O conjunto das sanções impostas à Rússia ao longo dos últimos dias, incluindo o bloqueio a que grande parte do sistema financeiro russo aceda à rede internacional de comunicações de pagamentos SWIFT e a que o banco central da Rússia movimente reservas no estrangeiro, fez ontem afundar o rublo e levou o banco central da Rússia a subir juros para mais do dobro e a impor já alguns controlos de capitais. A corrida aos depósitos também ameaça a banca russa, com o Banco Central Europeu (BCE) a alertar já ontem para o risco de insolvência da filial europeia e subsidiárias do maior banco russo, o Sberbank.
As medidas restritivas coordenadas, que aliam Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido, andam a par de desinvestimentos relevantes já anunciados pelas petrolíferas BP e Shell e pelo fundo soberano da Noruega, ao mesmo tempo que a Federação Russa é afastada de competições desportivas internacionais e impedida de sobrevoar os céus europeus.
Mas, estão longe de esgotar as ações possíveis para secar fontes de financiamento de Moscovo. Prosseguem as compras de energia, das quais a União Europeia depende sem alternativas viáveis, a barreira SWIFT ainda deixa 30% do sistema financeiro russo ligado ao sistema de pagamentos internacional e os investidores continuam a poder comprar e vender dívida soberana russa nos mercados secundários.
Para já, os efeitos do bloqueio a Moscovo são considerados significativos. Um dos mais visíveis foi ontem o afundamento da divisa russa nos mercados cambiais, com o rublo a cotar-se à hora de fecho desta edição 20% abaixo da marca do dia anterior frente ao euro, nos 112,7 rublos. A quebra face ao dólar norte-americano chegou aos 29%, com a moeda russa a rondar os 118 rublos por dólar antes da intervenção do banco central russo. Este reagiu no apoio ao rublo com uma subida da principal taxa de juros do país dos 9,5% para 20%, ao mesmo tempo que introduziu restrições à quantidade de moeda estrangeira nas mãos de exportadores russos.
Ao mesmo tempo, as sanções europeias e norte-americanas estão também a impedir o banco central de movimentar ativos localizados fora da Rússia, enquanto que o bloqueio financeiro ameaça a liquidez das instituições financeiras russas. A corrida aos depósitos levou já ontem o BCE a alertar para o risco de falência da filial europeia do Sberbank, na Áustria, e duas sucursais na Croácia e Eslovénia da instituição de controlo estatal.
"Esperamos que as sanções impostas nos últimos dias tenham um efeito dramático no sistema financeiro russo, assim como na economia do país como um todo", refletiu ontem um longo relatório de análise do Instituto Internacional de Finanças (IIF, na sigla em inglês), associação com sede em Washington que reúne os principais bancos e seguradoras mundiais. Para limitar a corrida aos bancos, antecipa, o banco central russo poderá ainda introduzir controlos de capital mais rigorosos e ordenar o encerramento dos bancos, impedindo o levantamento de depósitos.
Segundo o IIF, o impedimento a que o banco central mobilize reservas nas jurisdições ocidentais poderá ser também significativo, ainda que Moscovo tenha vindo nos últimos anos a converter-se cada vez mais para ativos como o ouro e a moeda chinesa, ao mesmo tempo que diminui reservas denominadas em dólares e euros.
Ao longo dos últimos anos, a Rússia tem vindo também a fortalecer a capacidade da rede de pagamentos doméstica e a estabelecer ligações com a rede nacional de pagamentos chinesa, reduzindo a dependência do sistema SWIFT. Ainda assim, é de esperar um forte impacto deste último bloqueio para as trocas internacionais da Rússia. E com impacto particular para a Europa.
"O comércio com a União Europeia será particularmente atingido de forma severa, uma vez que a União Europeia representa mais de 35% dos fluxos brutos de comércio russos de mais de 700 mil milhões de dólares por ano. Só as importações de combustíveis minerais pela UE alcançam perto de 100 mil milhões de dólares", refere o IIF.
De acordo com os dados do Observatório de Complexidade Económica do MIT, em 2019 a Rússia exportou para os 27 países da UE um valor de 161 mil milhões de dólares, mais de dois terços em petróleo e gás. Países Baixos, Alemanha, Polónia, Itália e Finlândia eram nesse ano os principais importadores de petróleo russo do bloco. Portugal representava 0,4% das compras (ou 551 milhões de euros).
Uma hipotética restrição às compras de energia à Rússia seria, ao nível de bloqueio ao financiamento, a arma mais dura contra Moscovo. Mas com efeitos de ricochete vistos até aqui como não aceitáveis para os países europeus, sem alternativas viáveis ao petróleo e gás natural russos.
Nas contas do Instituto Internacional de Finanças, as taxas cobradas pelas autoridades de Moscovo associadas a exportações energéticas e à exploração de minas e pedreiras representam 7% do PIB russo e uma importante fonte de receitas da Federação Russa.
Ainda assim, o escalar das sanções e retaliações poderá ainda assim limitar a capacidade de os países da União Europeia comprarem gás e petróleo à Rússia, com os analistas do IIF a entenderem que o bloco poderá ainda vir a ter de tomar medidas difíceis do lado da procura, como ordenar a paragem de indústrias não críticas, ou atrasar o encerramento de centrais a carvão ou a saída da energia nuclear.
Entretanto, e apesar de as sanções já impostas "constituírem ações multilaterais sem precedentes e sincronizadas, a porta permanece aberta para passos ainda mais drásticos caso a situação geopolítica o exija". "Os Estados Unidos e os seus aliados europeus podem limitar ainda mais o acesso dos bancos russos a dólares e euros, expandir a remoção do SWIFT a mais instituições, sancionar o mercado secundário de obrigações de dívida da federação russa existentes, e/ou eliminar as importações de energia da Rússia", elenca a associação internacional de bancos.