Sem lucro, sem vitórias, sem crédito: o problema financeiro do Sporting

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Dois anos e quatro treinadores depois,

o Sporting Clube de Portugal está de volta a um processo eleitoral,

que será decisivo para o futuro do clube. A direção que for eleita

a 23 de março terá de resolver o mais grave de todos os problemas

que se vivem em Alvalade: o saneamento financeiro. A equação é

simples. O clube gasta mais que o que encaixa e está à beira da

insustentabilidade.

No primeiro trimestre da época

2012/2013, que terminou a 30 de setembro, a SAD leonina reportou

prejuízos de 7,7 milhões de euros e uma quebra de 14% nos proveitos

operacionais, em relação ao mesmo trimestre de 2011. Quase tudo

caiu: a bilheteira rendeu menos 31,6%, os patrocínios recuaram 4,5%,

o merchandising caiu 6,2% e os direitos televisivos renderam menos

7,5%.

As quotizações dos sócios também caíram 70%, porque a SAD

passou a receber apenas 25% (os restantes vão para o Clube). Ao

mesmo tempo, os custos operacionais subiram 10,6%. Ou seja, o

Sporting gastou 16,447 milhões de euros num período em que encaixou

9,5 milhões.

Até ao final da temporada, o Sporting

precisa de uma injeção de 30 milhões de euros para cumprir

compromissos (salários e despesas correntes), segundo avisou Godinho

Lopes. O presidente demissionário assegurou o pagamento dos

salários de janeiro, mas não está garantido o de fevereiro e

março, sendo as eleições a 23 de março.

Com BES e BCP como principais credores,

o Sporting estava a negociar uma reestruturação financeira, que foi

suspensa com a convocação da Assembleia Geral, desmarcada pela

demissão em bloco. Na quinta-feira, a SAD enviou um comunicado à

Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) para negar

qualquer entendimento com a banca, como tinha sido avançado na

comunicação. Não há perdões nem redução de taxas de juros; no

primeiro trimestre, a dívida financeira de médio e longo prazo era

de 74,6 milhões de euros e a de curto prazo 55,3 milhões.

As contas do trimestre repetem a

história da época passada. Em 2011/2012, os proveitos operacionais,

excluindo transações de jogadores, foram de 40,765 milhões de

euros, enquanto os custos com pessoal atingiram 42,5 milhões. O

Sporting gastou 104% do que ganhou, algo que não tinha acontecido

nas duas épocas anteriores. Em 2009/2010, os custos com pessoal

foram 68% dos proveitos e em 2010/2011 foram 84%.

Na época passada, o EBITDA (lucros

antes de impostos) foi negativo em 18,9 milhões, e teria sido ainda

pior sem a venda de jogadores (-24,5 milhões). Isto numa época em

que a equipa principal de futebol atingiu as meias finais da Liga

Europa e por isso arrecadou 3,3 milhões de euros, mais que na época

antecedente.

Agora, em 2012/2013, o mesmo não

sucederá. A equipa foi eliminada ainda na fase de grupos e só

ganhou um jogo, empatando outros dois. Dada a fraca prestação da

equipa, as assistências em Alvalade estão abaixo da média e a

tendência de diminuição das quotas dos sócios deve continuar.

"Há que diminuir custos",

sublinhou ao DN José Maria Ricciardi, vice-presidente do Conselho

Fiscal e Disciplinar demissionário. O primeiro passo foi dado com o

mercado de inverno, em que, segundo fonte do clube, houve uma

"redução substancial" da massa salarial com a saída de vários

jogadores da equipa de futebol. Todavia, estas saídas não

significam um encaixe significativo: apenas Daniel Carriço rendeu

750 mil euros com a transferência para o Reading. Izmailov foi para

o Porto em troca de Miguel Lopes, Insúa foi para o Atlético de

Madrid para pagar uma dívida, Gelson, Pranjic e Elias foram

emprestados e Pereirinha saiu a custo zero para a Lazio.

O futuro

A crise de financiamento que se vive em

Portugal é generalizada, mas atinge o Sporting de forma mais aguda

que os outros "grandes": à ausência de vitórias relevantes no

futebol na última década junta-se a instabilidade interna, o que

torna o clube menos capaz de atrair investimentos e conquistar

maiores patrocínios. O DN/Dinheiro Vivo tentou obter mais dados

sobre a situação financeira do Sporting no que resta da época, mas

a direção demissionária optou por não fazer declarações. O

responsável pelas relações com investidores, José Castro Guedes,

também não adiantou informações. O diretor do Sporting para o

futebol, Paulo Farinha Alves, considerou que está fora do seu âmbito

comentar o estado financeiro do clube.

Para já, Bruno de Carvalho é o único

que confirmou a candidatura à presidência do clube, referindo que

vai procurar "parceiros financeiros" para resolver a crise no

clube.

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