Narrativa (feminino
de narrativo) s. f.: 1. Ato de narrar. = NARRAÇÃO; 2. História contada por alguém; 3. Obra literária, geralmente em prosa, em que se relata um
acontecimento ou um conjunto de acontecimentos, reais ou imaginários,
com intervenção de uma ou mais personagens num espaço e num tempo
determinados.
Na entrevista à RTP, o ex-primeiro-ministro fez questão de repetir a palavra. À exaustão. Com uma finalidade: mostrar que tudo quanto se disse dele nos últimos dois anos não passou disso mesmo: de uma "narrativa".
Acusando Cavaco de ser a mão escondida por trás do arbusto da crise política (leia mais aqui) e garantindo não ter regressado para se candidatar a São Bento ou a Belém (leia mais aqui), José Sócrates assumiu a vontade absoluta de desfazer todos os "embustes" criados à sua volta e da sua governação (leia mais aqui).
Estes foram os principais temas focados em hora e meia de entrevista.
"A crise internacional teve impacto em todos os países."
A crise internacional atingiu todos os países e especialmente os que tinham debilidades estruturais. "Sempre admiti que existiam esses problemas estruturais: um défice educativo muito forte; um défice energético; e um défice de investimento privado. Aliás, passei seis anos a tentar resolver esses problemas. Gostava que este embuste fosse bem entendido", disse, sublinhando que a fábrica da Pescanova, a nova fábrica da Embraer e a nova fábrica da Portucel foram investimentos conseguidos nessa altura.
"Não aceito que responsabilizem a minha governação pelos efeitos da crise internacional"
Sócrates rejeita em absoluto que a sua gestão da crise tenha sido menos correta. "Procurámos fazer face aos problemas com energia e honestidade, mesmo na segunda legislatura, quando já não tínhamos maioria. Seguimos sempre uma estratégia de rigor orçamental e de aposta no crescimento." E acrescenta: "Há um engano histórico: não foram os Estados que provocaram a crise pelo seu endividamento, mas o contrário. Foram os mercados, com o seu comportamento desonesto e ganancioso, que criaram a crise que levou à dívida e ao défice. Assumo todas as responsabilidades da minha governação. Não as de fora."
"Dizerem que foi a minha governação que obrigou ao pedido de ajuda é uma mistificação e um embuste"
Sócrates garante que a sua governação não foi responsável pelo pedido de ajuda externa, mas sim a crise política motivada pelo chumbo do PEC4. Questionado sobre como podia garantir que o PEC4 teria sucesso, Sócrates não hesitou em recordar que tinha o apoio de Bruxelas e do BCE. "Durante duas semanas apelei a todos os líderes políticos para aprovarem essa solução - que era muito semelhante à que foi aprovada para Espanha e Itália agora, ou seja, que forçava austeridade mas não implicava um pedido de ajuda externa." Sócrates "concede" que, em determinada altura, já era o único a acreditar nessa solução, mas sublinha que quem precipitou o pedido de ajuda à troika foi quem chumbou o PEC4. "Assumo as minhas responsabilidades, os outros que façam o mesmo."
"O ministro das Finanças esteve comigo nos momentos mais críticos"
Sobre Teixeira dos Santos, José Sócrates não se alargou. Mas, questionado sobre se teria feito as pazes com ele depois de o ministro ter deixado de acreditar nas suas soluções, Sócrates ainda disse: "O ministro das Finanças esteve comigo em momentos críticos; construímos juntos o PEC4." Confrontado com esse momento em que todos (governo, oposição, Presidente, banqueiros e até Teixeira dos Santos) menos o próprio Sócrates acreditavam que a única solução era pedir ajuda à troika, o ex-primeiro-ministro lamentou o facto de "muitas das instituições terem baixado os braços enquanto eu continuava a lutar". "Muita gente estava equivocada em relação à ajuda externa, clamavam por isso. Eu, até poder, defendi que não devíamos pedir ajuda externa porque conhecia as consequências disso."
"O governo duplicou a austeridade face ao memorando inicial"
Questionado sobre a imagem que tem do país neste momento, o ex-primeiro-ministro lançou mais um ataque, desta vez ao governo de Passos Coelho. "As consequências da crise política de 2011 estão à vista e há outro embuste na narrativa que tem sido contada ao país. São três, os embustes: o primeiro é o de que só havia problemas em Portugal. O segundo, de que foi o governo que nos conduziu ao pedido de ajuda. E o terceiro: que as medidas atuais resultam da simples aplicação do memorando assinado com o anterior governo." A verdade, segundo Sócrates, é que "o governo duplicou a austeridade, fazendo desde logo sete alterações ao memorando inicial. Como podem dizer que foi mal desenhado se nunca o aplicaram? Esses sim é que não querem assumir responsabilidades". Sócrates acusou o governo de, por sua iniciativa ter introduzido no memorando medidas como o corte do 13.º mês ou o aumento do IVA para a taxa máxima na restauraçao e na eletricidade. "A decisão de ir além do memorando foi do governo. Foi a doutrina do frontloading", cujo objetivo era "fazer-nos ter uma bruta recessão" para logo "regressar a confiança dos mercados".
"O governo meteu-se num buraco e acha que para sair deve continuar a escavar"
Questionado sobre a solução para a crise, Sócrates rejeitou que passe pela saída do euro ou por uma renegociação das metas. A solução, diz, "é parar com a austeridade urgentemente, em Portugal como na Europa - continuar é um erro económico e politico enorme". E exemplificou: "O governo meteu-se num buraco e acha que para sair deve continuar a escavar. Paremos com esta loucura. Se continuarmos a escavar é que não cumprimos nada!" Mas a saída da crise passa também por "alterar o discurso", defende o ex-primeiro-ministro. O governo deve vender ilusões ao país? "Um politico que desiste de puxar pelas energias do pais não esta à altura das suas responsabilidades. Este governo matou as expectativas", acusou Sócrates. "Discuti muitas coisas com Passos Coelho antes das eleições e ele disse-me muita coisa, mas nunca me disse que a sua estratégia era empobrecer o pais e aconselhar os portugueses a emigrar." Aquilo a que o ex-primeiro-ministro chama de "discurso de expiação".
"António Borges, não conheço."
Questionado sobre o aumento de 2,9% aos funcionários públicos (o maior da década) numa altura em que a crise já se instalara, Sócrates ironizou: "Se acha que adivinhar as crises é condição para ser político, então sugiro que contrate um bruxo." Depois, desmistificou: "É fácil dizer isso agora. Em 2009, tínhamos a doutrina de apoiar a economia face à crise, aumentar o poder de compra... e aumentámo-los de acordo com a inflação que se esperava." Além disso, acrescentou, "nenhum partido teve nessa altura medidas de contenção". António Borges falou nelas, lembrou Paulo Ferreira. "Quem? António Borges, não conheço", rematou Sócrates.
"Fui eu que introduzi as portagens nas Scut"
Rejeitando que as suas políticas tenham sido despesistas, o ex-primeiro-ministro apresentou os seus números relativos às parcerias público-privadas para mostrar que até deixou uma herança melhor do que a que recebeu. "Existem 22 PPP rodoviárias; eu lancei oito. E os encargos líquidos para o futuro que eu recebi em 2005 (23 mil milhões de euros) eram bem maiores do que os que deixei para 2012: 19 mil milhões", disse, assegurando ainda que introduzir portagens nas Scut foi ideia sua. Questionado sobre se foi boa ideia nacionalizar o BPN, tendo em conta que a fatyura já ascende a 7 mil milhões de euros, Sócrates assumiu que, "com a informação que tínhamos, foi a melhor decisão".
"Este governo tem um grande desgaste e um problema de direção"
Para o final da entrevista, ficou a pergunta para um milhão de dólares: Este governo vai manter o mandato até ao fim? "Este governo tem um grande desgaste e um problema de direção. Não vejo que tenha condições para que desenvolva o que é preciso fazer." E se o Tribunal Constitucional (TC) chumbar medidas importantes do Orçamento do Estado, a legitimidade do governo é posta em causa? Sócrates não tem dúvidas. "Fica muito afetada. E diz tudo de um governo ter a sua principal lei duas vezes chumbada." E pergunta: "O que é que este governo quer do país?"
"Viver no estrangeiro e estudar era um sonho antigo"
Para a conclusão ficaram as questões pessoais. Sócrates diz que foi para Paris porque "viver no estrangeiro e estudar era um sonho antigo". Nos dois últimos anos, em que aproveitou para recuperar a ligação com os filhos, diz ter sido vítima de uma "campanha ignóbil do Correio da Manhã", garantindo ter vivido os últimos dois anos com um empréstimo bancário. "Agora voltei a trabalhar. Só quem tem medo da democracia pode ter medo dos meus comentários."