Ser Pro, capacitar jovens e regiões ao longo de três anos 

O episódio desta semana do Educar + foi dedicado ao Ser Pro, programa da Iniciativa Educação dedicado ao apoio à criação e ao acompanhamento de cursos do ensino profissional. 
Filipa Oliveira, coordenadora do Ser Pro, e Nuno Crato, presidente da Iniciativa Educação. Foto: Paulo Alexandrino
Filipa Oliveira, coordenadora do Ser Pro, e Nuno Crato, presidente da Iniciativa Educação. Foto: Paulo Alexandrino
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Os dados mais recentes mostram que, em Portugal, 40% dos alunos do ensino secundário frequenta cursos profissionais. Foi a pensar neles e no modo como podem adequar melhor a sua formação ao mercado de trabalho que foi criado o Ser Pro, um programa da Iniciativa Educação, desenvolvido em parceria com escolas, empresas e autarquias. As várias vertentes do programa estiveram em análise no quarto episódio do Educar +, um projeto da Iniciativa Educação em parceria com a TSF e o Dinheiro Vivo, que esta semana pôs à conversa Nuno Crato, presidente da Iniciativa Educação e Filipa Oliveira, coordenadora do Ser Pro. 

“O que caracteriza o Ser Pro é que são cursos do ensino profissional desenhados desde o início em colaboração com um conjunto de parceiros, nomeadamente empresas”, explica Nuno Crato. Os cursos são criados tendo em conta as necessidades da região em que se inserem bem como as dos jovens a que se destinam. “É um programa de apoio à criação e ao acompanhamento de cursos do ensino profissional”, continua o presidente da Iniciativa Educação para quem a ligação ao tecido empresarial é uma clara mais-valia.   

Criado há cinco anos, o Ser Pro já apoiou 31 cursos, envolvendo 24 escolas, 431 alunos e 175 parceiros entre empresas, autarquias e Institutos Politécnicos, e tem ativos 15 cursos. “São números expressivos”, afirma Filipa Oliveira. “No âmbito programa Ser Pro nós apoiamos o desenvolvimento de um curso profissional durante um ciclo de estudos (três anos) e depois vamos apoiar outro curso profissional que pode ser na mesma escola ou em regiões e territórios diferentes”, explica a coordenadora nacional do programa, que lembra a boa aceitação que este tem tido.  

“O feedback que temos por parte das escolas é bastante promissor”, afirma Filipa Oliveira que aponta as taxas de abandono (nulas) e os níveis de aproveitamento dos alunos como provas do sucesso do programa. “Ao promovermos esta interação com o tecido empresarial logo a partir do 10º ano, enriquecemos bastante a formação académica dos alunos que, desde o primeiro momento, têm a oportunidade de colaborar com as empresas”, diz. Uma colaboração que vai além do aconselhamento ao nível do plano curricular e inclui uma vertente prática com visitas dos alunos às empresas e a participação das empresas em contexto de sala de aula. “Os alunos ficam mais motivados e os professores sentem-se apoiados na medida em que conseguem alinhar o seu ensino com as necessidades atuais do mercado de trabalho”, continua a também professora, que destaca a maior “desenvoltura e autonomia” revelada por estes alunos quando chegam à componente de formação em contexto de trabalho.  

Um projeto em que todos ganham 

Para Nuno Crato, este é um programa com vantagens para todos os envolvidos. “Em primeiro lugar para os alunos. Muitos querem acabar o secundário com um diploma nas mãos mas, mais do que isso, com uma formação e um conhecimento que lhes permita serem úteis à sociedade e entrarem imediatamente num emprego”, afirma o presidente da Iniciativa Educação. Concluído o curso, os alunos podem prosseguir os estudos no ensino superior mas, lembra Crato, entretanto têm uma qualificação que lhes permite adaptar-se às necessidades atuais do mercado de trabalho, o que também representa uma vantagem para os empregadores. 

“As empresas sentem que há uma grande oferta de pessoas altamente qualificadas, no entanto precisam de técnicos para tarefas muito específicas”, continua Filipa Oliveira, que dá como exemplo a Siemens Logistics, responsável por toda a área logística de bagagens dos aeroportos nacionais. “Se num dos aeroportos há uma avaria sinalizada num quadro elétrico um técnico da área da electricidade ou dos rolamentos tem de a saber identificar rapidamente porque está em causa todo um processo de aviação em causa. As empresas sentem que há necessidade de os alunos saírem com esta capacidade de saber fazer”, diz a coordenadora do programa.  

Já as escolas procuram incutir nos alunos o sentido crítico e a agilidade mental que lhes permitirá uma melhor adaptação à constante evolução tecnológica. “Os equipamentos usados nas empresas estarão obsoletos daqui a dez anos e há toda uma postura de soft skills e hard skills que é passada aos alunos desde o 10º ano, com vista a eles poderem despertar as suas vocações e aptidões”, diz Filipa Oliveira. “Por cada curso trabalhamos em média com cinco ou seis empresas da área e isso permite aos alunos ter experiência com diferentes tarefas o que faz com que também aumentemos a satisfação das empresas e do próprio aluno, que está altamente motivado”, continua Filipa Oliveira. 

Na base de tudo, está o trabalho prévio à realização de cada curso. “É muito importante percebermos o que devemos estimular nas diferentes regiões. Muitas vezes temos reuniões iniciais com os municípios e as escolas para traçar o caminho para aquele ano lectivo”, conta a coordenadora do Ser Pro para quem é essencial para cada curso e para a identidade de cada região de modo a atender problemas e necessidades específicos. Como exemplo dá a parceria com o FOR-MAR, centro de formação e certificação para as áreas da pesca e do mar. “Há uma grande falta de técnicos especializados nas profissões do mar. Nós conseguimos integrar com o FOR-MAR conteúdos programáticos que capacitam os alunos para, no final do 12º estarem aptos para profissões na área do mar, seja na área do desporto, do turismo”, diz Filipa Oliveira, que destaca também o papel dos consultores – regra geral provenientes do ensino superior politécnico -  e o seu papel como elo agregador entre a escola e o tecido empresarial. 

Uma experiência que se quer contagiante 

“É importante dizer que as empresas não recebem nada para fazer isto, e isso é uma parte fundamental deste programa: quando não se paga, se a empresa colabora é porque sabe que aquilo é útil. Apoiar a formação dos jovens é um ato de generosidade, afirma Nuno Crato, que gostaria de ver a experiência do Ser Pro replicada. “Somos uma organização de caráter fundacional que colabora com empresas e com escolas. Mas o que nós almejamos é que as escolas olhem para estes exemplos e vejam o que há aqui que podem aproveitar. Julgamos que temos muitos bons exemplos que podem contagiar o trabalho de outras escolas”.  

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