Hotel Verride deixa de ser Valverde ao fim de apenas oito meses

Foi um casamento de curta duração e as partilhas ainda estão a ser feitas. O Verride volta a ter gestão própria com Teresa Guimarães ao leme da operação
O Hotel Verride é já uma referência, junto ao miradouro de Santa Catarina
O Hotel Verride é já uma referência, junto ao miradouro de Santa CatarinaReinaldo Rodrigues
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A CEO da TLC - empresa que assegura a gestão do Verride Hotel - é perentória, enquanto diz, divertida, ao Dinheiro Vivo: “Não foi bem um divórcio. Estrategicamente, foi decidido que não fazia sentido continuar o contrato” de gestão que havia sido assinado entre o Verride Palácio de Santa Catarina e o Grupo Valverde, e que tinha efeitos desde dia 1 de junho de 2025.

Por isso mesmo, o hotel, situado no Verride Palácio de Santa Catarina, ao lado do miradouro de Santa Catarina, em Lisboa, voltou a ficar sob gestão independente e própria, com Teresa Guimarães agora como CEO da empresa. A executiva já tinha, anteriormente, ocupado os cargos de diretora financeira (2019-2023) e de diretora-geral (2023-2025) daquela unidade hoteleira.

Mas para perceber melhor a história desta separação, é preciso voltar um bocadinho atrás no tempo. Kees Eijrond é holandês, e é o proprietário do histórico edifício datado do século XVIII, desde 2010. Antigo diretor da companhia de dança belga Rosas, engenheiro agrónomo de profissão, Kees gosta de aliar a cultura à gastronomia, à arte e à beleza. Em 2017, e depois de anos de profunda recuperação do imóvel que chegou a pertencer ao Conde de Verride, nascia em Lisboa este boutique hotel com 18 quartos e a ambição de se tornar um destino por si mesmo. Em 2018, recebe o Prémio Valmor de Melhor Reabilitação Turística e, desde então, tem-se afirmado como uma referência entre a hotelaria de luxo, atraindo mercados internacionais, sobretudo.

“Mas depois atravessámos várias crises, e por isso agora precisamos de alguma estabilização e consolidação”, continua Teresa Guimarães. A primeira crise a que se refere envolveu a primeira diretora-geral do hotel, Paula Marques, que seria afastada em 2019, e recentemente considerada culpada, pela justiça portuguesa, de fraude financeira enquanto liderava a unidade.

Em 2020, a Covid alteraria os planos de todos os hoteleiros, com o Grande Confinamento que fechou portas, rotas turísticas e países inteiros um pouco por todo o mundo. Os dois anos seguintes foram de voltar a caminhar, com segurança, e em 2023, quando Teresa Guimarães passa de diretora financeira do Verride a diretora-geral, chegara a altura de pensar na expansão do projeto. “A nossa intenção de expandir era pública e fomos abordados por vários grupos que queriam fazê-la connosco”, continua a responsável. O Dinheiro Vivo conversou com Teresa numa quarta-feira de sol em Lisboa, a uma mesa com vista panorâmica sobre o Tejo - a mesma que os clientes do hotel podem ver enquanto tomam o pequeno-almoço. “Na altura, pareceu-nos que o grupo que faria sentido para essa expansão seria o Valverde”, conta.

O Valverde, que nasceu em 2014 pela mão de Pedro Mendes Leal - criador do Bairro Alto Hotel, do qual sairia anos mais tarde - tem duas unidades, atualmente: o Valverde Lisboa, na Avenida da Liberdade, e o Valverde Santar, no coração do Dão. O grupo juntou-se, no final de 2024, ao Estoril Living, de Luiz Godinho Lopes, que detém marcas como o Intercontinental ou o Residence Inn da Marriott. Valverde passou a ser apenas uma marca, e integra o portefólio da empresa Estoril Living, detida em partes iguais por Mendes Leal e Godinho Lopes, segundo informações financeiras consultadas à época.

Teresa Guimarães assumiu o cargo de CEO da TLC em março de 2026
Teresa Guimarães assumiu o cargo de CEO da TLC em março de 2026 Reinaldo Rodrigues

Separação por mútuo acordo?

“É preciso notar que Pedro Mendes Leal tem, desde o início, uma relação com o Verride Palácio de Santa Catarina, no qual tem uma participação minoritária. E mesmo sendo uma participação pequena, liga-o ao projeto”, esclarece ainda a responsável. Também se sabe que Kees Eijrond valoriza as relações pessoais, até e sobretudo na escolha dos seus acionistas, pelo que o passo pareceu natural.

“Há uma empresa, holandesa, que detém todos os edifícios e que é detida pelo Kees quase a 100%, e existe a TLC (The Lisbon Club), que tem um contrato de exploração deste hotel. A parceria foi estabelecida entre a TLC e o Valverde”, clarifica Teresa Guimarães. Na ocasião, ficou contratualizado que além de o Valverde passar a assegurar a gestão do Verride, aumentaria também a sua participação acionista na TLC.

No entanto, bastaram oito meses para que os caminhos das três unidades, então a operar sob a marca Valverde, se começassem a distanciar. “Foi uma decisão estratégica de ambos os lados porque, na verdade, estamos um bocadinho em momentos diferentes”, começa por dizer. “De repente eles estão a crescer muito e nós precisamos de estabilidade para darmos o passo a seguir, que é o da expansão. Então achámos que o melhor era separar o produto Verride do produto Valverde”, continua.

Facto é que desde que a Valverde integrou o Estoril Living, os planos são ambiciosos. Ainda em janeiro passado, o grupo anunciou a intenção de investir cerca de €100 milhões euros em projetos, com as estadas prolongadas a ser uma aposta assumida e para reforçar. “Estamos a chegar a uma altura em que o Turismo está a abrandar, e acreditamos que a oferta diferenciada vai fazer muita diferença no nosso potencial de crescimento”, adiantou Henrique Tiago de Castro, Chief Operating Officer do Estoril Living.

Durante um encontro com a imprensa, em Lisboa, os responsáveis davam também conta de que a marca Valverde deveria crescer, com o grupo “ativamente à procura de oportunidades” em regiões como o Alentejo e o Norte para estender a rede Valverde. Ou seja, o ritmo parecia exatamente o oposto daquele que Teresa Guimarães e Kees Eijrond querem imprimir ao Verride, e que ficou patente nesta conversa com o Dinheiro Vivo.

O Verride Palácio  de Santa Catarina  quer ter um espaço dedicado à Fundação  Kees Eijrond
O Verride Palácio de Santa Catarina quer ter um espaço dedicado à Fundação Kees Eijrond Reinaldo Rodrigues

Filantropia e Arte

O hotel, explica Teresa Guimarães, tem outra estratégia. “Temos alguns edifícios adquiridos aqui à volta, que conectam com este edifício [principal] e que inicialmente tínhamos pensado que serviriam para expandir o hotel, fazendo nesses edifícios mais quartos, ou suítes”, explica. “Mas neste momento, não estamos nessa onda, porque não queremos banalizar o produto. Preferimos que essas novas áreas sirvam para aportar valor ao hotel e, portanto, deverão ser mais espaços comuns”, continua.

O fim do contrato com o Valverde significou o fim da gestão pela marca - e o regresso de Teresa Guimarães como diretora-geral da unidade, mas agora ficando também como CEO da TLC. E a posição de Mendes Leal e da marca Valverde na empresa também voltará a diminuir para a participação original, possivelmente até ao final deste ano, adianta a gestora.

“Deverão entrar outros acionistas, mas ainda não sabemos. Os acionistas da TLC funcionam como uma espécie de clube”, conta com um sorriso. “A presença faz-se muito mais pela relação humana que se estabelece do que apenas pelo dinheiro. Já chegou a ter 30 acionistas, atualmente tem 10, mas queríamos que, depois deste ajuste que vai haver, não sejam mais do que 15 ou 18”, adianta ainda. “Este projeto é muito peculiar. Isto é muito mais filantrópico do que propriamente um projeto financeiro. Nunca foi intenção do Kees que isto fosse uma máquina de fazer dinheiro”, salienta.

“Isto sempre foi um sonho para ele, um sonho de vida. Um sonho que precisa de ser autossustentável, e que se trouxer retorno aos acionistas, ótimo. Mas não é esse o drive. O objetivo deste hotel não é ser uma máquina de fazer dinheiro. E há-se expandir-se, mas não de forma a ganhar muito dinheiro. Na verdade, o objetivo do Verride é ser um hotel único em Lisboa e, mais do que um hotel, é ser um destino. Sempre foi esse o objetivo”, repete.

Um dos grandes destaques desta expansão, que deverá estar concluída nos próximos cinco anos, revela Teresa, é a integração do jardim da casa do próprio Kees Eijrond, situada ao lado do Verride, no projeto hoteleiro. “A piscina será aí, no jardim, e termos também um hammam e um spa nessa zona”.

No mesmo sentido, adianta, um piso inteiro está a ser guardado para ser - “pelo menos é o que queremos ao dia de hoje” - um espaço público onde estará a Fundação Kees Eijrond. A instituição, que foi criada em 1991, em Utreque, nos Países Baixos, tem como objetivo apoiar a criação artística e o desenvolvimento cultural. Em 2022, a Fundação abriu uma representação permanente em Lisboa e agora pretende também expandir a sua atividade por cá.

“A fundação está a crescer e gostávamos de ter este piso para eventos, para exposições… A fundação já detém a casa da fadista Mísia - o imóvel foi adquirido à cantora quando esta ainda era viva, e foi a sua morada até ao dia do seu falecimento - que é atualmente uma residência artística, e gostávamos que continuasse a ser”. Portanto, este espaço vem aportar dimensão e opções à Fundação, esclarece.

Ainda assim, a responsável não descarta que possa haver, no futuro, mais suítes ou branded apartments, mas terá de ser algo diferenciador.

Separado oficialmente do Valverde, o Verride pode escolher com mais tranquilidade que caminhos trilhar, preservando a visão do seu fundador. Para já, Teresa Guimarães está de olhos postos nos desafios dos próximos tempos - a instabilidade da guerra que está a fazer com que 2026 seja “um ano estranho” em termos de reservas e projeções; a dificuldade em conseguir Recursos Humanos qualificados para a operação (apesar de ter 80% dos seus 57 funcionários efetivos e um grau de rotatividade abaixo da média do setor) e, claro, “o desafio da expansão que nos vai ocupar bastante”, diz, divertida.

De olho no seu décimo aniversário, quase à porta, o Hotel Verride Palácio de Santa Catarina manteve-se impávido e sereno enquanto a equipa do Dinheiro Vivo saía do edifício pela imponente escadaria de acesso. Ao longo de três séculos, já foi casa de muitos proprietários, já sobreviveu a diversas crises financeiras, regimes políticos e ciclos económicos. Lá dentro, entre acionistas, até pode estar tudo em ebulição. Mas o Palácio mantém-se - ou assim parece - tão firme como quando foi construído em 1757. E pronto para enfrentar os próximos tempos, sejam eles mais ou menos turbulentos.

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