesa está ainda a estudar a abertura de um segundo centro de formação na Polónia ou na Eslováquia. O investimento faz parte da estratégia de crescimento da transportadora que pretende contratar mil pilotos nos próximos oito meses e três mil tripulantes de cabine até ao próximo verão.
"Queremos ter centros de treino localizados nestes mercados e podemos abrir bases nesses países com nativos dessas nacionalidades", acrescentou o responsável.
"Não vamos crescer em Lisboa nos próximos dois anos"
Ao contrário do Porto, onde a Ryanair pretende continuar a investir, em Lisboa o cenário é diferente devido à falta de capacidade aeroportuária da Portela. "Não vamos crescer em Lisboa nos próximos dois anos porque não há slots. Crescemos de forma expressiva no último inverno, porque havia slots disponíveis, mas não havia no verão e tivemos de retirar quatro aviões de Lisboa em abril", admitiu O'Leary.
O CEO da Ryanair não se mostrou surpreendido pela cedência dos 18 slots da TAP à easyJet, ao contrário do que demonstrou nos últimos meses enquanto decorria o concurso de Bruxelas. Depois de defender meses a fio que a Ryanair era a única companhia com condições para ganhar o concurso, Michael O'Leary mudou o discurso e desvalorizou o desfecho.
"A easyJet ganhou porque não é concorrente da TAP. Ambas cobram tarifas altas", justificou.
O gestor apontou ainda o dedo à capacidade aeroportuária da capital "A ANA diz que a capacidade da Portela é de 20 milhões de passageiros. Dublin, por exemplo, só tinha uma única pista (até à semana passada) e não ficava cheio com 30 milhões de passageiros. A ideia que o aeroporto de Lisboa fica lotado com 20 milhões de passageiros é uma anedota", acusou.
O CEO apontou o dedo ao governo e ao atraso na decisão sobre a construção de uma solução à Portela. Reiterando os elogios ao Montijo, O'Leary não poupou críticas a Alcochete. "Imaginam o que é gastar milhões de euros para criar um aeroporto a 50 quilómetros de Lisboa. Quem iria usá-lo? 50 quilómetros é muito longe", disse.
Aumento dos preços não dita fim das low-cost
Questionado sobre as recentes declarações que davam conta do fim da era dos preços baixos, o CEO da low-cost irlandesa esclareceu. "O que eu disse foi que não vamos voltar a ver voos a custar 9,99 euros. O fim das tarifas baixas não está aqui. Nos próximos cinco ou seis anos a nossa tarifa média, que antes do covid era de 14 euros, pode subir para 15 ou 20 euros", esclareceu, admitindo que a forte procura dos últimos meses é a responsável pelas tarifas mais elevadas.
"Nunca aumentámos preços, os passageiros é que determinam os preços. As nossas reservas estão fortes como no pré-covid. Este inverno vamos adicionar 10 mil voos, a easyJet vai reduzir a capacidade em 25%, e a Iberia está a operar a 80%do pré-covid", exemplificou.
O gestor acredita ainda que "nos próximos dois anos haverá uma transferência de passageiros de outras companhias para Ryanair" devido às tarifas mais baixas face aos concorrentes.
Michael O'Leary mostrou-se satisfeito com a operação deste ano, que diz estar já 15% acima do pré-pandemia, e revelou que a procura para os meses de inverno também já é expressiva. A Ryanair espera encerrar o ano fiscal com mil milhões de euros em receitas e 165 milhões de passageiros transportados. O objetivo é chegar à meta dos 226 milhões de passageiros nos próximos quatro anos.
*A jornalista viajou para Dublin a convite da Ryanair