Separação de África deixa BPI mais vulnerável a fusões e aquisições

A separação dos negócios em África, sobretudo de Angola, da atividade doméstica foi a solução encontrada pelo BPI de Fernando Ulrich para resolver o problema causado pelas exigências do BCE, que pretende que o banco reduza a elevada exposição ao risco. No entanto, ao solucionar um problema, o banco irá criar um novo: tornar-se vulnerável a possíveis movimentos de consolidação.
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Ou seja, ao ficar apenas com a atividade doméstica, o BPI passa a ser um alvo apetecível para uma possível fusão ou aquisição. Assim, guardada há vários meses na gaveta, a união com o BCP - proposta por Isabel dos Santos como resposta à OPA lançada pelos espanhóis do Caixabank sobre o BPI - poderá voltar à mesa das negociações, caso a cisão se concretize.

"Provavelmente, sim. A confirmar-se a separação dos negócios, o BPI ficaria com a parte doméstica", afirma Albino Oliveira ao DV sobre a vulnerabilidade do BPI. O analista da Fincor explica que "tendo em conta a baixa taxa ROE [rentabilidade dos capitais] que este segmento do negócio apresenta, a administração do banco terá provavelmente de considerar opções estratégicas de natureza orgânica (reestruturação do negócio, através da redução da base de custos) ou explorar eventuais oportunidades na área das fusões/aquisições". Outra fonte do sector financeiro que não quis ser identificada, partilha a mesma opinião: "Sim, sem dúvida que fica muito mais vulnerável. Não só porque passa a ficar apenas com a parte doméstica e passa a ser um ativo sem o driver de crescimento que é Angola, mas torna-se igualmente atrativo também pela sua dimensão e quota de mercado em Portugal." "Contudo, no final será sempre uma questão de preço, sem esquecer uma estrutura acionista também complicada", alerta a mesma fonte.

Já Steven Santos considera que "ao separar os ativos africanos, que têm sido o motor do crescimento do grupo nos últimos anos, o BPI fica praticamente limitado a Portugal, cuja economia regista ainda um crescimento lento". "A poupança de custos e a extração de sinergias através de uma fusão com outro banco tornam-se agora mais apetecíveis, na perspetiva do BPI", diz o gestor do BiG.

O BPI anunciou esta semana que vai convocar uma assembleia geral de acionistas extraordinária para deliberar sobre a cisão, visando criar uma nova sociedade, a cotar em Lisboa, e que agregará a participação de 50,1% no BFA, assim como as participações de 30% no moçambicano BCI e 100% do BPI Moçambique. A redução da exposição a Angola deve--se ao facto de o BCE ter deixado de reconhecer o estatuto de equivalência à supervisão angolana, levando assim o banco a superar os limites de exposição a ativos daquele país. Esta situação terá de estar resolvida até março de 2016.

Fusão BPI/BCP

Depois de duas tentativas falhadas de juntar o BCP e o BPI, os acionistas angolanos dos dois bancos (Isabel dos Santos e Sonangol) ensaiaram uma nova tentativa aquando da OPA lançada pelo Caixabank em março passado. Com a morte da oferta espanhola, a proposta de união entre BPI e BCP ficou guardada na gaveta. Mas, a concretizar-se a cisão dos negócios africanos, a fusão entre os dois bancos portugueses poderá voltar a ser equacionada. "A perspetiva dos acionistas seria provavelmente bem recebida pelo mercado, tendo em conta as consequências que esta operação teria em termos da otimização da base de custos dos dois bancos", admite Albino Oliveira. Contudo, o analista alerta que "permanecem obstáculos, como os estatutos do BPI ou as obrigações CoCos que o BCP ainda tem de reembolsar". Já Steven Santos considera que "o BPI está agora mais dependente de um mercado pequeno e de crescimento lento como Portugal, a lógica para uma fusão com outro banco poderá ter sido reforçada". A outra fonte do sector também qualifica de "hipótese razoável" a fusão BPI/BCP, até porque "faz todo o sentido e essa porta nunca chegou a ficar fechada".

A possível união entre os bancos de Fernando Ulrich e Nuno Amado tem alimentado as ações na Bolsa de Lisboa. Contas feitas, desde o anúncio da proposta de cisão, os títulos do BPI valorizaram 9% e já estão a dar dinheiro aos investidores desde o início do ano, enquanto os do BCP já dispararam 20%.

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