A sustentabilidade e a transição energética são temas prioritários na agenda de desenvolvimento para os próximos anos, sendo que a indústria do imobiliário e da construção terá forçosamente de ser um dos principais agentes desta mudança. Com leis e regulamentos cada vez mais exigentes no que respeita à eficiência energética e com clientes cada vez mais informados e interessados sobre o tema, não restará alternativa aos players da indústria senão acompanhar esta tendência. Contudo, existe ainda um longo caminho a percorrer em Portugal, uma vez que, segundo o relatório "Energia em Números" publicado em 2021, 65% das casas portuguesas tinham em 2020 uma classe energética abaixo de B, numa escala que varia entre A+ (muito eficiente) e F (muito pouco eficiente).
Estes valores devem-se, em grande parte, ao facto de Portugal apresentar um parque habitacional envelhecido e, particularmente em Lisboa, onde 60% das habitações foi construída antes dos anos 80, sem quaisquer critérios de eficiência energética. Face à má preparação dos imóveis para variações mais acentuadas da temperatura exterior - que tendem a agravar-se com as alterações climáticas - e aos critérios de conforto cada vez mais exigentes, as famílias têm a necessidade de consumir mais energia para garantir uma temperatura ambiente adequada aos seus requisitos.
Além de impactar o bem-estar e a saúde das pessoas, esta ineficiência energética provoca um aumento significativo nas contas de energia (eletricidade e gás) das famílias portuguesas. No primeiro semestre de 2021, Portugal já apresentava o oitavo preço mais elevado de eletricidade para consumo doméstico da União Europeia, segundo dados da Eurostat, fator que se junta agora à atual crise energética decorrente do conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Com os preços da energia a atingirem máximos históricos diariamente e com a dependência energética de Portugal face ao exterior, é urgente traçar uma estratégia para promover a transição para casas mais sustentáveis financeira e ambientalmente, de forma a não ser necessário prescindir dos critérios de conforto a que as famílias já se habituaram.
Uma das soluções para esta transição passa pela renovação do parque habitacional existente, que deve incluir a substituição integral das janelas por novos caixilhos com vidro duplo e corte térmico, a melhoria do isolamento térmico, a colocação de proteções solares (estores e portadas), a substituição dos sistemas de climatização e de aquecimento ineficientes por novos sistemas de última geração, a instalação de equipamentos e eletrodomésticos com elevada classificação energética e a colocação de sistemas inteligentes de gestão (domótica) que otimizam os horários de funcionamento dos sistemas de climatização e monitorizam os consumos de energia.
Atualmente, a remodelação dos imóveis mais antigos de acordo com os melhores padrões de sustentabilidade e eficiência energética é já assegurada por novas plataformas tecnológicas que fazem a aquisição e subsequente renovação das casas e garantem que, aquando da sua venda, estas já asseguram um desempenho energético adequado às necessidades das próximas décadas. Para além do impacto direto no conforto e na redução do consumo de energia, a melhoria do desempenho energético origina ainda vantagens adicionais para os proprietários, tais como a obtenção de financiamento bancário com melhores taxas de juro e a potencial atribuição de benefícios fiscais.
As alterações climáticas, a incerteza atual face ao contexto geopolítico internacional e as metas de descarbonização e de desenvolvimento deverão impulsionar uma mudança acelerada na qualidade do parque habitacional. O que irá permitir uma melhoria da eficiência das casas até 60%, a redução do consumo energético e, consequentemente, a diminuição estimada das emissões de dióxido de carbono em cerca de 5%. Com o impulso da nova agenda europeia de desenvolvimento e contando com o apoio das novas plataformas tecnológicas nesta missão, as famílias portuguesas terão nos próximos anos a possibilidade de passar a viver em casas mais sustentáveis e eficientes, adequadas aos desafios das próximas décadas.
Duarte Ferreira dos Santos, vice-president of Investments da Casavo em Lisboa