Seca: uma inevitabilidade

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Neste quente final de fevereiro, marcado pelo crescendo da tensão no Leste da Europa, um outro assunto tem desaparecido dos holofotes mediáticos, apesar do seu potencial tremendo para fomentar ou agravar conflitos entre povos: a seca.

O acesso à água tem estado associado, ao longo da história, à origem de guerras entre povos. Delas há registos desde 2500 a.C., quando a cidade suméria de Lagash desviou canais da região do Tigre-Eufrates para isolar a rival Umma. Com as alterações climáticas, cada vez mais iremos ser confrontados com situações similares, à medida que a seca vá afetando mais regiões e países: ainda esta semana a inauguração da intitulada "Grande Barragem do Renascimento Etíope", no Nilo Azul, veio agravar as tensões entre Etiópia, Egito e Sudão.

Estas não são preocupações (geograficamente) distantes ou de âmbito sazonal. Portugal - que já tem sido cronicamente afetado, nos últimos largos anos, em particular no sul do país - conta, neste momento, segundo os registos do IPMA, com 91% do território continental em seca severa ou extrema.
O aviso é claro: não esqueçamos que zonas que hoje são desérticas já foram florescentes e que, se nada for feito, zonas que atualmente são florescentes tenderão a desertificar-se. Fenómenos que antes levavam centenas de anos para se instalarem, atualmente, devido à vertigem das alterações climáticas, podem ocorrer em escassas dezenas de anos.

Portanto, este problema não vai desaparecer às primeiras chuvadas da primavera nem pode ser esquecido se a este período seco se seguir um outono/inverno de 2022/23 mais chuvoso: a gestão dos recursos hídricos tem de ser olhada numa perspetiva permanente de médio/longo prazo.

A tecnologia e o conhecimento científico podem - e devem - ajudar a resolver este problema, sendo certo que ele deve ser colocado numa perspetiva transversal e interdisciplinar. A sua influência no planeamento do território, na economia, na saúde e no bem-estar é incontornável.

Um país que não tenha um plano estratégico para lidar com o problema da falta de água irá sofrer muito mais perante essa inevitabilidade. Esperemos, pois, que este - como os outros desafios da sustentabilidade - seja um dos assuntos prioritários para o novo Governo. Assim como esperamos que o adiamento da sua tomada de posse, devido à repetição das eleições no círculo da Europa, não impeça o Executivo "de gestão" de tomar, no imediato, as medidas mais urgentes de resposta à seca.

Reitor da Universidade de Coimbra

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