"O mundo perdeu um homem grande, bom e incrivelmente simpático". Foi assim que Paul Krugman, prémio Nobel da Economia, terminou o texto que ontem publicou no blog que mantém no New York Times sobre Silva Lopes, que morreu aos 82 anos, após vários dias de internamento hospitalar. Com uma experiência internacional e governativa intensa (no governo e no Banco de Portugal, por exemplo), o decano da Economia portuguesa é uma personalidade incontornável do Portugal moderno, tendo-se destacado em momentos-chave e "difíceis" do país. Esteve à frente das Finanças no período do pós 25 de abril de 1974. Foi secretário de Estado e depois Ministro das Finanças em 1974 e 1975 e um dos mentores da legislação que permitiu ao estado intervir na banca, recordou ao DN/Dinheiro Vivo, Henrique Medina Carreira, um dos seus companheiros de estrada durante os anos conturbados. "Era um amigo, inexcedível como ser humano", acrescentou o jurista num tom condoído. Costumavam almoçar e encontravam-se várias vezes.
Em 1975, Silva Lopes sairia das Finanças para a pasta do Comércio Externo, mas regressaria ao cargo de topo do Terreiro do Paço para negociar diretamente com o Fundo Monetário Internacional (FMI) em 1977/78, numa altura de quase bancarrota.
Neste período incandescente da História (1975 e 1980) Silva Lopes foi também governador do Banco de Portugal, um cargo não menos crucial. E foi enquanto governador que em 1976 recebeu, durante o verão, um conjunto de estudantes estrangeiros. Na altura não terá imaginado que um deles, Paul Krugman, viria a ser distinguido com um Nobel da Economia. Krugman recordou ontem essa experiência e o contacto com o economista português, dizendo que o então governador era alguém a quem o humor nunca falhava apesar da pesada responsabilidade que carregava aos ombros. E, para o demonstrar, relatou mesmo alguns episódios anedóticos. Num deles, Silva Lopes garantia que Portugal não era uma "república das bananas". Com um setor têxtil altamente exportador, o país era, isso sim, uma "república dos pijamas".
O Banco de Portugal também emitiu uma nota sobre a morte do antigo governador, sublinhando que ele "conduziu a gestão do banco central num momento particularmente difícil da história económica e financeira recente do País".
Medina Carreira recorda um dos episódios que mais o marcou. "Em março de 1975 mandou-me chamar. Disse-me que o governo estava a planear intervir na banca e que era preciso uma lei nova. Lá fizemos a lei, mas o Conselho da Revolução haveria de a usar para nacionalizar os bancos. Não era essa a ideia", lamenta o fiscalista.
Pouco depois o país corria para a primeira intervenção e resgate financeiro do FMI, em 1977. Silva Lopes estava lá, no grupo de trabalho que lidou com a primeira missão do Fundo, negociando o envelope financeiro do primeiro programa de ajustamento. Voltaria a ser ministro, brevemente, em 1978. Mais tarde, em 1983, o economista de Seiça (uma pequena aldeia do concelho de Ourém) voltaria a ser um dos técnicos escolhidos para negociar com a missão de Washington. Chegara o segundo programa de ajustamento do FMI (83/84).
"Não era influente no plano político", "nunca dizia mal das pessoas, era incapaz de uma intriga", mas "foi decisivo na definição da política orçamental e financeira do país", acrescenta Medina Carreira que foi ministro das Finanças quando Silva Lopes era governador.
Já Miguel Beleza, também ex-ministro das Finanças, confessa ao DN que "foi pela mão dele" que foi para o Banco de Portugal, instituição que também viria a liderar. O ex-governante disse estar "desolado com a notícia".
Reações políticas
No universo político, o legado de José da Silva Lopes reúne consenso da esquerda à direita.
Basílio Horta, atual presidente da Câmara de Sintra (PS), recorda os tempos em que era ministro do Comércio e Silva Lopes era governador do Banco de Portugal: "Era um homem íntegro, sério, frontal", vinca ao DN.
Foi igualmente com "muita tristeza" que António Capucho soube do "adeus" de "uma pessoa encantadora, de grande retidão e desprendimento pelas coisas materiais". O economista tinha "uma competência técnica reconhecida por todos", nota o independente, embora histórico do PSD.
Igual linha de raciocínio apresenta o presidente do Tribunal de Contas. Guilherme de Oliveira Martins observa que "Silva Lopes é com Jacinto Nunes, a grande referência da ciência económica portuguesa. Teve intervenção em todas as decisões fundamentais em Portugal nos últimos 50 anos". E prossegue: "Não podemos esquecer o seu combate pela verdade e pelo rigor nas contas e na defesa do interesse nacional e dos contribuintes. Era um exemplo ético. Não o esqueceremos."