Salesforce vê Portugal como um dos "motores" de crescimento na Europa

Multinacional especialista em CRM abriu subsidiária portuguesa há um ano. Escritório em Lisboa inaugurado em março. Verticalizar serviços é a estratégia. Benfica é o cliente mais recente.
Publicado a

Depois de abrir uma representação em Portugal há um ano, a Salesforce, uma multinacional de origem norte-americana especialista em CRM, acaba de abrir escritório em Lisboa, um passo em frente num mercado considerado um dos motores de crescimento na Europa.

Num almoço com jornalistas, esta quarta-feira, o country leader da Salesforce, Fernando Braz, revelou parte da estratégia para o mercado português, explicando que a verticalização de serviços marcará a abordagem ao mercado nacional, cujo foco passará pelas pequenas e médias empresas (PME). No âmbito dessa estratégia, Fernando Braz sublinhou a ambição de recrutar e a aposta na plataforma Slack - adquirida no último ano por 27 mil milhões de dólares - para inovar e angariar novos clientes.

A Salesforce já prestava serviços em Portugal antes de 2021, mas a abertura de uma representação local aumentou a relevância do país, de acordo com Fernando Braz. Desde logo, porque a operação local "segue a tendência de crescimento" da operação global.

No último ano fiscal, que terminou a 31 de janeiro, as vendas da Salesforce cresceram 25%, para 26 mil milhões de euros, em termos homólogos, com a região EMEA (Europa, Médio Oriente e África) a representar 35% desse valor. "Portugal cresceu bastante no último ano", segundo o country leader, que não especificou dados locais. No entanto assegurou que o país, a par de outros mercados no sul da Europa, "são um importante motor deste crescimento". "O balanço geral foi muito positivo, realçou Fernando Braz.

Escritório português e recrutamentos

Este crescimento precedeu a abertura do escritório da Salesforce, "inaugurado há 15 dias" nas Torres de Lisboa. O gestor da operação local indicou que se trata de um espaço com capacidade para até 15 pessoas, privilegiando um modelo de trabalho hibrido. A empresa tem operado remotamente em Portugal desde o início da pandemia, sendo que o novo escritório servirá para receber os trabalhadores que prefiram trabalhar num espaço da empresa, "sobretudo para reuniões de grupos de trabalho" e para os trabalhadores "onboarding" (que ainda estão em fase de integração). "Trabalhar a partir de qualquer lugar" é o mote global do modelo de trabalho da empresa, por estes dias.

Questionado sobre a dimensão da estrutura portuguesa, o gestor garantiu haver "centenas" a trabalhar para o mercado de Portugal. Não especificou um número, mas garantiu que a empresa está e "vai continuar" a recrutar para Portugal. Segundo Fernando Braz, a Salesforce tem surgido nas "preferências" de jovens talentos. "Temos a previsão de gerar 11 mil postos de trabalho diretos e indiretos, até 2025, em Portugal", reiterou - um dos centros tecnológicos que a Deloitte vai abrir focar-se-á "na economia salesforce".

"Vamos ter um número grande de trabalhadores em comparação com outras operações [da região EMEA]", garantiu. Esse objetivo será uma forma de apoiar o grupo a atingir a meta dos 50 mil milhões de dólares em vendas até 2026, o que representa uma "duplicação em quatro anos".

Não obstante, para já, "não há uma meta" para novas contratações para operação portuguesa. Segundo o country leader da Salesforce Portugal, as vagas vão abrindo consoante as necessidades nas áreas de foco da empresa - CRM, marketing, indústria ou cloud.

Abordagem ao mercado português: o caso Benfica

No mesmo encontro, o country leader salientou que a estratégia atual e futura da Salesforce passa por alinhar a estrutura de vendas e apoio técnico às necessidades de cada setor. Como? Verticalizando serviços, e Portugal não será diferente nesse quadro.

Hoje, a Salesforce fornece 12 tipos de serviços alicerçados em cloud, para cada setor. Todos centrando a atividade das empresas-clientes, em setores como o financeiro, tecnológico, energético, de retalho ou media.

Essa lógica traduz-se, no caso português, em mais clientes. O Novo Banco, a Sonae, o grupo Brodheim e a empresa Costa Nova são algumas das marcas que estão a investir na transformação digital com a Salesforce. O Benfica também, sendo o clube liderado por Rui Costa o cliente mais recente.

O clube da luz contratou a plataforma de CRM (gestão de dados e relação do cliente) da Salesforce, a fim de gerar mais receitas com um tratamento digital mais refinado sobre os dados gerados pelos adeptos nas plataformas das águias.

O Benfica quer segmentar preferências e traçar o perfil dos adeptos e sócios, a fim de ser capaz de reter cada vez mais sócios ou fazer crescer a faturação com origem nos interesses dos adeptos (bilhetes e merchandising), de acordo com Fernando Braz.

O gestor considerou o Benfica um caso de sucesso de "empresarialização" de um player num setor onde seria "improvável isso acontecer". Elogiando o trabalho de Domingos Soares Oliveira, enquanto CEO do Benfica, Fernando Braz fez saber que, a partir de agora, o clube "tem a informação toda e pode fazer segmentações e criar campanhas personalizadas". Ainda "há vontade de fazer outros projetos" através da Salesforce, cuja plataforma fornecida ao Benfica inclui CRM, marketing e serviço a clientes.

No fundo - notou o gestor - o clube de futebol vai "tirar um maior partido das suas ferramentas digitais na comunicação e envolvimento com os seus sócios e adeptos", construindo "uma base de conhecimento centralizada".

Numa nota enviada à redação, o chief information officer do clube, João Capeto, indicou que a "otimização digital é a chave para o conhecimento do universo Benfica, para a rentabilização do investimento já realizado, e para a geração de novas receitas".

Transição digital? "Até às grandes empresas falta uma visão contínua"

O caso do Benfica é paradigmático para Fernando Braz. Isto, considerando que a transição digital em voga no país preocupa, pois as operações de cada empresa são, hoje, cada vez mais globais, independentemente da geografia de onde partem os serviços. E isso "influenciará a economia portuguesa".

O country leader receia que a transição digital, que tem sido muito falada por diferentes empresas, de diferentes setores - muito alavancada pelo contexto pandémico - não seja consequente. "Não há um plano e não há uma consequência", referiu.

"A mim preocupa-me, como português, o facto de as nossas empresas terem abraçado as tecnologias digitais durante a pandemia, para ter algo transacional, mas depois não haver um plano", afirmou o country leader da Salesforce Portugal.

O gestor considerou que "até as empresas de grande dimensão não têm uma visão contínua". "Os nossos empresários vão perder espaço para os globais, que não têm a mesma preocupação que uma empresa local", afirmou.

Por isso, um dos pilares de ação da Salesforce Portugal passa pelas PME. No entanto, sem esquecer o segmento enterprise (das grandes empresas), segundo Fernando Braz.

Nessa lógica, a inovação da empresa passa por aproveitar a plataforma Slack, que após a aquisição sofrerá mudanças para integrar diferentes e novas aplicações de negócio da Salesforce. A ideia, de acordo com o que Fernando Braz explicou, é tornar a plataforma num espaço de trabalho corporativo "unificado", que sirva de apoio para "todas as soluções". "Permitirá que as empresas possam mais facilmente construir aquilo a que chamamos as suas sedes digitais", explicou.

Diário de Notícias
www.dn.pt