Six Senses chega à Comporta para colocar região na “Champions League” do turismo mundial

VIC Properties lança projeto de 300 milhões de euros no Pinheirinho e quer transformar o litoral alentejano num novo polo europeu de turismo premium, exclusividade e 'branded residences'.
Six Senses Comporta tem inauguração prevista para 2028.
Six Senses Comporta tem inauguração prevista para 2028.Foto: Fernando Piçarra.
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Entre pinheiros, dunas e estradas de terra batida ainda praticamente intocadas, a VIC Properties reuniu investidores, arquitetos, executivos da cadeia Six Senses, autarcas e jornalistas para apresentar oficialmente aquele que promete tornar-se num dos mais ambiciosos projetos turísticos da história recente da Comporta. Uma das regiões mais procuradas em Portugal nos últimos anos, em breve, tornar-se-á ainda mais requisitada através da marca que pretende colocar aquela zona do país num patamar ainda mais exclusivo - se é que isso é possível.

O Six Senses Comporta, apresentado na última terça-feira, 26 de maio, no Pinheirinho, em Grândola, representa um investimento direto de cerca de 300 milhões de euros e combinará um hotel de 70 quartos com 58 branded residences - as primeiras da marca em Portugal - integradas num empreendimento com mais de 400 hectares e um plano global de investimento estimado em 1,7 mil milhões de euros. Este será o segundo empreendimento da marca que se fortaleceu no país, após o sucesso do primeiro hotel no Douro, e está previsto para inaugurar em 2028.

Mais do que anunciar um novo resort de luxo, porém, o discurso dos promotores ao longo do dia apontava para outra ambição: transformar definitivamente a Comporta num destino de elite do turismo internacional. “Isto coloca a Comporta na Champions League do turismo”, afirmou João Cabaça, CEO e cofundador da VIC Properties, ao Dinheiro Vivo, depois da apresentação oficial do projeto. A frase surgiu no meio de uma conversa sobre posicionamento turístico, marcas globais e validação internacional, e traduz um pouco o espírito que dominou a visita ao Pinheirinho.

Ao longo da manhã, executivos da VIC e da Six Senses repetiram várias vezes palavras como “sustentabilidade”, “baixa densidade”, “wellness”, “luxo silencioso” e “integração com a natureza”, numa tentativa de afastar o empreendimento da lógica de massificação que hoje domina parte do turismo europeu. Apesar da área disponível e da capacidade construtiva do Pinheirinho, a VIC optou por limitar o número de quartos e residências, apostando num conceito de exclusividade e baixa ocupação. “O que está ali podia ser um hotel de 300 quartos. Mas nós não queremos isso”, afirmou João Cabaça durante a conversa com o DV.

A ideia, segundo o empresário, passa precisamente por criar um modelo de turismo de elevado valor acrescentado, capaz de gerar impacto económico sem reproduzir problemas associados ao excesso de visitantes em destinos como Barcelona, sul de Itália ou algumas regiões do Algarve.

Cerimónia da primeira pedra da construção do Six Senses Comporta.
Cerimónia da primeira pedra da construção do Six Senses Comporta.Foto: Fernando Piçarra.

“Acho que as pessoas não querem mais este turismo de massas”, disse. “Veja o que acontece em Barcelona ou em Sorrento. Isso deixa pouco ou nada para as comunidades locais". A crítica à massificação turística, aliás, surgiu diversas várias vezes durante o evento, sobretudo associada à necessidade de preservar aquilo que tornou a Comporta atrativa nos últimos anos: baixa densidade urbanística, paisagem preservada e sensação de exclusividade.

Não por acaso, a VIC insiste na ideia de que o projeto foi pensado “de raiz” para a Six Senses - algo considerado determinante pela cadeia hoteleira no momento de escolher a Comporta para receber o primeiro projeto da marca em Portugal com branded residences. Segundo João Cabaça, o processo de aproximação entre a promotora e a Six Senses durou quase dois anos e envolveu sucessivas avaliações técnicas, visitas ao território e discussões sobre posicionamento estratégico.

“Uma marca como a Six Senses recebe entre cinco e dez projetos por semana”, explicou. “Não são eles que vêm ter consigo. É você que tem de convencer a marca". Para o CEO da VIC, o fato de a cadeia ter escolhido o Pinheirinho representa uma espécie de selo internacional de qualidade. “O Six Senses escolheu-nos a nós. E isso foi um carimbo de qualidade inquestionável".

Já o projeto arquitetónico é assinado pela marca britânica Michaelis Boyd. Conhecido pelos trabalhos ligados à Soho House, incluindo o Soho Farmhouse, o ateliê londrino será responsável pela arquitetura do Six Senses Comporta, que aposta numa abordagem biofílica, integrada na paisagem natural e fortemente baseada em materiais orgânicos, baixa volumetria e relação contínua entre interior e exterior.

Ainda durante a apresentação oficial, Viri Kaur, Diretora Global do Six Senses, afirmou que o objetivo da marca passa por criar um empreendimento “envolvido na paisagem em vez de imposto sobre ela”, numa lógica de “luxo tranquila”, conceito cada vez mais associado ao segmento premium internacional.

O empreendimento contará com spa de aproximadamente dois mil metros quadrados, restaurantes, lago artificial, horta biológica, áreas de wellness, espaços de lazer e acesso direto à praia. As residências serão divididas em três coleções - Lake, Forest e Sand Dune - desenhadas para dialogar com diferentes elementos da paisagem natural do Pinheirinho.

Segundo Marco Drummond, diretor comercial da VIC Properties, a ideia passa por criar uma experiência contínua entre hotelaria e residencial. “Pela primeira vez será possível não só ficar num hotel Six Senses, mas também pertencer à marca”, afirmou durante a apresentação.

O impacto na região

Enquanto investidores e executivos falavam sobre exclusividade e posicionamento global, outro tema que pairava constantemente sobre as conversas foi o impacto do crescimento turístico sobre a região. O presidente da Câmara Municipal de Grândola, Luís Vital Alexandre (PS), reconheceu durante o evento que o concelho enfrenta atualmente dificuldades para responder ao volume de investimentos em curso, sobretudo em áreas como habitação, mão de obra e infraestruturas. “Não temos neste momento o número de pessoas necessário para ajudar a desenvolver estes projetos”, afirmou. "Mas estou certo de que o futuro mudará este paradigma".

João Cabaça afirma querer ajudar para que o cenário mude. Para o CEO da VIC, o antigo modelo de promotor imobiliário - focado apenas em construir e vender - deixou de funcionar em regiões como a Comporta. “Não há espaço para o antigo promotor que fazia um projeto e se ia embora”, afirmou. Segundo o empresário, a VIC já trabalha em soluções ligadas à habitação, educação e até saúde privada para tentar responder às necessidades futuras da região, numa altura em que a empresa prevê a criação de cerca de mil postos de trabalho diretos e indiretos associados ao Six Senses Comporta.

Projeto do novo hotel na Comporta.
Projeto do novo hotel na Comporta.Foto: Fernando Piçarra.

Ao mesmo tempo, a promotora acredita que a própria procura internacional pela região deverá crescer nos próximos anos, impulsionada não apenas pelo turismo, mas também por um novo perfil de residente interessado em viver permanentemente na Comporta. “Há cada vez mais pessoas que querem viver aqui e ir pontualmente a Lisboa, quando precisarem de uma reunião”, afirmou João Cabaça, destacando a proximidade da região com a capital portuguesa, mas não só, também a Faro e a Beja.

Uma posição estratégica para uma região que, de acordo com o Presidente da Câmara de Grândola, será em breve um dos sítios mais privilegiados do mundo com os novos empreendimentos no Pinheirinho. Além do Six Senses, das residências e do campo de golfe, um outro hotel será anunciado nos próximos 12 meses. “Isto é a prova de que Grândola é, neste momento, o centro do turismo em Portugal”, afirmou o autarca. “E em breve será um grande centro do turismo mundial", finalizou.

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