

A primeira fase do programa Seed the Future está a chegar ao fim e Mafalda Guedes, diretora de Comunicação Corporativa e Sustentabilidade da Sogrape, falou ao Dinheiro Vivo dos desafios e ambições do grupo que agrega marcas como Ferreirinha, Sandeman ou Mateus. Fundada há 84 anos - então Sociedade Comercial dos Vinhos de Mesa de Portugal - a Sogrape “sempre teve a sustentabilidade na sua história”, garante a representante da quarta geração desta empresa familiar, que é também líder no seu setor.
“Continuamos a acreditar que a sustentabilidade não deve ser uma área, mas sim a nossa maneira de trabalhar. Como tem sido sempre, aliás. Nós estamos aqui a trabalhar para deixar a empresa para as próximas gerações. Como o meu avô e o meu bisavô também fizeram”, diz a responsável, explicando que o Seed the Future foi criado porque o grupo sentiu a necessidade de congregar todas as empresas em torno deste objetivo comum, de forma mais estruturada e com metas concretas que, a médio e longo prazos, permitissem medir o trabalho feito.
“Na energia, conseguimos atingir os 62% de consumo proveniente de fontes renováveis de energia comprada e produzimos internamente 9% da eletricidade através de parques fotovoltaicos instalados em Avintes, Anadia, Herdade do Peso e Quinta da Muxagata, no Douro”, concretiza Mafalda numa conversa que teve o rio Douro e o céu cinzento do Porto como cenário. Estamos na sede da Sogrape, em Vila Nova de Gaia, por cima das salas de provas e de algumas das caves que abrigam os vinhos produzidos pelo grupo. “Na questão da energia, desde 2020 poupámos, com esta produção própria, mais de 480 mil euros”, continua salientando “a importância financeira desta opção. Acho que este valor mostra bem a importância de algumas decisões”, nota.
Na água, “uma área crítica para o setor do vinho, reduzimos o consumo em 30% entre 2022 e 2025, graças a sistemas de irrigação gota-a-gota, monitorização hídrica planta a planta e reaproveitamento de águas pluviais”, elenca. Já na diminuição da pegada de carbono - onde tinham as metas mais ambiciosas, de conseguir reduzir em 50% as emissões até 2027, e a neutralidade carbónica até 2042, ano do centenário da Sogrape - Mafalda admite que é preciso fazer mais, mas revela que já consegue ter, em Portugal, 50% de garrafas leves nos vinhos do grupo, continuando a trabalhar para aumentar as taxas de recolha e a integração de vidro reciclado. No mesmo sentido, esclarece, “coisas tão simples como alterarmos algumas rotas e não permitirmos que camiões de transporte voltem vazios ajudou imenso a reduzir a nossa pegada”.
Atualmente, as reduções de emissões de âmbito 1, 2 e 3 rondam os 13% em Portugal, mas o trabalho da Sogrape neste setor tem, ainda assim, captado a atenção das instituições internacionais: em 2024 e 2025 garantiu o prémio de “Melhor Iniciativa Ecológica em Logística e Cadeia de Abastecimento”, nos The Drinks Business Green Awards, pelos esforços de descarbonização na distribuição de vinho, que garantiram uma redução de 70% nas emissões de carbono nas rotas entre Portugal e Itália. “Tudo bem, às vezes se calhar demoramos mais dois dias a fazer uma rota, mas a poupança é imensa”, esclarece.
Claro que para tudo isto funcionar, a Sogrape precisa de trabalhar não apenas em todas as empresas do grupo em simultâneo, mas também com os fornecedores e parceiros que fazem parte da sua cadeia de valor. “Quando iniciámos este programa, em 2021, enviei uma carta a todos os nossos parceiros a explicar o que pretendíamos fazer, e a dizer que queríamos que caminhassem connosco.” A relação de confiança, forjada ao longo dos muitos anos em que grande parte dos parceiros trabalha já trabalha com a empresa, tem ajudado no processo, admite a executiva.
A Sogrape, adianta ainda, investiu no ano passado um milhão de euros em Investigação e Desenvolvimento, em parceria com cerca de 200 entidades, desde Universidades a Centros de Investigação, passando por outras empresas privadas, que ajudem a fazer caminho nesta área. “Portugal funciona para nós, também, como mercado de teste para os outros em que operamos”, nota. Recorde-se que a Sogrape tem também vinhas e empresas em Espanha, na Nova Zelândia, no Chile e na Argentina, onde os esforços para melhorar o desempenho nos três eixos da sustentabilidade - ambiente, social e governança - se assemelham aos que são feitos em Portugal. Em termos globais, explica Mafalda, “não falamos de investimento em sustentabilidade. Porque a verdade é que estas diversas iniciativas que fazem parte do Seed the Future são implementadas pelas diferentes equipas, e saem dos orçamentos que elas têm. Mas quando fazemos as contas que foi investido em questões ligadas diretamente a sustentabilidade, transversalmente nas várias áreas, registamos um investimento de 3,7 milhões de euros, no ano passado. Três milhões em Portugal, meio milhão em Espanha”, enumera. “Portugal e Espanha estão a acelerar muito nesta curva da sustentabilidade”, nota.
Questionada sobre que resultados a surpreenderam mais, Mafalda é perentória: o facto de as vinhas, em Portugal, sequestrarem atualmente 116% das emissões de carbono diretas. Um desempenho conseguido através, “na verdade, de coisas simples como a utilização de corredores ecológicos, de espécies auxiliares… foi um bocado deixar a natureza trabalhar”, conta divertida. “Quando eu visitava as vinhas com o meu avô, quando era miúda, achava que algumas das flores e ervas que via eram para decoração. Na verdade, o habitat tem uma importância imensa para a sustentabilidade do terreno”, simplifica.
Para a segunda fase do Seed the Future ainda não há objetivos definidos - “teremos de começar a pensar neles no final deste ano” - porque ainda há trabalho a fazer e a consolidar”. Mas uma das coisas que Mafalda acredita ser inevitável é uma mais eficiente recolha de dados que permita medir e comparar as ações concretas realizadas em cada área e cada empresa e o estabelecimento de metas mais exigentes - “não podemos ter metas que saibamos que vão ser fáceis de atingir, senão também não nos esforçamos, não é?”, diz divertida.
“Nós sentimos uma responsabilidade grande para com os nossos pares, neste caminho. Queremos que o que fazemos na Sogrape tenha também impacto no setor, e é por isso que, por exemplo, patrocinamos a tradução de artigos científicos que vão saindo - às vezes até os enviamos diretamente a parceiros nossos - e partilhamos o que fazemos aqui.” Para Mafalda Guedes, a diminuição do consumo de álcool, sobretudo pelas gerações mais novas, é o grande desafio dos próximos anos. “Temos de conseguir explicar que o vinho faz parte da nossa cultura, da dieta mediterrânica, que é uma das mais equilibradas, e que é também um elemento muito relevante da nossa economia”, salienta.
“Acho que o maior desafio é tentarmos perceber como chegar de forma diferente ao consumidor, porque afinal continuamos a ter de vender vinho. E essa antecipação, e estas decisões que tomarmos agora, não têm só impacto no curto prazo - nem queremos que seja assim. O nosso compromisso é com o futuro. O que fazemos agora vai ter impacto daqui a 30 anos. Tal como as decisões que foram tomadas há 40 anos, na Sogrape, estão a ter impacto agora. E o mundo é muito diferente do que era, e vai ser muito diferente do que é, no futuro. Então o nosso compromisso é antecipar, decidir e deixar a empresa pronta para as próximas gerações”, conclui.
A Sogrape registou, em 2024 - as contas de 2025 ainda não foram reveladas - um volume de negócios superior a 350 milhões de euros. O grupo vende cerca de 150 garrafas de vinho por minuto, com o Mateus Rosé a ser importante contribuidor para estes números, e tem 1200 colaboradores espalhados pelo mundo. Desses, 700 trabalham em Portugal. Com 25 quintas e 19 adegas, continua a ser uma empresa 100% familiar.