

Sernancelhe, no distrito de Viseu, tem perto de seis mil habitantes e, ao contrário da maioria dos concelhos do interior, registou um aumento de população nos últimos censos. Uma transformação a que não é alheia a aposta no ensino profissional, como forma de resposta às necessidades económicas e sociais da região e de reter e captar população jovem, acreditam os responsáveis da autarquia. Ao continuar a acompanhar o programa Ser Pro, o Educar +, projeto da Iniciativa Educação em parceria com a TSF e o Dinheiro Vivo, dedicou o episódio desta semana ao caso de Sernancelhe, e reuniu à conversa Mónica Vieira, coordenadora geral da Iniciativa Educação e o vereador da Câmara Municipal de Sernancelhe, Armando Mateus.
“O papel dos municípios na construção da seleção das ofertas que são mais adequadas aos interesses dos jovens mas também aos interesses da região é algo que o Ser Pro valoriza”, defende Mónica Vieira, que sublinha que embora o impacto a longo prazo nas regiões seja uma preocupação do programa, a prioridade é o impacto “a curto prazo na formação dos jovens”. O caso de Sernancelhe, onde o Ser Pro apoiou já três cursos é, para Mónica Vieira, é um ilustrativo do modo como a oferta do ensino profissional pode ser um contributo para o desenvolvimento da região. “Os municípios podem, devem e são envolvidos e têm uma palavra muito importante na seleção e enriquecimento destas ofertas que fazemos aos jovens”, garante.
Para um concelho com uma baixa densidade populacional, a braços com problemas com a necessidade de fixar a população estudantil, este tipo de parcerias são um elemento enriquecedor, refere Armando Mateus, que lembra que é algo a que a autarquia e a Escola Profissional de Sernancelhe têm estado atentas. “Sempre fomos parceiros muito preocupados quanto à escolha de cursos e áreas a trabalhar, que obedecem a um catálogo formativo e uma articulação feita com as comunidades intermunicipais: existe uma bolsa com um número de cursos possíveis e nós captamos os que faz sentido serem desenvolvidos num concelho que, apesar das sua dimensão reduzida, tem as suas necessidades e a sua procura”, explica o autarca. .
“É importante dizer que numa população tão reduzida de estudantes precisamos de ser atrativos em relação aos concelhos limítrofes”, diz Armando Mateus. Neste momento, apenas 23 a 24% dos alunos da escola profissional de Sernancelhe residem no concelho, vindo os restantes de 16 concelhos limítrofes. Tendo isso em conta, a autarquia criou uma rota, com viaturas próprias. “É o município que garante este transporte e só assim garantimos que a escola tenha hoje 250 alunos. É um esforço acrescido mas que traz vantagens”, congratula-se o vereador. Em três décadas a Escola Profissional passou de 25 para 250 alunos e conta atualmente com 12 cursos diferentes.
Aposta na diversidade com atenção às necessidades locais
A diversidade, a par com a adequação, é uma das características que o Ser Pro procura ter em conta, refere Mónica Vieira. “No caso de Sernancelhe, o Ser Pro já vai no terceiro curso que estamos a promover com o município e a Escola Profissional de Sernancelhe, sendo que para cada um destes cursos temos uma carteira diferenciada de parceiros, na maioria locais mas também extravasam o limite do concelho”, explica a coordenadora da Iniciativa Educação. O primeiro curso criado foi o de técnico profissional de saúde, seguiu-se o curso de cozinha e pastelaria (com uma especificidade regional centrada na castanha e no chocolate) e este ano teve início o curso de mecatrónica. “São áreas muito distintas que espelham o dinamismo e a riqueza do ensino profissional. O Ser Pro decidiu apoiar estes cursos diferentes na expectativa de poder diversificar as empresas e as instituições de ensino superior que trabalham com a escola profissional de Sernancelhe”, diz Mónica Vieira.
“Os resultados têm sido fantásticos porque estamos a dar uma resposta profissional mais qualificada, mais direcionada, porque o Ser Pro traz essa especificidade”, garante, por sua vez, Armando Mateus, que realça a importância de os alunos adquirirem “competências mais direccionadas e até mais identitárias”. Neste caso, a componente identitária desenvolveu-se com a atenção especial dada à castanha, a “logomarca” de Sernancelhe. “Sendo estes chefes de cozinha preparados para trabalhar a castanha eles vão ter a necessidade de a incluir nos menus, de criar e desenvolver produtos à base da castanha como o bombom de castanha, o pastel de castanha”, afirma o vereador.
Para Armando Mateus, esta foi uma estratégia cujo sucesso em Sernancelhe já se traduz em números, com os cursos a registar taxas de conclusão de perto de 93% e níveis de empregabilidade de 85%. “E um dado curioso é que a empregabilidade no próprio concelho chega aos 45%. Isto quer dizer que não se fixam só os jovens do concelho mas também todos os outros que vêm estudar para Sernancelhe e se fixam cá”, afirma o autarca. Nos últimos censos, e contrariando a tendência da maioria dos concelhos do interior, Sernancelhe não só não perdeu como ganhou população. “E este aumento só é conseguido porque são estes jovens que tem de ser atraídos a ficar no concelho, a constituírem família, terem filhos para frequentarem as nossas escolas. É uma meta que está a ser conseguida e que passa também por fixar empresas porque são elas que depois dão esta empregabilidade”, defende Armando Mateus, que aponta a Escola Profissional como “um elemento chave para dar resposta às necessidades do concelho no mundo do trabalho”.