“Reduzir a frequência e a severidade dos acidentes, levará a um reflexo no preço para os consumidores”

Portugal é o país da Europa Ocidental que mais mortes de peões regista. Os acidentes com feridos graves aumentaram 10% em 2024, face a 2019 – dados de julho, os mais recentes publicado pela ANSR
Fiona Sage e Rosário Lima
Fiona Sage e Rosário LimaGerardo Santos
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A tudo isto não é alheia a nova realidade nacional: mais condutores na estrada (há atualmente cerca de 69 mil licenças de motoristas de TVDE ativas em Portugal); trotinetes e bicicletas elétricas à mão e uma infraestrutura desadequada aos novos tempos. Fiona Sage, Chief Claims Officer da região EMEA do Zurich Insurance Group, e Rosário Lima, Chief Claims Officer da Zurich Portugal falaram com o DN/Dinheiro Vivo sobre estes números e sobre a urgência de transformar a segurança rodoviária numa questão social.

Quando olhamos para os números da sinistralidade, Portugal compara muito mal com os seus pares europeus e é o sexto país da Europa com mais mortes na estrada. Como se explica isto?

Rosário Lima (RL): Há várias causas, e algumas delas surpreendem-nos hoje em dia, tendo em conta as tendências que todos sentimos para uma condução cada vez mais verde, elétrica, usando os meios alternativos de locomoção – as scooters, as bicicletas, andar a pé que é muito saudável – e. de facto, nós todos sentimos que este é o caminho certo. Mas depois somos confrontados diariamente com as nossas estradas. As formas como estão desenhadas são algo confusas e estas vias laterais junto às vias principais, por exemplo, que estão divididas apenas por uns pequenos pinos, facilmente ultrapassados pelos carros, são um desafio. As nossas infraestruturas não estão preparadas para a dinâmica do trânsito hoje em dia. Temos assistido, sobretudo nos últimos dois anos, a um aumento muito grande dos atropelamentos; e dos acidentes com bicicletas, trotinetes e veículos motorizados. E são esses acidentes que nos trazem muita preocupação pela gravidade das lesões que acarretam. E são, por norma, entre a população mais jovem – que é mais avessa ao risco, tem menos medo, enfim. Isso já sabemos. Mas acho que há aqui também outra questão, que é o civismo. Civismo é deixar passar alguém que já chegou ao cruzamento; é ceder passagem aos peões que estão a iniciar a travessia; é um conjunto de procedimentos que muitas vezes não fazemos bem, seja porque estamos stressados ou apressados. Quando olhamos para os nórdicos, sentimos exatamente que temos essa falta de civismo na utilização das passadeiras, nos sinais de paragem obrigatória, etc...há uma realidade muito nossa, muito endémica, que temos de mudar. É uma questão cultural dos países mais a sul.

Mais acidentes e mais feridos graves. É responsabilidade de vários agentes, portanto?

Sim: nossa, seguradores, que sentimos estas dores que não são apenas questões financeiras; dos municípios – que continuam a colocar passadeiras em lugares perigosíssimos; da polícia que podia atuar mais na área da dissuasão... E se não acordarmos para a realidade, isto vai trazer-nos, no futuro, não apenas um desafio de dar suporte as estes problemas – e como é natural, as seguradoras existem para gerar receitas aos investidores, portanto há aqui uma questão financeira – mas também porque sentimos que é um flagelo social. Estamos a falar de famílias que ficam completamente destruídas...Temos agora em regularização dois ou três cidentes que nos marcam sobretudo pela carga social que trazem: jovens que ficaram sem futuro e que destruiram toda a família. Um deles fez com que a família, que vivia em Angola, tivesse de se mudar para cá; a mãe teve de deixar de trabalhar para cuidar do filho...se não percebermos o nível deste impacto, não conseguimos alterar o rumo das coisas.

O que podemos aprender com os países do Norte? O que é que é facilmente replicável?

Fiona Sage (FS): A primeira coisa a dizer, numa perspetiva europeia, é que mais de 20 mil pessoas morreram nas estradas no ano passado. Isto representa uma redução de 1% em relação ao ano anterior, mas não é suficiente para atingirmos o objetivo de baixar em 50% o número de mortes na estrada na Europa até 2030. Por isso, este é um tema que todos os países devem continuar a considerar, mesmo os países do Norte. Como referiu a Rosário, esses têm um historial muito melhor. Por isso, penso que a primeira coisa a fazer é compreender o que está a causar todas estas fatalidades em Portugal. E há, genericamente, e transversal a todos os países, três fatores principais, que também se aplicam cá: o primeiro é a velocidade - não significa necessariamente violar o limite de velocidade. Pode ser uma velocidade inadequada para as condições existentes. A segunda é o consumo de algum tipo de substâncias intoxicantes: o álcool era o mais típico, mas vemos agora cada vez mais o surgimento de outras e aumento do consumo de drogas e uma ligação entre o consumo de drogas e os acidentes de viação. E a terceira, que é a causa número um de mortes nas estradas europeias, é a condução desatenta.

Olhar para o telemóvel enquanto se conduz?

FS: Não necessariamente. Há muita tecnologia nos carros, com os ecrãs, os sensores... Há também uma alteração na forma como as pessoas conduzem e usam as estradas, desde a Covid-19. Estamos a assistir a um aumento, em todo o lado, de scooters e bicicletas com motor. E estas, em algumas cidades, andam à mesma velocidade que os carros, mas são veículo não regulados, e na maioria dos países, não lhes é exigido qualquer seguro obrigatório, sequer. E também não é exigida qualquer tipo de formação ou licença para conduzir veículos que são muito potentes. Penso que todos estes fatores contribuem para o que estamos a ver na Europa e em Portugal. Portanto, o que podemos aprender com os outros países? Precisamos que isto se torne uma questão social que esteja na agenda social. É preciso que toda a sociedade assuma a responsabilidade por esta questão. É preciso ter capacetes, sem dúvida, mas também é preciso ter refletores e luzes e fazer com que os condutores nos vejam o mais facilmente possível. Isto é mesmo crítico. A outra coisa que considero ser crítica é a educação e comunicação. Educar as pessoas sobre por que é importante abrandar, por que é importante estar concentrado quando estamos a conduzir. É crucial! As campanhas sobre prevenção rodoviária que eu já vi resultar são aquelas que chocam. São, por norma vídeos muito gráficos que chocam as pessoas; vídeos que envolvem crianças, porque isso incomoda e faz-nos reagir e pensar efetivamente nas consequências das nossas ações. E creio que há outra coisa – e será a última que vou dizer sobre os países nórdicos – que é o facto de serem cuidadosos. São super conscientes de tudo o que concerne à segurança rodoviária, mas as regras, nesses países, são muito mais restritivas do que a sul. As multas são incrivelmente elevadas e são de pagamento compulsório. Na Noruega e na Suécia, por exemplo, que são os casos de que me lembro agora, a aplicação é automática. Sei de um caso, na Noruega, em que a pessoa recebeu uma multa de, imagine, 150 mil euros – não me recordo se era isto, mas era um valor desta envergadura – porque a multa é calculada em percentagem do seu rendimento anual - por conduzir 20% acima do limite de velocidade. Não estou a defender que é isso que tem de acontecer, mas acredito que quando a pessoa sente a consequência do seu ato, que quando lhe retiram 10% do seu salário anual, garantidamente só vai receber essa multa uma vez. As pessoas não mudam comportamentos a menos que sintam as consequências de forma concreta e dura.

RL: Em Portugal, um crime na estrada não é efetivamente considerado um crime. As sentenças não são duras o suficiente. Vemos infrações graves, negligentes, às vezes quase dolosas, de pessoas que estão a conduzir sob o efeito de álcool, drogas, com excesso de velocidade, têm um conjunto de comportamentos de tal forma gravosos que já constituem crimes. E nunca vi para estes crimes prisão efetiva. Sempre vi pena suspensa, uma multa – que não é 10% do salário – e é importante criar consequências penais quando o comportamento é de tal forma gravoso que quase atinge a intencionalidade.

Publico e privado deviam trabalhar mais em conjunto?

RL: Claro. Primeiro vem a lei, que funciona como um chapéu de chuva de que precisamos, não é? Mas depois vêm os hospitais, a polícia, as companhias de seguros, os municípios, as escolas, as universidades...e se cada um destes atores fizer a sua parte, claramente vamos conseguir reduzir o número de fatalidades na estrada, bem como o número de acidentes com consequências graves. Talvez seja importante também dizer que as clínicas, os centros que cuidam destas pessoas que ficaram severamente feridas em acidentes, sejam instituições públicas ou privadas, em Portugal, estão atualmente cheias... É por isso também que estou a dizer que temos de trabalhar em conjunto, e que cada um tem de fazer a sua parte.

FS: Creio que não temos escolha. Os setores privado e público e todas as instituições envolvidas têm de se unir para criar uma visão ou um plano, e é um plano a longo prazo, porque isto não vai mudar de um dia para o outro. Na verdade, deveríamos ter a ambição não apenas de diminuir as mortes, mas também de as eliminar. Todos os nossos acidentes são evitáveis. Os seguros estão aqui para ajudar, porque os acidentes acontecem. Mas conseguir chegar à prevenção seria muito melhor do que pagar as contas do hospital quando alguém fica gravemente ferido ou, pior ainda, pagar um funeral. s acidentes rodoviários são a causa número um de morte de crianças e jovens. Entre os 5 e os 24 anos, a principal causa de morte são os acidentes rodoviários. Isto é chocante! Mesmo. Fico arrepiado quando penso nisso, e fico chateada, porque são evitáveis. São tão evitáveis! E uma das razões para isso é o facto de os jovens correrem mais riscos, sabemos isso. Por isso, penso que as escolas têm um papel importante e nós, enquanto seguradoras, temos a oportunidade de ir às escolas e falar com os jovens sobre o que vemos.

Os carros são feitos, cada vez mais, para nos ajudar a conduzir melhor. Sensores, assistência na estrada... O que não está a funcionar?

RL: Bom, os condutores (risos).

FS: Há uma mistura de várias coisas, creio. Ao mesmo tempo que a tecnologia se torna mais presente nos nossos veículos e nos nossos automóveis, também assistimos a uma mudança na demografia dos consudores. No que se refere à tecnologia assistida nos automóveis, existe um pressuposto, no setor dos seguros, de que isso conduzirá a menos acidentes. De facto, conduz é a acidentes mais dispendiosos do ponto de vista dos danos, porque, quando acontecem, normalmente a tecnologia é muito cara para reparar. Mas vamos ignorar esse facto por um segundo. Embora a tecnologia esteja incorporada no automóvel, aparece como opcional – logo, pode não ser comprada. E, claro, também há os condutores, que muitas vezes a desligam! (risos) Portanto, ela está lá, mas não estamos a tirar proveito da sua existência. De qualquer forma, não se deve depender demasiado da tecnologia porque ela também falha. É preciso estar atento.

RL: Há muitos apelos e as pessoas têm uma vida muito preenchida. Estão mais intolerantes. É o telemovel, é o colega que está a fazer uma call enquanto conduz, nós que comemos uma sandes porque não temos tempo para almoçar, são tantas, tantas coisas. Quando ouvimos as descrições dos acidentes, não raras vezes as pessoas dizem: “Não sei como é que aconteceu”. Isso signfica que não estamos focados. A tecnologia, a quantidade de painéis coloridos que temos nos carros, a condução assistida...tudo é muito intenso e tudo nos desfoca da condução. E gostava também de dizer que nós não ganhamos dinheiro com o automóvel. A rentabilidade, em toda a Europa, é uma questão, precisamente por isto: pelos custos associados aos veículos, que são cada vez mais elevados; mas também, porque os acidentes com danos corporais têm um impacto significativo em termos de rentabilidade. Este é um verdadeiro problema, transversal, mas o valor qe nós cobramos aos nossos clientes são a repercussão do custo de sinistros. É bom que tenhamos todos esta noção. A redução dos acidentes ajuda, essencialmente, quem paga os nossos seguros.

Portanto, se todos nós tivermos menos acidentes, todos podemos pagar menos?

Sim! No final do dia, os consumidores pagam por estes acidentes: em prémios, em impostos que vão para os hospitais. Se nós conseguirmos reduzir a frequência e a severidade dos acidentes, obviamente que haverá um relfexo no preço para os consumidores.

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